Vamos Cair na Real
("Let's Get
Real" - This
text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
O que mais
frequentemente se escuta em comentários sobre a conjuntura das mais diversas
áreas da economia, especialmente indústria e comércio, é a constatação de uma
‘momentânea’ retraída na demanda, porém a certeza de uma recuperação nos
próximos semestres. E não faltam análises e argumentos técnicos solidamente
fundamentados que justifiquem tais prognósticos. São explicações, sem dúvida,
tranquilizantes, seja para empresários, seja para a classe política. E, de
fato, são argumentos, na maioria das vezes, perfeitamente corretos na estrita
visão econômica. Mas há outros, e o problema dessas projeções reside na
perspectiva monofocal econômica, sem a consideração de outros parâmetros e
entre esses, com destaque, o demográfico.
O único e
efetivo agente econômico é o homem. É o homem em sua atividade econômica, mas
também na sua dimensão demográfica. É o homem em sua eterna busca por uma vida segura,
saudável, confortável e, porque não, de realização de sonhos. A consequência é
uma milenar melhora de expectativa e qualidade de vida; conhecemos os inúmeros
sonhos concretizados que beneficiaram sociedades inteiras, às vezes toda a
humanidade.
Os
benefícios conquistados ao longo de milhares de anos garantiram um moderado,
mas continuo aumento populacional, apenas interrompido em momentos de guerras,
catástrofes ou epidemias. Esse ritmo mudou nos últimos dois séculos e meio em
decorrência de êxitos e triunfos tecnológicos na raiz da revolução industrial, acompanhados
de vitorias na medicina e saúde pública, resultando numa explosão demográfica
praticamente global. Em 200 anos, a população mundial passou de menos de 1 para
mais de 6 bilhões de habitantes. Nesse mesmo período, o homem tomou
literalmente conta de todo o planeta (salvo algumas profundezas oceânicas).
Curiosamente,
o termo ‘homem’ é sinônimo de humanidade – mulher não. Igualmente curioso é o
fato de quando a mulher deixou parta trás seu papel de criadora de filhos e
dona de casa, provocou uma nova revolução – a da mudança demográfica. Seu
ingresso na vida econômica, facilitada pela educação e o surgimento da pílula
anticoncepcional. causou uma quase imediata queda nas taxas de natalidade.
No caso
brasileiro, essa queda teve pôr consequência que por volta da virada do século
a taxa de natalidade passou de forma decrescente da marca da taxa de mera reposição
populacional, ou seja, de 2,1 filhos por mulher, e desde então essa taxa diminuiu
gradativamente para a atual média 1,6 filho por mulher. Isso significa que
desde aquele momento, nascem menos filhos do que seria necessário para garantir
uma população numericamente constante. E esse déficit acumulado nos últimos 23
anos é de cerca de 33 milhões de pessoas, das quais cerca de 15% (5 milhões) já
teriam hoje atingido a maior idade, ou seja, seriam teoricamente pessoa
economicamente ativas. Essa realidade apenas não se espelha no último censo populacional,
que ainda registra 0,1% de crescimento ao ano, em virtude do aumento de
expectativa de vida (também já a taxas decrescentes), isso é, vida mais longa dos
idosos.
Temos,
portanto, uma quebra de cerca de 28 milhões de crianças e adolescentes a menos
nos respectivos mercados de consumo se dimensionados pelos índices de
crescimento habitual, de fraldas e livros escolares a tênis e telefones
celulares. O mesmo quadro apresenta-se na sua especificidade para os aproximadamente 5 milhões de
adultos em déficit. Isso significa para o produtor e comerciante de bens e
serviços projeções de venda (salvo aqueles, cujo mercado se concentra no
consumo por idosos) que se situam entre estagnação e decréscimo.
Sinais
dessa realidade já se fazem sentir, seja nas montadoras de veículo, seja nos
fabricantes de chupetas. Falta identificar suas causas não exclusivamente como
de origem conjuntural econômica, mas incluir nas considerações as mudanças de
dinâmicas demográficas. São ponderações de mudança no médio e longo prazo. Baixíssimas
taxas de crescimento do PIB (se tanto) – não necessariamente do PIB per capita
–, tendências deflacionárias, mas também concentrações de patrimônio publico e privado, além de revisões profundas das nossas teorias
econômicas e muito mais farão parte de um futuro não muito distante. Por outro
lado, políticas públicas terão de ser repensados em profundidade.
Em caso
de dúvida, basta dar uma olhada nas recentes pirâmides etárias do Brasil, e de
outros mais de 20 países em situação igual ou mais acentuada, incluindo Japão,
Alemanha, Itália e Rússia. E alguns desses países poderão ter apenas metade da
população atual em 2100. O Brasil deverá perder em torno de 50 milhões de habitantes no mesmo período.
No
momento, o que importa é estar consciente de que nos encontramos no início da
chegada de um novo mundo – possivelmente precisando de um novo homem, orientado por outros valores e objetivos existenciais.
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