terça-feira, 12 de setembro de 2023

Vamos Cair na Real

 

Vamos Cair na Real

("Let's Get Real" - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O que mais frequentemente se escuta em comentários sobre a conjuntura das mais diversas áreas da economia, especialmente indústria e comércio, é a constatação de uma ‘momentânea’ retraída na demanda, porém a certeza de uma recuperação nos próximos semestres. E não faltam análises e argumentos técnicos solidamente fundamentados que justifiquem tais prognósticos. São explicações, sem dúvida, tranquilizantes, seja para empresários, seja para a classe política. E, de fato, são argumentos, na maioria das vezes, perfeitamente corretos na estrita visão econômica. Mas há outros, e o problema dessas projeções reside na perspectiva monofocal econômica, sem a consideração de outros parâmetros e entre esses, com destaque, o demográfico.

 

O único e efetivo agente econômico é o homem. É o homem em sua atividade econômica, mas também na sua dimensão demográfica. É o homem em sua eterna busca por uma vida segura, saudável, confortável e, porque não, de realização de sonhos. A consequência é uma milenar melhora de expectativa e qualidade de vida; conhecemos os inúmeros sonhos concretizados que beneficiaram sociedades inteiras, às vezes toda a humanidade.

 

Os benefícios conquistados ao longo de milhares de anos garantiram um moderado, mas continuo aumento populacional, apenas interrompido em momentos de guerras, catástrofes ou epidemias. Esse ritmo mudou nos últimos dois séculos e meio em decorrência de êxitos e triunfos tecnológicos na raiz da revolução industrial, acompanhados de vitorias na medicina e saúde pública, resultando numa explosão demográfica praticamente global. Em 200 anos, a população mundial passou de menos de 1 para mais de 6 bilhões de habitantes. Nesse mesmo período, o homem tomou literalmente conta de todo o planeta (salvo algumas profundezas oceânicas).

 

Curiosamente, o termo ‘homem’ é sinônimo de humanidade – mulher não. Igualmente curioso é o fato de quando a mulher deixou parta trás seu papel de criadora de filhos e dona de casa, provocou uma nova revolução – a da mudança demográfica. Seu ingresso na vida econômica, facilitada pela educação e o surgimento da pílula anticoncepcional. causou uma quase imediata queda nas taxas de natalidade.

 

No caso brasileiro, essa queda teve pôr consequência que por volta da virada do século a taxa de natalidade passou de forma decrescente da marca da taxa de mera reposição populacional, ou seja, de 2,1 filhos por mulher, e desde então essa taxa diminuiu gradativamente para a atual média 1,6 filho por mulher. Isso significa que desde aquele momento, nascem menos filhos do que seria necessário para garantir uma população numericamente constante. E esse déficit acumulado nos últimos 23 anos é de cerca de 33 milhões de pessoas, das quais cerca de 15% (5 milhões) já teriam hoje atingido a maior idade, ou seja, seriam teoricamente pessoa economicamente ativas. Essa realidade apenas não se espelha no último censo populacional, que ainda registra 0,1% de crescimento ao ano, em virtude do aumento de expectativa de vida (também já a taxas decrescentes), isso é, vida mais longa dos idosos.

 

Temos, portanto, uma quebra de cerca de 28 milhões de crianças e adolescentes a menos nos respectivos mercados de consumo se dimensionados pelos índices de crescimento habitual, de fraldas e livros escolares a tênis e telefones celulares. O mesmo quadro apresenta-se na sua especificidade para os aproximadamente 5 milhões de adultos em déficit. Isso significa para o produtor e comerciante de bens e serviços projeções de venda (salvo aqueles, cujo mercado se concentra no consumo por idosos) que se situam entre estagnação e decréscimo.

 

Sinais dessa realidade já se fazem sentir, seja nas montadoras de veículo, seja nos fabricantes de chupetas. Falta identificar suas causas não exclusivamente como de origem conjuntural econômica, mas incluir nas considerações as mudanças de dinâmicas demográficas. São ponderações de mudança no médio e longo prazo. Baixíssimas taxas de crescimento do PIB (se tanto) – não necessariamente do PIB per capita –, tendências deflacionárias, mas também concentrações de patrimônio publico e privado, além de revisões profundas das nossas teorias econômicas e muito mais farão parte de um futuro não muito distante. Por outro lado, políticas públicas terão de ser repensados em profundidade.

 

Em caso de dúvida, basta dar uma olhada nas recentes pirâmides etárias do Brasil, e de outros mais de 20 países em situação igual ou mais acentuada, incluindo Japão, Alemanha, Itália e Rússia. E alguns desses países poderão ter apenas metade da população atual em 2100. O Brasil deverá perder em torno de 50 milhões de habitantes no mesmo período.

 

No momento, o que importa é estar consciente de que nos encontramos no início da chegada de um novo mundo – possivelmente precisando de um novo homem, orientado por outros valores e objetivos existenciais.   

  

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