quinta-feira, 7 de julho de 2022

Máquinas de Matar

 

Máquinas de Matar

(“Killing Machines” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Julho, 1952, estação de trem de Freiburg, Alemanha. Fim de férias e estou sentado numa plataforma, aguardando uma conexão na minha viagem do Lago de Constança de volta para o internato. Senta um cidadão simpático e relativamente jovem ao meu lado, fazendo muitas perguntas pessoais que, despreparado, respondo sem muita cautela. “Você gosta do internato?” “Não gostaria de ganhar muito dinheiro e conhecer muitos lugares no mundo?” Minha idade revelada de apenas 17 anos não invalidou o diálogo, e como minha vinda para o Brasil já estava acertada, a pergunta não chegou a me fascinar. A chegada do meu trem encerrou a conversa, mas ele me deu um papel com um contato em Freiburg caso me interessasse.  Comentando o caso com professores no internato, esclareceram o provável emprego: Legião Estrangeira Francesa (que tinha um centro de recrutamento em Freiburg). Na época, a França estava envolvida com os movimentos de independência de suas colônias.

            A figura do mercenário existe desde a antiguidade, por exemplo, grega e romana, quando escravos conseguiam sua liberdade caso sobrevivessem as constantes guerras da época. Mercenários formaram grandes contingentes nas guerras do Império Romano e na expansão muçulmana da Idade Média, da mesma forma como a Legião Estrangeira atuava nas colônias francesas. E existem até hoje. Recentes conflitos no Iraque, na Síria, entre outros, recorreram a tropas de mercenários, com emprego não raro nos momentos e locais mais críticos. A atual guerra da Ucrânia não é diferente com combatentes estrangeiros lutando em ambos os lados. São na maioria das vezes ex-combatentes de outros conflitos ou então aventureiros de toda espécie que arriscam sua integridade física e mental ou sua vida por salários a partir de US$ 500 por dia, podendo chegar a sete algarismos por missão especial.     

Enquanto antes as próprias estruturas militares recrutavam seus mercenários, hoje nomes como Asgaard, Lisa ou Nbolo, e muitos outros, aparecem como agentes de mercenários (as vezes camufladas como empresas de segurança), recrutando candidatos não mais em estações ferroviárias, mas pela internet. E não só isso. Além de recrutar mercenários, tais ‘empresas militares‘ sediadas por exemplo na Rússia, Inglaterra ou Alemanha, reúnem verdadeiros exércitos privados que operam em zonas de conflito em todo o mundo como exércitos sem controle estatal. A empresa militar privada mais conhecida é a norte-americana Academi (antiga Blackwater), que experimentou um crescimento sem precedentes na "guerra ao terror". Outra organização são os ‘mercenários Wagner’ russos. Nas guerras entre nações ou em conflitos internos de países, tropas terceirizadas de entidades privadas são cada vez mais comuns; entidades privadas muito bem remuneradas e pouco interessadas num mundo em paz.

Números e valores são obviamente desconhecidos, mas poupam a população de países em guerra, pelo menos em parte, de sacrifícios humanos. Sabe-se hoje, que boa parte das perdas humanas russas nas primeiras semanas da guerra na Ucrânia era de legionários, ou seja, os lutos e as indignações também foram terceirizados para fora do país.

 A missão do mercenário é simples: matar, quanto mais, melhor. Matar sem causa, apenas pelo soldo. Isso impõe uma pergunta: a tropa de obcecados pela aventura, pela glória e pela fortuna supera ou iguala-se àquela motivada pelo patriotismo, pela defesa da pátria, da família, da propriedade, dos valores e da história de um povo? E mais: Um uniforme estrangeiro legaliza a morte sem causa, mas remunerada? Afinal, o mercenário não é um cidadão em uniforme e a serviço da pátria, ele é simplesmente uma arma, uma máquina de matar.  

        

 

 

 

 

Um comentário:

  1. Interessante, todos sabemos que eles existem, mas como isso funciona, onde estão, quanto ganham, expectativa de vida...,etc, pouco se sabe ou é divulgado, por razões óbvias.

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