sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Cadê os Velhinhos?

 

Cadê os Velhinhos?

 

 ‘Where are the Oldies?’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Vez por outra aparece na mídia social uma relação anacrônica de objetos de produtos que faziam parte da nossa vida – nossa, para os idosos –, da geração anterior às dos atuais jovens e adultos.

 

Depois de séculos de poucas mudanças dos meios e utensílios para as mais diversas finalidades para os objetos e processos do cotidiano presente, o último século foi de fato revolucionário em termos de aperfeiçoamentos, aprimoramentos e inovações nas disponibilidades de consumo. O avanço tecnológico está impondo renovações e substituições antes dos bens e serviços terem esgotado sua vida útil. Os produtos tornam-se tecnologicamente obsoletos enquanto ainda estão funcionalmente perfeitos.

 

Consequência direta são maneiras renovadas de conduzir a vida no ambiente de recursos – e condicionantes – de uma vida em permanente mutação, sem em busca de facilitar os mais diversos aspectos da vadia. Os modi vivendi mudam a cada instante, as vezes lenta, outras vezes abruptamente. E há um preceito inflexível: o mundo moderno não admite uma vida nos moldes de décadas atrás.

 

 

Num olhar para trás percebem-se distâncias enormes entre os padrões de vida de apenas um século atrás e o presente. São mudanças de qualidade e são muitas, algumas profundas, outras menos importantes, algumas sutis, outras nem tanto:

- a conversa saÍa da boca, não dos dedos;

- a palavra era levada pessoalmente à casa do destinatário, ou então por carta ou telegrama, eventualmente por telefone;

- as notícias chegavam apenas no dia seguinte (ou mais tarde ainda), o que lhes tirava parte do impacto;

- na igreja, os homens sentavam num lado da igreja e as mulheres no outro, e o padre rezava a missa de costas para os fiéis – e em latim;

- os pais eram chamados de senhor e senhora pelos filhos, aliás, os professores também;

- os alunos iam a pé, ou de ônibus, para a escola e os livros (da FTD!) passavam dos filhos mais velhos para os mais novos – como acontecia com roupas e sapatos;

- os automóveis tinham absoluta preferência;

- o único serviço público ou privado utilizado era a energia elétrica (onde havia);

- o jogo de sala era incluída no testamento;

- homem de cabelo comprido ou de calça vermelha, impensável;  

- almoçar ou jantar fora de casa significava um evento especial; ...

- ah, e ainda não existia a pílula anticoncepcional.

 

Além disso, a estrutura familiar incluía três gerações; avó, avô, ou ambos, moravam com um dos filhos até sua despedida final. Como, então, a mulher ainda não estava tão intensivamente envolvida em carreiras profissionais, ela cuidava das tarefas domésticas e os velhinhos passavam o dia sentados num sofá ou numa cadeira de balanço – sem objetivo, sem utilidade. Mas, se você hoje pergunta a quem viveu todas estas realidades o que melhorou ou piorou desde então, uma resposta é quase unânime: o mundo era mais legível, mais compreensível.

 

Já, há algum tempo, o idoso tenta, e com bastante empenho e sucesso, livrar-se desse estereótipo. Não sem a ajuda de recursos da vida moderna, ele busca cada vez mais viver sua autonomia. Ele, ou ela, mora sozinho, tem seu computador, seu telefone celular que, obviamente, não domina em toda extensão de suas capacidades, porque não, seu carro na garagem – e um ticket de cruzeiro marítimo no bolso. E lá adiante, as opções de uma florescente indústria de casas de acolhimento de idoso está esperando de braços abertos. A própria indústria de construção civil, hoje está focada em moradias para a família nuclear – casa e, no máximo, dois filhos.

 

Foram, ou ainda são mudanças de livre escolha? Não, não foram. Elas foram claramente impostas pelos avanços técnicos que, ao longo do último século, invadiram consequentemente todas as facetas de nossas vidas, do utensílio doméstico, passando pela comunicação, à medicina, recursos sem os quais a autonomia adquirida seria impensável. E o idoso soube se beneficiar e adaptar às novas realidades – certamente nem sempre sem reservas e restrições. Afinal, ele deu origem a uma nova categoria na sociedade, que nem nome ainda tem.

 

O idoso, ou a idosa, deixou de aguardar sua morte para prolongar sua vida.   

 

 

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Qual É Nosso Sonho?

 

Qual É Nosso Sonho?

 

(“What is our dream?”) – This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Você gostaria que algo aconteça. Você torce. Que tal, um fim de semana com sol na praia? Que tal um ganho na mega sena? Que tal, um vereador, deputado, senador, ou presidente que vença as eleições para os próximos quatro anos? Você gostaria que sua filha namorasse com um moço que combine com o perfil que você idealizou? Você gostaria que o câmbio do dólar abaixasse? Você gostaria de trocar seu caro daqui a dois anos? Você gostaria...? Você gostaria...?

 

É claro. Todo dia gostaríamos que algo acontecesse. Algo para hoje, para amanhã, ou depois de amanhã. Nosso cotidiano está pleno de desejos. Desejos? Desejos são vontades e projeções desejosas de continuidade enriquecida de conteúdos da nossa realidade. Uma vida melhor, claro.

 

I have a dream” (Tenho um sonho.) Martin Luther King, o discurso, realizado no dia 28 de agosto de 1963, nada tem a ver com “eu gostaria”, ou com um simples desejo. Foi um discurso emblemático em defesa da igualdade racial nos Estados Unidos, e esse sonho custou-lhe a vida. E foi o sonho de toda uma população discriminada.

 

Sempre houve, e continua havendo muitos sonhos neste mundo – desde à libertação de povos escravizados na antiguidade, às vezes durante gerações, a realização de uma visão científica num quase sinistro laboratório. Verdadeiros sonhos costumam emergir de passados de necessidades, de sofrimento, de visões de uma vida melhor;

 

Povos migram desde centenas de milhares de anos em busca de uma vida melhor, em busca da realização de seus sonhos. Não são desejos, não são “gostaria de ... “, são sonhos cultivados por gerações.

 

Sonhos emergem de necessidades, de privações. Um relativo bem-estar não gera sonhos, apenas alimenta desejos de curto prazo, eventualmente logo substituídos por outros. Nossos supostos sonhos do momento nada movem.

 

Sonhos nascem, crescem e se realizam – ou não. Sonhos brotam de dentro de uma pessoa ou de uma sociedade, eles podem ser liderados, ... mas não construídos, sejam quais forem os interesses ou as ideologias. E não faltam exemplos de sonhos criados, ilusórios, desastrosos e autodestrutivos (p.ex., o Terceiro Reich e a União Soviética).

 

O sonho é o patrimônio de uma sociedade, sem o qual ela simplesmente vegeta, simplesmente acompanha o mundo. Qual é o nosso sonho, o sonho de nossa sociedade, de nosso país? O sonho de um país que nunca sofreu ameaças à sua integridade, que nunca sofreu privações sérias, que simplesmente vive o cotidiano? Ao mesmo tempo, um país acotovelado pelos sonhos alheios?


Qual é o nosso sonho, o sonho de uma nação constituída de imigrantes em busca da realização de seus sonhos e hoje habitada por seus descendentes, herdeiros desse espírito?

 

Qual é nosso sonho? Ou somos felizes e não sabemos?

 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Da Autonomia à Dependência

 

Da Autonomia à Dependência

(“From Autonomy to Dependence” – This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Já fomos autônomos – ‘fomos’ refere-se a nossos antepassados. Durante centenas de milhares de anos, o homem vivia exclusivamente dos de recursos naturais disponíveis e da sua capacidade de torna-los aproveitáveis. Podemos ter uma ideia dessa autonomia, observando a vida das poucas populações indígenas ainda não aculturadas. Como o homem é um ser social e sempre vivia em sociedades, havia, naturalmente, esforços conjugados e trocas intra-tribais (tudo é de todos) dentro de um padrão de vida restrito à subsistência e eventuais manifestações de caráter cultual. O ser humano solitário sempre foi, e ainda é hoje, uma anomalia

 

Com a progressiva fixação na terra surgem também as primeiras aglomerações com caráter urbano. Isso exigia um mínimo de organização e estruturação de tais sociedades. É natural que daí emergiam novas necessidades, típicas para assentamentos perenes com novos padrões de habitação durável. E novas demandas dão origem a novas respostas, entre compulsórias (p.ex. acesso a água, proteção e administrativa – mais tarde, o burgomestre) e espontâneas. Essas últimas resultavam das diferentes experiências, habilidades e capacidades dos membros dessas sociedades primitivas.

 

O próprio aprimoramento do cultivo da terra por meio de técnicas agrícolas p.ex., cumulando na rotatividade de três campos), equipamentos e ferramentas melhorados estimulou o desenvolvimento de artifícios paralelos como a moagem de grãos, a produção de ferramentas de metais, utensílios de argila e construções madeira e barro, entre outros, dando origem a atividades complementares à lavoura – dando origem a interdependências entre ocupações – e desenvolvendo habilidades e técnicas cada vez mais sofisticadas. A simbiose entre cidade e campo daí emergida é conhecida.

 

Em tempos mais recentes isso levou a especializações cada vez mais elaboradas dentro de uma vida profissional. Consolidou-se assim uma dependência e complementação mútuas entre aqueles que produziam alimentos e os igualmente importantes e indispensáveis que laboravam na produção de bens e serviços que tornassem a vida – também no campo – mais confortável; uma coexistência cada vez mais sólida e com ganhos – e perdas – em todos os setores.

 

Mas a interdependência entre os homens não parou ali. Por um lado, de conhecimentos rudimentares, em parte muito antigos, emergiu gradativamente o avanço para a medicina moderna. É preciso observar que até meados do século XX a expectativa de vida não mudou significativamente, mantendo-se em torno de 45 anos. Entretanto, nos últimos duzentos anos, a medicina fez grandes progressos: no século XVIII a expansão da vacinação, em 1922, a primeira pessoa recebe tratamento para diabetes tipo 1 com insulina, a penicilina e descoberta em 1928 e os antibióticos são usados a partir de 1940. Em 1949, a quimioterapia contra o câncer é aprovada. E esse foi apenas o começo, que resultou em atuais procedimentos médicos e recursos fármaco-terapêuticos high-tec. Hoje, transplantes de órgãos e cirurgias robóticas são parte do cotidiano. A dependência do homem da medicina tornou-se irreversível.

 

Por outro lado, depois dos importantes progressos técnicos decorrentes das revoluções energética e industrial, em menos de cem anos construímos um mundo cibernético – da secretária eletrônica à operação financeira via telefone celular – que invadiu todas as condições e potenciais da vida humana, num clique resolvendo complexidades que anteriormente exigiam extenuantes esforços físicos e mentais. E está aí a inteligência artificial, cuja extensão de capacidades, efeitos e resultados ninguém se arrisca a prever.

 

As próprias políticas econômicas e sociais oferecem hoje seguranças existenciais inimagináveis a algumas gerações atrás.  

 

Os frutos são inegáveis. Conquistamos uma expectativa de vida média mundial de 73,33 anos (2024), com picos de 87 anos em alguns países asiáticos e europeus. Eis o resultado da conjugação das conquistas civilizatórias em todos os aspectos da vida humana.        

 

Enfim, o homem atual não tem mínimas chance de sobreviver, mesmo em curto prazo, fora das intrincadas e sofisticadas estruturas que construiu para garantir o que chama de qualidade de vida. Isso não somente devidos aos modernos recursos medicinais, mas também às condições de trabelho, comunicações – físicas e virtuais –, à disponibilidade de alimentação saudável, entre outros.

 

Mas cabe uma ressalva: apenas cerca de metade da população desfruta desse padrão de Vida.

 

Por outro lado, exatamente essa metade de habitantes do nosso planeta está sujeita a uma imposição da própria tecnologia, seja qual for seu campo: não existe tecnologia perfeita, seja por suas próprias caraterísticas e particularidades, seja por efeitos externos. As consequências podem estar limitadas a um produto doméstico, mas também a todo um sistema complexo, como no caso de um colapso cibernético, ou ainda uma interferência cósmica (p.ex., uma erupção solar com sua protuberância exatamente direcionada à Terra – pouco provável, mas não impossível), afetando os milhares de satélites, cuja inoperância repentina significaria uma catástrofe para toda a humanidade com efeitos praticamente imediatos.

 

E não existe pano B que evite uma eventual calamidade. Precisamente a metade da humanidade hoje beneficiada pelo nosso status tecnológico será aquela com menos chances - ou mesmo com incapacidade - de readequação a padrões de vida mais rudimentares, ou até de sobreviver.

 

Ao longo dos últimos séculos, a humanidade construiu um complexo mundo de tecnologias interativas e interdependentes com o único objetivo de melhorar seu bem-estar e suas condições de vida, para hoje viver na total dependência do perfeito funcionamento dessa natureza paralela.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 20 de julho de 2024

Urbanização, um Desafio

 

Urbanização, um Desafio.

(“Urbanization, a Challenge”) – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Formações urbanas existem a milhares de anos. Exemplo é a cidade Harappa, no 3º milênio aC, na civilização do Indo, e que tinha uma estrutura ordenada com ruas dispostas em um padrão quadriculado. Em passados mais recentes, estruturas urbanas costumavam se formar ao redor dos centros de poder, de instalações militarmente estratégicas, ou ao longo de rotas comerciais terrestres, fluviais e marítimas.

 

Uma urbanização mais intensiva resultou do êxodo rural e na radicação de estruturas industriais nos centros urbanos, resultando num pico na Europa, por volta do final do século XIX, e continuando a partir de meados do século XX nos países emergentes e em desenvolvimento. Enquanto na Europa continuavam como padrão edificações de poucos andares, nos Estados Unidos do final do século XIX começaram a surgir as concentrações urbanas mais compactas com os arranha-céus. 

 

A verticalização urbana naquele país transcorreu, como qualquer processo pioneiro, em relativa lentidão, permitindo simultâneos ajustes de planificação urbana. Já na América Latina, essa tendência iniciou-se apenas depois da Segunda Guerra Mundial, porém, em ritmo muito rápido, uma vez que as tecnologias já eram conhecidas. (U pouco mais tarde, vários países asiáticos seguiram a mesma linha.)

 

Fato é que, depois de mais de dois séculos de um crescimento populacional expressivo – às vezes explosivo –, desde 2007, mais da metade da população mundial vive em cidades. (Em tempos pré-industrialização, as populações urbanas oscilavam em torno de 10% da população total.) Hoje, 4,3 bilhões de pessoas (57%) vivem em áreas urbanas, mais de 500 milhões delas em megacidades e grandes cidades com mais de 5 milhões de habitantes. De acordo com as previsões da ONU, a taxa global de urbanização aumentará consideravelmente nas próximas décadas: em 2030 chegará a 59,7% e em 2050 chegará finalmente a 69,6%.

 

Levando em conta algumas particularidades, o Brasil acompanhou toda essa evolução de sociedade eminentemente rural para outra, majoritariamente urbanizada. Entretanto, o senso de 2022 revelou uma nova realidade – a despovoação dos centros urbanos, mormente dos maiores. Praticamente todas as grandes cidades registraram um decréscimo de sua população, embora a população do país apresente um ligeiro crescimento. Os centros dessas cidades, que já eram densa e prosperamente residenciais, abrigam cada vez menos moradores, e mesmo os remanescentes pertencem a populações de menores recursos. Muitos prédios anteriormente habitados passaram a ter uso comercial – de padrão decrescente –, ou então estão vazios. Os preços de imóveis estando cada vez mais deteriorados, e, consequentemente, os alugueis em declínio atraem sempre mais locadores de recursos limitados.

 

Na verdade, as condições de habitação nesses centros urbanos mais antigos tornam-se cada vez mais precárias, seja pela própria inadequação às modernas necessidades e estilos domésticos (p.ex. apenas uma tomada elétrica por peça), seja pela infraestrutura insatisfatória do local, uma vez que os supermercados e outros estabelecimentos comerciais de bens e serviços já se deslocaram para as periferias ou cidades satélites. Aliás, os estabelecimentos industriais foram os primeiros a procurar espaços fora dos perímetros das grandes cidades. Mesmo o comércio remanescente sofre mutação para padrões cada vez mais populares; garagens somente a preço significante. No momento ainda permanecem educandários, centros clínicos e repartições públicas, entre outros de utilidade pública, devido suas localizações estratégicas – e acomodações tipicamente para moradores de baixo poder aquisitivo.  

 

Enquanto isso, as cidades satélites das metrópoles crescem substancialmente, oferendo condições afinadas com os requisitos da vida moderna; embora nem sempre as infraestruturas viárias atendam à demanda, por outro lado, incentivando o trabalho a distância.

 

Soluções? Os arquitetos e urbanistas, há tempo, estão cientes da situação e têm suas propostas. Falta o poder público assumir seu papel de planejador principal da nova urbe, que deixou de exercer no período da expansão das cidades – digamos, até por falta de preparo e o atropelo de uma dinâmica urbana inesperada – e a consciência da necessidade de recursos para tal. Cabe ao poder público estabelecer rumos, ao invés de remediar omissões ou desacertos.

 

Não haverá volta para a sociedade rural, o que significa que não há alternativa para a vida urbana, para a cidade como tal. E essa realidade terá de ser encarada pelo poder público, não sem a participação da iniciativa privada, ou seja, da própria sociedade. Ao cidadão cabe reivindicar. Afinal, a cidade moderna deve ser desenvolvida de tal forma que os residentes tenham tudo o que precisam na vida cotidiana dentro de um raio relativamente pequeno, isso é, qualidade de vida. As pessoas de hoje têm a inteligência e os meios para enfrentar os desafios da urbanização. A vontade é decisiva.

 

E há algo essencial: a cidade deve mudar de cor – de cinza para verde.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Mobilidade com Teleférico Urbano

 

Mobilidade com Teleférico Urbano

(“Mobility with Urban Cable Cars” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Você consegue imaginar simplesmente entrar em uma cabine e flutuar relaxado e sem agitação acima do caos urbano em direção ao seu destino? Deixar os problemas de trânsito, engarrafamentos e barulho nas estradas para trás e experimentar suas viagens diárias de uma maneira totalmente nova?

 

Isso existe! Basta ir para Ankara, na Turquia, Medelín, na Colômbia, Cidade do México, La Paz, Bolívia, Yokohama, Japão, Novgorod, Rússia, Ulan-Bator, Mongólia, entre outras cidades ao redor do mundo para conhecer a resposta. São os teleféricos urbanos como sistema de transporte público e como solução eficiente para cidades ambientalmente conscientes. As características dos teleféricos urbanos oferecem enfoques interessantes para cidades de médio e grande porte: eles ocupam pouco espaço, podem atravessar qualquer obstáculo e também economizam tempo e energia. Além disso, não há conflitos com outros usuários de trânsito e um único motor elétrico move vários veículos ao mesmo tempo. Esses teleféricos exigem apenas pequenas áreas de contato com o solo para colunas de suporte e estações, sendo, assim, ambientalmente altamente sustentáveis. Além disso, à parte os teleféricos para fins turísticos (com outros condicionantes e outras propostas de exploração), são economicamente compatíveis com outros meios de transporte coletivo urbano.

 

Uma das vantagens principais é a via exclusiva do teleférico no ar que garante tempos de viagem uniformes, por não ser afetada por outros meios de tráfego urbano. Os passageiros são transportados continuamente - sem escala de horários e tempos de espera. Por outro lado, enquanto ônibus urbanos se deslocam – em condições ideais – a cerca de 16 km/hora, teleféricos urbanos, dependendo do modelo, conseguem velocidade de cerca de 30 km/hora, dependendo do número de estações no percurso. Atualmente, uma linha de teleférico urbano pôde cobrir uma distância de até 10 km, com colunas de suporte distantes, no máximo, 2,5 km uma da outra, que permitem desvios de até 35 graus. A capacidade de transporte pode chegar a 4.000 pessoas/hora (dados para teleféricos de três cabos).

 

De maneira geral, teleféricos urbanos são implantados na ligação de concentrações urbanas como bairros distantes. Percursos ideais são avenidas largas, ou então, vantagens geográficas como cursos de água ou bacias hídricas (vide o bonde suspenso ‘Schwebebahn’ em Wuppertal, Alemanha).  

 

Mesmo tratando-se de um sistema de fluxo contínuo, a velocidade com que as cabines percorrem as estações ou é muito lenta e permite fácil embarque e desembarque, ou pode ser de tecnologia ‘stop-and-go’, o que significa que as cabines podem ser paradas completamente por um curto período de tempo, permitindo, por exemplo, o embarque de carrinhos de bebê.

 

E o custo? Os teleféricos urbanos têm custos de investimento e operação relativamente baixos em comparação com outros sistemas de transporte. O custo de uma linha de teleférico é cerca de metade daquele de uma de bonde LTV e cerca de 1/10 do de um mesmo trecho de metrô. Os custos operacionais, obviamente, dependem das características do sistema, mas costumam ser perfeitamente compatíveis com outros sistemas de transporte coletivo urbano.

 

Em termos de segurança, o teleférico é, depois do transporte aéreo com um acidente em 113 milhões de quilômetros, o segundo transporte mais seguro, com 17 milhões de quilômetros.

 

O que era exótico em tempos passados está se tornando cada vez mais um meio alternativo e eficiente de transporte em tempos de crescente intensidade de tráfego urbano. E sempre é uma atração turística.

 

Estranhamente trata-se de uma alternativa viária, em muitos casos totalmente ignorada, seja pelo poder público, seja pelos empresários de transporte coletivo.

 

 

terça-feira, 2 de julho de 2024

Os Oceanos Sobem

 

 

Nossos Ocenos Sobem

(“Our Oceans Rise“ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A Terra é um corpo vivo à sua maneira. E essa vida tem ciclos, ciclos quentes, ciclos frios, mais longos e mais curtos, mais ou menos severos. Por cerca de três milhões de anos, o clima oscilou entre dois extremos, as eras glaciais e os períodos quentes interglaciais, com um período de cerca de até 100.000 anos. A última era glacial atingiu o pico há cerca de 21.000 anos e terminou há cerca de 10.000 anos. Isso sugere mudanças extremas de temperatura, o que, na realidade, pode não ser o caso. Um exemplo: Enquanto hoje vivemos com uma média em todo mundo de 14 graus Celsius, a temperatura média na última era glacial era de pouco menos de 8 graus, o que significa que mesmo em zonas temperadas e polares os invernos eram mais rigorosos e maias longos, mas havia verões, embora curtose menos quentes.

 

Estudos genéticos sugerem que a migração do homem do continente asiático ao americano ocorreu entre cerca de 20 e 10.000 anos atrás. Portanto, ela parou quando terminou a última era glacial. Essa migração foi possível, por que então o que hoje conhecemos como estreito de Bering era uma ligação terrestre. Isso, porque boa parte da água existente no nosso planeta, incluindo os mares, estava presa nas regiões polares em forma de calotas de gelo de milhares de metros de espessura, ou seja, os níveis dos mares eram bastante mais baixos que hoje. Consequentemente, o atual estreito de Bering, com uma profundidade atual de 40 metros, ficava fora da água.

 

Daí devemos concluir que nos últimos 10.000 anos, com o aquecimento global em curso, o nível dos mares (todos eles têm aproximadamente o mesmo nível) subiu, em média, pelo menos 40 meros. Isso significa em média 4 cm por década, 0,4 cm por ano.

 

Existe no Mar do Norte, entre a Inglaterra e a Dinamarca, um baixio de cerca de 18.000 km2 a uma profundidade média de 30 metros. Durante a última era glacial, o banco e as áreas marinhas circundantes estavam secos e formaram a Terra de Dogger. Essa região, de fato, fazia parte do continente europeu, com a costa do Mar do Norte ficando a cerca de 600 quilómetros ao norte da sua posição atual. Da mesma forma, o Canal da Mancha também estava seco, exceto por suas áreas ocidentais mais profundas, de modo que havia uma conexão terrestre entre a Inglaterra e o continente.

 

Em outro canto do nosso planeta, o Mar Vermelho, em cerca de 25% da sua extensão, possui profundidades com menos de 50 metros, o que deve ter facilitado sua travessia durante o êxodo de Moises e dos Judeus, há aproximadamente 3.500 anos.

 

Até aqui temos evidências históricas. Num passado mais recente dispomos de registros de dados mais precisos sobre variações dos níveis dos mares. Assim, desde meados do século 19, um aumento significativo do nível do mar foi observado – globalmente. No período de 1901 a 2010, segundo Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o aumento médio do nível do mar foi de 19 ± 2 cm, isso é, nesse espaço de tempo, o nível do mar elevou-se em 1,7 mm/ano. Já na última parte período, ou seja, de 1993 a 2010, a média foi de 3,2 mm/ano. Para o ano de 2018, foi medido o valor recorde de 3,7 mm.

 

A razão é simples: o aquecimento global também atinge os oceanos e, por um lado, leva à dilatação da água (uma lei da Física, e que, no caso água marítima, confinada no leito dos oceanos, as dilatações em todas as direções somam-se para uma única – para cima). Por outro lado, o aquecimento causa o derretimento de geleiras e capas de gelo polares, com consequente aumento dos níveis dos oceanos.

 

De acordo com avaliações sistemáticas de opiniões de especialistas, há uma probabilidade de aumento do nível do mar de, no mínimo, 238 cm até o ano 2100 no caso de aquecimento de 5º Celsius. De acordo com outras pesquisas, um aumento de 2,5 m a 5,1 m é possível dentro de 300 anos.  

 

O aumento do nível do mar ameaça particularmente os países com uma ampla área costeira e um interior baixo, como o Bangladesh e os Países Baixos e os Estados Insulares, mormente do Oceano Pacífico. Porém, praticamente todas as cidades costeiras ao redor do mundo encontram-se nessa situação.

 

É cedo para um alerta?

 

Em tempo: Comparando as últimas duas grandes enchentes no Rio Grande do Sul, 1941 e 2024, é preciso considerar que nesse intervalo, o nível do mar subiu em cerca de 24 cm, obstaculando significativamente a vazão do conjunto Rio Guaíba/ Lagoa dos Patos.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Menos Bebês Hoje, Menos Adultos Amanhã

 

Menos Bebês Hoje, Menos Adultos Amanhã

 

(“Fewer Babies Today, Fewer Adults Tomorrow” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

E esse amanhã, em termos sociais, profissionais, conjunturais etc., está muito próximo. São apenas duas décadas. No mundo, segundo a ONU, os 92 milhões de bebês nascidos em 1950 aumentaram para 142 milhões em 1990, oscilando, desde então, entre esses 142 e 134 milhões de nascimentos em 2023, variações que se explicam por diversos eventos estruturais, políticos e até bélicos, tanto nacionais, quanto regionais, nesse período. É importante observar que de uma tendência de crescimento delineou-se uma projeção de estabilização em torno de uma média desse espaço de empo. A previsão da ONU é de um declínio futuro chegando a 111 milhões de nascimento em 2100. Elevadas taxas de fertilidade na África justificam esse retardamento.

 

No Brasil, a evolução dos nascimentos nas últimas décadas é mais regular. Segundo dados do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o país registrou uma média de 2,85 milhões de nascimento para o período de 2010 a 2019. Já em, 2021, foram registrados 2,64 milhões de nascimentos, e em 2022, 2,54 milhões, representando uma queda de 10,8% em elação à média 2010/19. Em outras palavras observa-se um declínio constante nos nascimentos nos últimos quatro anos. Que houvesse uma queda durante o período da Covid-19 tem sua lógica, mas, na realidade o decréscimo segue a um período de estagnação para então consolidar-se também depois de superada essa fase.

 

O resultado disso, no curto prazo, é uma redução na demanda por artigos para bebês, depois por lugares em creches, em seguida, no ensino primário e secundário, e finalmente nos mercados de trabalho e de consumo. Isso é bom? Isso é ruim? Possivelmente nem um, nem outro. É uma mudança demográfica, sem dúvida importante, numa vez que a transição para um crescimento negativo é um fato inédito na história da humanidade, salvo momentos históricos com quedas de populações devido a epidemias, calamidades de origem climática ou guerras.

 

Um das caraterísticas centrais dessa involução demográfica é a lentidão com que se processa. Devemos esperar, em nível nacional (com óbvias variações regionais), o que hoje se observa em muitas cidades grandes, cuja população está diminuindo, embora, nesse caso, em virtude de deslocamentos para cidades periféricas (exemplo: Curitiba, 2019 com 1,933 milhão de habitantes, 2022, 1.773 milhão, enquanto cidades vizinhas como Campo Largo e São José dos Pinhais crescem vigorosamente). Essa lentidão faz com que o cidadão tem certa dificuldade em perceber diferenças.

 

Indivíduos ou populações em pequena escala dificilmente notarão reflexos desse fenômeno, porém, as Secretarias de Educação logo perceberão uma queda nas matrículas. Da mesma maneira, mas a prazo mais longo, o varejista provavelmente custe para observar uma diminuição de seus fregueses habituais, digamos de 200 para 180 ao longo de três anos. Por outro lado, o fabricante – bem como o distribuidor – certamente registrará uma queda progressiva, mesmo sendo lenta, na demanda dos produtos. O que é improvável, até por falta de informação,     é a identificação da causa como sendo um fenômeno demográfico.

 

Também na área econômica, é bastante provável que um dos fatores da atual inflação brasileira relativamente baixa seja uma quase estagnação quantitativa da população. Cabe um estudo aprofundado por parte de quem dispõe dos dados mais detalhadas para tal. A equação da oferta e da procura é infalível, e a partir do momento em que o número de consumidores (com poder de compra razoavelmente inalterado) diminuir, os mercados sofrerão uma crescente pressão deflacionária.

 

A falta de crescimento demográfica ainda não chegou ao mercado imobiliário devido a uma crescente diminuição do tamanho familiar (3,7 pessoas por família em 2000, 2,7, em 2022), resultando em demanda maior por habitações – obviamente menores, que poderão se tronarão um obstáculo para um eventual aumento familiar (mais filhos) em algum futuro. 

 

Um previsível declínio na força de trabalho corre paracleto com o surgimento de um provável substituto de determinados segmentos de mão de obra – a Inteligência Artificial (IA), embora nada de concreto se possa, nesse instante, prever com precisão a respeito dessa tecnologia em fase mais desenvolvida. Com certeza, ela substituirá postos de trabalho, com efeito salutar numa população em declínio. Um real problema seria a escassez de mão de obra e a consequente falta de competitividade profissional, o que fatalmente resultaria em queda de qualidade do trabalho.

 

Todos esses dados acima estão amplamente disponíveis, e certamente são discutidos nas diretorias das empresas líderes em seus ramos. Mas empresas são discretas no que se refere a suas estratégias industriais e comerciais. Onde aparentemente ainda não chegaram são os órgãos governamentais, pelo menos por aquilo que se percebe nas projeções oficiais. A mídia, por outro lado, até noticia dados demográficos sem, porém, fazer a necessária leitura de seus significados.

 

Como já foi visto, não vamos, certo dia, acordar numa nova realidade demográfica e suas consequências. Todavia, é preciso manter na mente que as crianças de hoje certamente desenvolverão outros parâmetros de enxergar o mundo e sua existência nele. E nós temos a chance de prepara-las para isso.

 

Nota: Sugiro a leitura do e-book “O Brasil de Menos Gente”; Rehfeldt, Klaus; editora Amazon, 2018