sábado, 16 de setembro de 2023

Espaço Vital, Onde Está o Limite?

 

Espaço Vital, Onde Está o Limite?

 

(“Vital Space, Where Is the Limit?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Nosso planeta possui uma superfície total de 510 milhões de quilômetros quadrados. Desses, uma área de 149 milhões de quilómetros quadrados é constituída de terra firme. Igualmente à fauna e flora encontrada nos mares, esse um terço da superfície terrestre é habitada por uma vasta natureza vegetal e animal. De microrganismos e a plantas e animais superiores encontramos um complexo bio-sistema com milhões de espécies distribuídas entre os mais diversos biomas. São intrincados sistemas de interdependência e equilíbrios bioquímicos, energéticos e ecológicos.

 

O ‘sistema vida’ é simples e claro. Nascer, alimentar-se para a obtenção de hidrocarbonetos, proteínas, sais minerais etc. de outros seres vivos, procriar e morrer, servindo de alimento a outros seres vivos, entre microrganismos e seres mais evoluídos ou ‘superiores’ na cadeia alimentar A mesmo tempo, cada ser está condicionado e ajustado a seu próprio ecosistema. A espécie homo, contudo, desenvolveu capacidades impares de adaptação a diferentes e muitas vezes bastante hostis condições climáticas e recursos alimentares, tornando-se lenta e gradualmente dominador e dominante de praticamente todo o planeta.

 

E não lhe faltou extensão geográfica para sua expansão territorial e o encontro de novos espaços vitais. A singular capacidade intelectual do homo no mundo dos seres vivos garantiu-lhe um crescimento inusitado de sua população em todo mundo. Assim, na história mais recente podemos observar um crescimento populacional de cerca de 190 milhões de habitantes no ano zero da era cristão para 300 milhões nos próximos mil anos, atingindo o primeiro bilhão por volta do ano 1800, e desde então explodindo em pouco mais de dois séculos para os atuais 8 bilhões de habitantes.

 

Numa simples divisão da área de terras do plantes pelas mencionadas populações nos respectivos anos encontramos os seguintes espaços vitais por habitante: ano zero, 784 mil metros quadrados dessa área por habitante; ano 1000, 496 mil m2; ano 1800, 152 mil m2; ano 1900, 90 mil m2; e ano 2023, 18 mil m2 por habitante mundial. Um encolhimento impressionante! Como resposta, áreas setentrionais do globo originalmente cobertas por extensas florestas, foram transformadas em terras cultiváveis, na Europa desde meados do primeiro milênio da era cristã, e, nas Américas, desde suas colonizações nos séculos XVII a XIX, apenas para ter dois exemplos. Testemunhos disso são, por exemplo, os nomes de diversas localidades no espaço linguístico alemão que terminam em –rode ou –roda, o que significa desmatamento para o cultivo agrícola. A partir do século XX, mecanizações na agricultura e técnicas de adubagem conseguiram produzir expressivos ganhos de produtividade agrícola.

 

Como, no entanto, se trata de uma divisão global, incluindo a Antártida, os desertos e áreas montanhosas inabitáveis, ou seja, na verdade somente aproximadamente 70% das mencionadas áreas representam espaço verdadeiramente vital. E, em apenas pouco mais de dois séculos, a área disponível por habitante mundial encolheu em 88% para meros 12% desse espaço.

 

Deduzindo dessa disponibilidade as terras não aráveis, as florestas, os banhados, as áreas urbanas ou as reservas, restam no planeta Terra cerca  de 41,4 milhões de quilómetros quadrados de terras aráveis (ONU, FAO), o seja, com a população atual apenas 5,2 mil metros quadrados por habitante para garantir seu sustento (equivalente a um lote de cerca de 52 por 100 metros por pessoa) para a produção de cereais, verduras, laticínios, carne etc. Esses 5,2 mil m2 produzem (produtividade 2022) 2.300 kg/ano de arroz, ou 87 kg/ano de carne bovina, ou 1.900, kg/ano de soja, dos quais aproximadamente 70% se destinam a alimentação animal. Esses valores são médias mundiais, sabendo-se que há regiões com produtividades bem abaixo, e outras expressivamente acima desses valores.  

 

Na contrapartida, o consumo anual per capita, focando apenas dois produtos na média mundial, de arroz é de 30 kg, e de carne, 43 kg. No entanto, a produção de cada quilograma de carne consumo 160 kg/ano de soja para a alimentação animal. Com isso, apenas a produção de arroz e carne requerem um pouco mais da metade (2.720 m2) da disponibilidade de terras cultiváveis per capita. Ainda falta o espaço para o plantio de milhos, batatas, cenouras, alface e muito, muito mais produtos. Em outras palavras, com a produtividade agrícola de 100 anos atrás, a população mundial atual não seria possível. 

 

E há um, agravante: com uma população mundial de 10 bilhões de habitantes projetados para mais ou menos o ano 2050 (visto como pico com posterior decréscimo), a mesma área de cerca de 41,4 milhões de quilómetros quadrados de terras aráveis deverá alimentar 25% mais bocas do que as atuais, dependendo unicamente de significativos aumentos de produtividade agrícola. A pergunta é: onde é o limite da capacidade de produção do campo? Por outro lado, uma solução virá com a previsível inversão demográfica.

 

E eis um paradoxo: o desperdício mundial entre o campo e o consumo final de grãos está em mais de 10%, de verduras, frutas e hortaliças, em cerca de 20%, e de carnes, acima de 30%. 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Vamos Cair na Real

 

Vamos Cair na Real

("Let's Get Real" - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O que mais frequentemente se escuta em comentários sobre a conjuntura das mais diversas áreas da economia, especialmente indústria e comércio, é a constatação de uma ‘momentânea’ retraída na demanda, porém a certeza de uma recuperação nos próximos semestres. E não faltam análises e argumentos técnicos solidamente fundamentados que justifiquem tais prognósticos. São explicações, sem dúvida, tranquilizantes, seja para empresários, seja para a classe política. E, de fato, são argumentos, na maioria das vezes, perfeitamente corretos na estrita visão econômica. Mas há outros, e o problema dessas projeções reside na perspectiva monofocal econômica, sem a consideração de outros parâmetros e entre esses, com destaque, o demográfico.

 

O único e efetivo agente econômico é o homem. É o homem em sua atividade econômica, mas também na sua dimensão demográfica. É o homem em sua eterna busca por uma vida segura, saudável, confortável e, porque não, de realização de sonhos. A consequência é uma milenar melhora de expectativa e qualidade de vida; conhecemos os inúmeros sonhos concretizados que beneficiaram sociedades inteiras, às vezes toda a humanidade.

 

Os benefícios conquistados ao longo de milhares de anos garantiram um moderado, mas continuo aumento populacional, apenas interrompido em momentos de guerras, catástrofes ou epidemias. Esse ritmo mudou nos últimos dois séculos e meio em decorrência de êxitos e triunfos tecnológicos na raiz da revolução industrial, acompanhados de vitorias na medicina e saúde pública, resultando numa explosão demográfica praticamente global. Em 200 anos, a população mundial passou de menos de 1 para mais de 6 bilhões de habitantes. Nesse mesmo período, o homem tomou literalmente conta de todo o planeta (salvo algumas profundezas oceânicas).

 

Curiosamente, o termo ‘homem’ é sinônimo de humanidade – mulher não. Igualmente curioso é o fato de quando a mulher deixou parta trás seu papel de criadora de filhos e dona de casa, provocou uma nova revolução – a da mudança demográfica. Seu ingresso na vida econômica, facilitada pela educação e o surgimento da pílula anticoncepcional. causou uma quase imediata queda nas taxas de natalidade.

 

No caso brasileiro, essa queda teve pôr consequência que por volta da virada do século a taxa de natalidade passou de forma decrescente da marca da taxa de mera reposição populacional, ou seja, de 2,1 filhos por mulher, e desde então essa taxa diminuiu gradativamente para a atual média 1,6 filho por mulher. Isso significa que desde aquele momento, nascem menos filhos do que seria necessário para garantir uma população numericamente constante. E esse déficit acumulado nos últimos 23 anos é de cerca de 33 milhões de pessoas, das quais cerca de 15% (5 milhões) já teriam hoje atingido a maior idade, ou seja, seriam teoricamente pessoa economicamente ativas. Essa realidade apenas não se espelha no último censo populacional, que ainda registra 0,1% de crescimento ao ano, em virtude do aumento de expectativa de vida (também já a taxas decrescentes), isso é, vida mais longa dos idosos.

 

Temos, portanto, uma quebra de cerca de 28 milhões de crianças e adolescentes a menos nos respectivos mercados de consumo se dimensionados pelos índices de crescimento habitual, de fraldas e livros escolares a tênis e telefones celulares. O mesmo quadro apresenta-se na sua especificidade para os aproximadamente 5 milhões de adultos em déficit. Isso significa para o produtor e comerciante de bens e serviços projeções de venda (salvo aqueles, cujo mercado se concentra no consumo por idosos) que se situam entre estagnação e decréscimo.

 

Sinais dessa realidade já se fazem sentir, seja nas montadoras de veículo, seja nos fabricantes de chupetas. Falta identificar suas causas não exclusivamente como de origem conjuntural econômica, mas incluir nas considerações as mudanças de dinâmicas demográficas. São ponderações de mudança no médio e longo prazo. Baixíssimas taxas de crescimento do PIB (se tanto) – não necessariamente do PIB per capita –, tendências deflacionárias, mas também concentrações de patrimônio publico e privado, além de revisões profundas das nossas teorias econômicas e muito mais farão parte de um futuro não muito distante. Por outro lado, políticas públicas terão de ser repensados em profundidade.

 

Em caso de dúvida, basta dar uma olhada nas recentes pirâmides etárias do Brasil, e de outros mais de 20 países em situação igual ou mais acentuada, incluindo Japão, Alemanha, Itália e Rússia. E alguns desses países poderão ter apenas metade da população atual em 2100. O Brasil deverá perder em torno de 50 milhões de habitantes no mesmo período.

 

No momento, o que importa é estar consciente de que nos encontramos no início da chegada de um novo mundo – possivelmente precisando de um novo homem, orientado por outros valores e objetivos existenciais.