Máquinas de Matar
(“Killing Machines” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Julho, 1952, estação de trem de Freiburg, Alemanha. Fim de férias e
estou sentado numa plataforma, aguardando uma conexão na minha viagem do Lago
de Constança de volta para o internato. Senta um cidadão simpático e
relativamente jovem ao meu lado, fazendo muitas perguntas pessoais que,
despreparado, respondo sem muita cautela. “Você gosta do internato?” “Não
gostaria de ganhar muito dinheiro e conhecer muitos lugares no mundo?” Minha
idade revelada de apenas 17 anos não invalidou o diálogo, e como minha vinda para o Brasil
já estava acertada, a pergunta não chegou a me fascinar. A chegada do meu trem
encerrou a conversa, mas ele me deu um papel com um contato em Freiburg caso me
interessasse. Comentando o caso com
professores no internato, esclareceram o provável emprego: Legião Estrangeira
Francesa (que tinha um centro de recrutamento em Freiburg). Na época, a França estava envolvida com os movimentos de independência de suas colônias.
A figura do mercenário
existe desde a antiguidade, por exemplo, grega e romana, quando escravos
conseguiam sua liberdade caso sobrevivessem as constantes guerras da época.
Mercenários formaram grandes contingentes nas guerras do Império Romano e na
expansão muçulmana da Idade Média, da mesma forma como a Legião Estrangeira
atuava nas colônias francesas. E existem até hoje. Recentes conflitos no
Iraque, na Síria, entre outros, recorreram a tropas de mercenários, com emprego
não raro nos momentos e locais mais críticos. A atual guerra da Ucrânia não é
diferente com combatentes estrangeiros lutando em ambos os lados. São na
maioria das vezes ex-combatentes de outros conflitos ou então aventureiros de
toda espécie que arriscam sua integridade física e mental ou sua vida por
salários a partir de US$ 500 por dia, podendo chegar a sete algarismos por missão
especial.
Enquanto antes as próprias estruturas militares
recrutavam seus mercenários, hoje nomes como Asgaard, Lisa ou Nbolo, e muitos
outros, aparecem como agentes de mercenários (as vezes camufladas como empresas
de segurança), recrutando candidatos não mais em estações ferroviárias, mas
pela internet. E não só isso. Além de recrutar mercenários, tais ‘empresas
militares‘ sediadas por exemplo na Rússia, Inglaterra ou Alemanha, reúnem
verdadeiros exércitos privados que operam em zonas de conflito em todo o mundo como
exércitos sem controle estatal. A empresa militar privada mais conhecida é a norte-americana
Academi (antiga Blackwater), que experimentou um crescimento sem precedentes na
"guerra ao terror". Outra organização são os ‘mercenários Wagner’
russos. Nas guerras entre nações ou em conflitos internos de países, tropas
terceirizadas de entidades privadas são cada vez mais comuns; entidades
privadas muito bem remuneradas e pouco interessadas num mundo em paz.
Números e valores são obviamente desconhecidos, mas
poupam a população de países em guerra, pelo menos em parte, de sacrifícios
humanos. Sabe-se hoje, que boa parte das perdas humanas russas nas primeiras
semanas da guerra na Ucrânia era de legionários, ou seja, os lutos e as indignações
também foram terceirizados para fora do país.
A missão do
mercenário é simples: matar, quanto mais, melhor. Matar sem causa, apenas pelo
soldo. Isso impõe uma pergunta: a tropa de obcecados pela aventura, pela glória
e pela fortuna supera ou iguala-se àquela motivada pelo patriotismo, pela
defesa da pátria, da família, da propriedade, dos valores e da história de um
povo? E mais: Um uniforme estrangeiro legaliza a morte sem causa, mas
remunerada? Afinal, o mercenário não é um cidadão em uniforme e a serviço da
pátria, ele é simplesmente uma arma, uma máquina de matar.
Interessante, todos sabemos que eles existem, mas como isso funciona, onde estão, quanto ganham, expectativa de vida...,etc, pouco se sabe ou é divulgado, por razões óbvias.
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