terça-feira, 20 de junho de 2017

A Competência Social na Liderança

AFFB – Palestra no Encontro Nacional de Presidentes – 2017


A Competência Social na Liderança da Friendship Force[1]

Klaus H. G. Rehfeldt

Em nossa vida gregária, o social, em todas as suas facetas e nuances, é o sol do sistema planetário constituído de relações, ações e reações interpessoais e intergrupais. Desde os primórdios do homem, os aspectos sociais ocupam um papel importante, logo depois da subsistência e da segurança. Assim, não causa espanto, que os registros gráficos mais antigos das diversas civilizações se referem, além da afirmação divina e da preparação para dimensões post-mortem, exatamente às normas de convivência social.

            Ao longo das últimas duas ou três décadas, todos ouvimos, especialmente em nossas vidas profissionais, referências a, ou preocupações com diversos formatos e aplicações da Responsabilidade Social. Na essência, a responsabilidade social nada mais é do que a asseguração ao outro, como indivíduo ou sociedade, do devido respeito a seus direitos e à sua dignidade nos diversos ambientes vivenciais. Por outro lado, pouco se falou até agora de Inteligência Social, que tem como objetivo compreender uma determinada sociedade com suas condições existenciais e as respectivas interações. Em outras palavras, a inteligência social busca identificar as particularidades sociais, e a justificativa e instrumentação apropriada para as correspondentes interações de responsabilidade social. Na prática, a inteligência social procura prover as ações socialmente responsáveis de uma necessária fundamentação e racionalidade. A junção e combinação dos dois aspectos, inteligência social e responsabilidade social conceitua-se como Competência Social.

            Embora a competência social constitua um atributo por um lado, e uma atribuição, por outro, de todo cidadão, especialmente todas e quaisquer lideranças deveriam considerar sua aplicação como ferramenta do seu cotidiano. Isto, evidentemente, aplica-se também ao contexto de atuação da Friendship Force. Aliás, nesse ambiente, existem realidades e desafios com contornos especiais e significativas singularidades, mormente devido a dois aspectos: a frequente construção de contatos intensivos entre pessoas totalmente desconhecidas, e a especificidade de isso realizar-se quase sempre na presença de marcantes diferenças culturais.

            Quando tratamos da Competência Social em sua dimensão prática não devemos esquecer que a humanidade, sendo composta por seres gregários, tem uma longa experiência em fazer uma leitura apropriada do seu semelhante e agir socialmente responsável e competente de acordo com o resultado dessa leitura. A comunicação eficaz é ingrediente central da competência social, e o uso e a interpretação da fala não verbal na comunicação entre as pessoas já fazem parte do nosso DNA. De maneira geral, observa-se um esforço normal e natural no sentido de estabelecer e garantir uma comunicação isenta de causas para incompreensões ou conflitos. Por outro lado, é sabido que falas e escritas descuidadas, desrespeitosas, desonestas, incorretas, infundamentadas, injustas, e outros des- e in-, voluntárias ou involuntárias, comprometem e corrompem já na raiz qualquer comunicação ou relacionamento. Não é incomum perder-se o foco no conteúdo da interlocução devido a uma falha na qualidade da forma. O diálogo premeditado, p. ex., sempre quando, e na medida do possível, ajuda imensamente a prevenir deslizes ou inconveniências de uma comunicação.

No caso específico da Friendship Force experimentamos a dificuldade adicional causada pelas bases linguísticas e idiomas diferentes, aumentando o risco de mal-entendidos e desentendimentos. A isso soma-se a particularidade da busca, em curtíssimo prazo, de um repentino relacionamento amigável com uma pessoa até então totalmente desconhecida. (No automobilismo fala-se em aceleração “de 0 a 100 km/h em 10 segundos”.) O importante é saber que as habilidades de comunicação são passíveis de melhoras e aperfeiçoamento. Basta reconhecer essa necessidade e buscar um desenvolvimento consciente.

No nosso dia a dia nos confrontamos com pessoas do mais amplo leque de comportamentos, de posturas muito habilidosas e apropriadas a atitudes absolutamente impróprias e condenáveis como resultado de determinados entraves pessoais que obstaculizam hábitos socialmente competentes.  

Seja por uma comunicação falha, um ato inadequado ou impróprio, ou por outra incompetência, em geral indesejados, sujeitamo-nos a cometer erros de variável gravidade. Somos imperfeitos e, portanto, falíveis – isto é da nossa natureza. Assim, o Erro sempre se avizinha de nossas decisões e atitudes. No caso do erro involuntário – o intencional é assunto à parte –, o importante é reconhecê-lo com naturalidade, assumir a responsabilidade – do pedido de desculpas à reparação de eventual dano – e transfigurá-lo em lição. É uma realidade que encontramos no nosso cotidiano, mas de forma mais acentuada quando os efeitos de nossos atos – e erros – atingem outras pessoas, o que é especialmente o caso quando ocupamos posições de liderança. E aqui é bom lembrar que o líder não é líder porque erra menos, mas porque lida melhor como seus erros.

O palco internacional, onde nos movemos com frequência em nossos journeys, o encontro com inúmeras diferenças culturais constitui um ambiente especialmente favorável ao cometimento de erros. Isto sugere por um lado uma cautela maior do que normal, e por outro, na percepção de algum erro havido imediatas ações de remediar eventuais constrangimentos ou ofensas. Cabe especialmente ao Ambassador ou Host Coordinator (ex-ED) de um journey zelar pela evitação – sempre quando possível – de situações embaraçosas e de interceder para neutralizar seus efeitos. A responsabilidade não consiste na autopenalização, mas na compreensão, no reconhecimento e no enaltecimento dos valores do outro.

Exatamente na diferença de valores no contexto cultural, religioso e social reside boa parte de controvérsias entre habitantes de países distintos. Atitudes, hábitos e comportamentos absolutamente normais em nossa sociedade podem não estar em acordo com os bons costumes ou padrões sociais ou culturais em outro lugar deste vasto mundo – ou vice verso. Se no passado situações de estranhamento eram quase inevitáveis, hoje dispomos de facilidades de informação prévia que não só invalidam, mas praticamente condenam o desconhecimento pelo menos de aspectos gerais do patrimônio imaterial histórico, cultural e social de um determinado universo cultural.

Críticas, mesmo as veladas, sejam elas positivas ou negativas, residem essencialmente na comparação de valores e suas manifestações. Isto sugere que, antes de externa-las, primeiramente deveríamos sondar o contexto cultural e de costumes antes de expressar nossa opinião. Nenhum hábito, nenhuma manifestação cultural surgiu do nada, mas, sim, nasceu de uma necessidade de ser – talvez já superada, mas, neste caso, tem seu peso histórico. E mesmo quando uma crítica se justifica, nunca devemos esquecer que nem todas as pessoas têm a grandeza de recebe-la e quitá-la com um honesto agradecimento. E o elogio?  Você sabe fazê-lo sem acanhamento, naturalmente? E como você recebe um elogio? De fato, vivemos uma realidade de abundantes críticas negativas mal fundamentadas e elogios mais formais do que sinceros. É importante lembrar, a crítica – negativa e positiva – é coisa séria e, não raro, mexe com valores elevados.

Não apenas críticas negativas infundamentadas ou mal formuladas, mas também outras atitudes ou posturas, como diferentes interesses, desejos, objetivos etc., que atingem (justificadamente, ou não) o ego de uma pessoa, geram, entre outras reações, resistência e o surgimento de conflitos. A resistência, aberta ou camuflada, é o embrião de muitos conflitos, mas, no mínimo, dificulta a manutenção harmoniosa do grupo em torno de um objetivo, e resulta em comportamentos de segregação e desintegração de qualquer forma de associação.

Uma vez identificadas, as situações de resistência ou conflito exigem uma imediata solução para garantir à volta à normalidade. Nem o confronto, nem a evasão constitui uma resposta socialmente competente porque, além de não conciliáveis com nossos valores culturais, ou aumentam a gravidade da diferença, ou, em vez de eliminar o problema, anulam os agentes. Soluções concretas e duradouras requerem mecanismos mais adequados para a construção de uma harmonia, como o compromisso ou o consenso, eventualmente intermediado por terceiros.

Além das relações interpessoais anteriormente vistas, outras facetas de competência social merecem uma abordagem mais detalhada. Especialmente concernentes a posições e atividades de liderança, alguns aspectos revelam insistentemente a necessidade de um aprofundamento em sua compreensão, interpretação e aplicação.

Hoje fazendo parte de toda e qualquer pauta de desenvolvimento de lideranças, a motivação, sem dúvida, ocupa posição de destaque. Toda pessoa, mas especialmente todo líder, também aqueles que somos na maioria da nossa agremiação, tem objetivos e metas a atingir e para tal precisa aquela força interior que nos impulsiona em direção aos nossos propósitos. Esta força interior, muitas vezes inerte, necessita de uma razão, de um motivo, para entrar em ação. Daí o termo ‘motivação’. Sim, a motivação vem de dentro da própria pessoa, ou seja, ninguém consegue motivar uma outra pessoa; o que pode é despertar e ativar as forças motivacionais em si mesmo ou no outro, nada mais.

Qualquer outro esforço no sentido de mobilizar uma pessoa para uma realização, seja da natureza que for, mas que não corresponde à exclusiva vontade interior, requer uma compensação, e, com isso, passa a ser manipulação. Isto deixa bem claro, que muitas iniciativas caracterizadas como motivação, são, na verdade, meras manobras de influência ou manejo da vontade das pessoas ao preço que vai de uma simples remuneração à conferência de láureas.

Especialmente como líderes precisamos prestar muita atenção à autenticidade dos mecanismos que utilizamos para despertar a motivação nas pessoas lideradas. Do contrário geraríamos falsas expectativas e infalíveis frustrações num primeiro momento, e posteriormente, vistos como simples ‘gerentões’ perderíamos qualquer colaboração espontânea. Motivar significa avivar o entusiasmo adormecido na pessoa.  
 
Um clima de motivação autêntica não reverte apenas em colaboração, mas, ao mesmo tempo, encoraja a disposição para a promoção e a aceitação de mudanças e inovações. As grandes mudanças e inovações são, via de regra, resultado da percepção de uma necessidade urgente transformada em motivação.

A liderança necessita para sua efetividade a presença de liderados e caracteriza-se pelo fato de ser voluntariamente aceita. Por outro lado, a liderança exercida com um máximo de competência social confere-lhe qualidade e consistência, e, ao mesmo tempo, garante a eficiência de atuação do grupo liderado. Com isto, a constituição e manutenção de grupos e equipes competentemente lideradas ganha espontaneidade, identidade e uma cultura interna, com os consequentes resultados positivos.

O verdadeiro líder é socialmente competente por natureza e sua liderança não terá dificuldade de ser exercida, nem de ser aceita. Se, por outro lado, o chefe institucionalizado, carecer desta qualidade resta-lhe o consolo: competência social pode ser adquirida, desenvolvida e aperfeiçoada.
  
            Existe todo um elenco de atitudes e posturas, cujo domínio aprimora e assegura comportamentos socialmente competentes. Ele começa com a habilidade de perceber e interpretar a si mesmo, o outro e a realidade social. Na sequência desenvolve e ajusta suas ações em acordo com os parâmetros de inteligência social, tendo por alvo as inúmeras situações pontuais de todo dia. Atos interpessoais adequados desenvolvem-se para atitudes socialmente apropriadas que, por fim, resultam num comportamento socialmente competente inteirado à pessoa.

            Ao lado da coragem inerente a qualquer postura de liderança, há, porém, um ingrediente central e indispensável ao exercício de ações socialmente competentes: a honestidade, o respeito honesto ao outro; a leitura honesta do outro e da sua realidade; a honestidade no diálogo com o outro; mas, acima de tudo, a honestidade de investigar as próprias atitudes e o que as motiva; e o honesto reconhecimento dos erros próprios com a vontade de corrigir-se.

            Finalmente, nada disso espelha sinceridade se não houver tolerância e serenidade. À sombra deste trinômio, regado por razoável dose de boa vontade não há competência social que não germine, cresça e produza fruto.



[1] Fundamentado no livro “Competência Social – A Interação Pessoal Bem-Sucedida” de autoria do palestrante 

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