quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O Mito da Superpopulação

 

O Mito da Superpopulação

 

(“The Myth of Overpopulation¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O medo de um crescimento populacional explosivo remonta ao século XVIII. Naquela época, o pastor e economista britânico Thomas Malthus alertou que um número crescente de pessoas inevitavelmente levaria ao empobrecimento, à fome e às guerras. Para evitar essa "armadilha populacional", Malthus propôs a abstinência e a abolição da ajuda aos pobres. Suas teorias são baseadas em ideias darwinistas sociais, parcialmente eugênicas, e foram refutadas repetidas vezes.

 

Era um medo fundamentado. Afinal, a população mundial no início daquele século é estimada em cerca de 600 milhões de pessoas, e estima-se que tenha aumentado para 970 milhões de pessoas até o final do mesmo. Talvez não se tenha tido dados estatísticos razoavelmente precisos naquela época, mas certamente percebeu-se a mudança demográfica na vida cotidiana, principalmente a expansão das cidades. Em suma o crescimento da população global daqiele século excedeu o crescimento acumulado dos cinco séculos anteriores.

 

Não se tratava de um fenômeno somente europeu. Se por um lado observou-se a ocupação maciça das Américas por contingentes europeus, por outro, o Império Chinês continuou sua expansão na Ásia até atingir sua maior extensão em 1759, resultando em prosperidade econômica e um forte crescimento populacional.

 

E não parou ali. O século XIX registra um aumento demográfico global de 900 milhões para 1,65 bilhão de habitantes mundiais, ou seja, um aumento de 83,3%. No entanto, pior ainda foi a explosão demográfica do século XX, daquele 1,65 bilhão para 6,17 bilhões de humanos, significando um aumento de 373,9%, numa espantosa média de 3,7% por ano, ou seja, essa média de uma década equivale ao aumento demográfico do século XVI inteiro!

 

Um detalhe dessa expansão demográfica é que ela se concentrou no hemisfério norte do globo, em rápido desenvolvimento, não por acaso em consequência de ter abrigado a parcela da humanidade mais exposta a desafios existenciais ao longo de sua história. As causas principais dessa expansão a partir do dos séculos XVIII e XIX foram uma gradual melhora na segurança social e os recursos médicos mais desenvolvidos e sofisticados. Observamos um crescimento populacional que obviamente começou a deixas suas marcas na florescente economia e prosperidade geral, não esquecendo, por ouro lado, os efeitos colaterais negativos, mesmo que inicialmente ignorados.        

 

Hoje, a população mundial soma cerca de espantosos oito bilhões de seres humanos, o mamífero de porte mais numeroso do planeta (em segundo lugar está o boi doméstico com cerca de 1,5 bilhão de indivíduas).

 

Mas algo ocorreu desde fins do século XX. Vários fatores, como o controle de natalidade pela própria mulher em busca de autonomia social e profissional, ou a intenção de garantir um futuro próspero aos filhos, entre outros, começaram a determinar uma redução gradativa na taxa de natalidade por mulher. No espaço de tempo de apenas três gerações, as famílias com seis, oito, dez, ou mais filhos viraram história. Atualmente, a média mundial caiu para 2,3 filhos por mulher.

 

Mundialmente, mesmo na África, as taxas de auimento populacional estão em declínio. Na Ásia, por exemplo, esse crescimento, que era de 4,0% ao ano durante o século XX, diminui para 1,1% na década de 2010/20. Nas Américas, a respectiva queda foi de 5,9% para 2,1%. Já na Europa, a mencionada redução foi de 0,8% para 0,15%.

 

As causas dessa mudança demográfica são bastante sólidas e convincentes de que não se trata de um fenômeno espontâneo e transitório. Daí os mais diversos órgãos nacionais e internacionais, que operam estatísticas e projeções demográficas, preveem um crescimento zero para a população mundial para algum momento entre 2060 e 2100 – sendo continuamente corrigidas para baixo. E esse mesmo momento será o ponto inicial para o decréscimo demográfico mundial. Não se trata de um fenômeno simultâneo, e na realidade em vários países, como Japão ou Itália, já registram crescimentos negativos.

 

Percebe-se que não se trata de uma ruptura com repentinas consequências catastróficas, porém de um processo lento, permitindo os ajustes conjunturais necessários, seja no mundo econômico, seja no administrativo de cada sociedade. Possivelmente haverá necessidade num novo modelo existencial, caraterizado por alto nível tecnológicos, dando suporte a uma população cada vez menor. O resultado será um cenário vivencial inédito: o patrimônio público e privado construído    por gerações anteriores, mais numerosas, estará à disposição de populações cada vez menores. De qualquer maneira, é impossível prever como uma sociedade, depois de um longo passado de crescimento em todos os sentidos, lidará com essa nova realidade.

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 9 de novembro de 2024

Hegemonias Não São Eternas

 

Hegemonias Não São Eternas

 

(“Hegemonies Are Not Eternal” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Hegemonias vem e vão. Supremacias vem e vão. Isso é uma constante histórica da humanidade desde quando estruturada em sociedades organizadas. Há milhares de anos, prosperidades regionais fizerem surgir sociedades fortes com potencial de expansão territorial e consequentes domínios de povos próximos menos afortunados. Sem esquecer evoluções civilizatórias no mundo asiático, conhecemos as primeiras estruturas estatais política e economicamente fortes surgidas no 4º milênio a.C. na Mesopotâmia, depois no Egito ao longo do rio Nilo (mas, menos notavelmente, também na costa do Pacífico sul-americano).

 

Um marco na história antiga foi o surgimento do Império Romano, que acabou por impor seu crescente poder militar, político, mas também cultural no sul e sudeste europeu, no Oriente Médio, ao redor do Mar Mediterrâneo e em terras germânicas. Durou de 27 a.C. a 1453 d.C. — um total de 1.480 anos para depois implodir.

 

Nos séculos XII e início do XIII, de origem asiática, o Oriente Médio, mas principalmente a Europa, foram alvos da expansão do Império Mongol, que, em seus avanços bélicos, chegou a formar o maior império contíguo da história, cobrindo 27,3 milhões de quilômetros quadradas de terra. O império teve 110 milhões de pessoas entre 1270 e 1309. Acabou sendo um império insustentável em sua época e desapareceu do mapa.

 

Depois de um vácuo secular, embora e paralelamente à expansão do cristianismo como fator de determinação civilizatória em terras europeias, o Império Otomano estabeleceu uma supremacia política e religiosa no espaço mediterrâneo, chegando ao seu auge entre os séculos 16 e 17 d.C., cobriu partes de três continentes para então lentamente sucumbir.

 

Com as iniciativas desbravadoras hispânicas, e portuguesas, dos séculos XVI e XVII, as supremacias territoriais começaram a ter origem europeia. Os continentes, americano, africano e asiático eram imensos, praticamente sem oferecer resistência à ocupação – e subjugação. Entretanto, depois de apenas o Império Hispânico, em seu auge, atingir uma soma de territórios de 13,7 milhões de quilômetros quadrados no final do século XVIII, iniciou-se um gradual declínio com um recuo final aos domínios limitados à atual península hispânica. – Impérios vem e vão.

 

As mesmas precondições favoráveis deram origem à quase simultânea construção do Império Britânico. Esse tornou-se o maior império da história, dominando quase um quarto do planeta. Motivado pelas explorações portuguesas e hispânicas, seu início deu-se no final do século XVI. O Império Britânico impôs a sua supremacia política, económica e militar ao redor do mundo, principalmente depois da derrota de Napoleão em 1814 e até ao início do século XX.

 

Em seu auge em 1920, o Império Britânico cobria 35,5 milhões de quilômetros quadradas, o que representava quase um quarto da área terrestre do mundo, e no qual “o sol não se punha”. Em 1913, o Império Britânico controlava 412 milhões de pessoas, o que representava 23% da população mundial na época. No entanto, ele começou a declinar após as duas guerras mundiais, quando a Grã-Bretanha ficou enfraquecida e endividada. A Grã-Bretanha também perdeu parte do seu poderio económico face a concorrentes como os Estados Unidos e a Alemanha. – Foi uma transição sem traumas nacionais.

E foram exatamente os Estado Unidos, como os grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial, que assumiram uma nova liderança socioeconômica, política e cultural no mundo, apenas contestada pelo regime ideologicamente oponente da União Soviética ao longo de quase cinco décadas de Guerra Fria até a implosão do mundo comunista. A hegemonia norte-americana estendeu-se, direta ou indiretamente, pelos cinco continentes. Não foi uma supremacia territorial, mas um forte domínio – senão dependência – econômico, às vezes, político, especialmente sobre os países do assim chamado Terceiro Mundo. Uma hegemonia praticamente global.

 

Todavia, ao longo da história dos últimos milênios, nenhuma supremacia, hegemonia ou liderança conseguiu ser eterna. Assim e por enquanto, lenta, mas continuamente, outro candidato a líder econômico mundial já está se destacando – a China. Achando um compromisso entre uma doutrina político socialista e uma economia de mercado, ao longo dos últimos 40 anos avançou de um PIB de 190 bilhões de dólares, ou seja, insignificantes 6,5% dos 2,9 trilhões de dólares dos Estados Unidos em 1980, para atuais 18,3 trilhões de dólares, significando quase dois terços dos 29,17 trilhões estadunidenses. Um avanço, sem dúvida, espetacular, e, embora de impulso mais reduzido, promete continuidade. Ao lado de outros atores relevantes, outros aspectos determinantes: sua capacidade tecnológica e seu mercado de consumo interno, que é quatro vezes maior que o norte-americano.

 

A liderança econômica dos Estado Unidos está ameaçada? A lógica histórica e as evidências dizem que sim, e a admissão não será fácil no mundo da informação global. E acabará ali? Certamente não tão breve. A Índia está revelando progressos expressivos. E, quem sabe, ainda existe o continente africano. Hegemonias não são eternas.