domingo, 31 de março de 2019

Envelhecimento e Expectativa de Vida



Envelhecimento e Expectativa de Vida

Klaus H. G. Rehfeldt*

Com seu início no século 19, um dos fenômenos mais curiosos e surpreendentes do século 20 foi o extraordinário aumento de expectativa de vida a partir da década de 50. No Brasil, ao longo das últimas 6 décadas, a expectativa de vida aumentou em 30 anos.

            Obviamente, a esperança de vida aumenta ao passo em que a pessoa atinja idades mais elevadas. Enquanto o bebê que nasce hoje deve, estatisticamente, chegar a uma idade de aproximadamente 75 anos, quem hoje já estiver com 60 anos de idade, tem boas chances de viver até aos 83 anos – ou mais. O número de pessoas longevas aumenta constantemente.

            Em 1994, o Estatuto do Idoso definiu a idade de 60 anos como idade limite para o ingresso legal nessa fase da vida. Naquela época, a expectativa de vida era de 67,5 anos, proporcionando uma sobrevida média de 7,5 anos. Nos últimos 22 anos, esse período mais que triplicou para quase 25 anos.

            Achar que apenas a fase idosa das pessoas está se prolongando é totalmente absurdo sob o ponto de vista biológico. Na realidade, todas as fases da vida ganharam um bônus em sua extensão. A simples comparação de duas pessoas aos 60 anos na época dos anos 50 e nos dias de hoje não deixa a menor dúvida: então uma pessoa quase no fim da vida, o sessentão de hoje ofende-se ao ser chamado de velho e recusa-se estacionar seu carro em espaço preferencial para idosos.

Urge, portanto, revisar o parâmetro que legalmente estabelece a idade de entrada na terceira idade, pois enquanto a fase de maturidade e produção do homem fica engessada para pouco mais de 40 anos, no curto espaço de 23 anos, o período da ‘velhice legal’ do brasileiro aumentou de 11% para 20% de toda a sua vida. Nesta progressão, daqui a 10 anos um quarto da população é considerado velho por lei – com grande parte desse contingente fazendo questão de trabalhar e de viver uma vida vigorosa.

Se a questão em foco tivesse sido tratada adequadamente em tempo hábil, boa parte da discussão em torno da reforma da previdência perderia sua razão de ser.

*Autor do livro "2050 d.C. - A Prosperidade sem Crescimento - e sem Propriedade", 2016, Chiado Editora, Lisboa


sábado, 30 de março de 2019

Crise Econômica e Demografia



Crise Econômica e Demografia

Klaus H. G. Rehfeldt


Flutuações e movimentos oscilatórios são elementos constantes na vida econômica das sociedades, das nações e das regiões supranacionais economicamente semelhantes. É uma constância histórica que em suas manifestações extremas é observada na ascensão e queda de economias nacionais da antiguidade aos dias de hoje, da Mesopotâmia à União Soviética.

            Nas formas mais amenas e mais frequentes, as variações ocorrem no curso de longos períodos de desenvolvimento, estagnação ou retração. Fatores e evoluções conjunturais com as mais diversas causas e efeitos aceleram e desaceleram as dinâmicas económicas, resultando em avanços ou involuções. Enquanto fases de progresso econômico sofrem poucas intervenções corretivas, períodos de retração impõem a necessidade de medidas defensivas ou corretivas conforme as particularidades identificadas.

            O Brasil já passou por crises das mais diversas causas e naturezas: de cambiais às de abastecimento, daquelas de origem política às importadas, causadas por desacerto da administração pública ou por especulação desastrosa. Igualmente diversos e variadas foram as medidas corretivas com políticas financeiras restritivas ou abrangentes, instrumentos fiscais de arrocho ou de incentivo, subsídios e confiscos, racionamentos ou emissões e moeda sem lastro, entre tantas outras em busca de uma recuperação.
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            No contexto da economia de consumo em vigor no Brasil, as revitalizações mais recentes sempre ganharam um ímpeto adicional decorrente do crescimento intenso da população, em geral não afetado por crises econômicas. Durante a chamada ‘década perdida’ de 1980 a 1990, acumulou-se um aumento populacional de cerca de 22%, proporcionando um significativo reforço na reativação do consumo. Hoje temos outra situação. Nos 10 anos da crise que se iniciou em 2008 até hoje, houve um aumento demográfico de apenas 7,5%. Esta realidade demográfica, que certamente explica, pelo menos em parte, a lenta recuperação econômica atual, ainda não habita as mentes do mundo econômico e político. Menos ainda, o fato de que o IBGE projeta para a década de 2030 (daqui a cerca de 15 anos!) a inversão do crescimento populacional, dando início a um período de decréscimo demográfico. 

            Lentamente, uma crise implacável delineia-se no horizonte econômico brasileiro: uma crise de essência – uma economia de consumo com perda de consumidores. Nosso modelo econômico não é eterno!