quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Meio Ambiente e Clima



Meio Ambiente e Clima
(O subtítulo fica a cargo do leitor)

Klaus H. G. Rehfeldt

Há muito tempo, a humanidade deixou de viver na natureza para viver da natureza. A diferença está em manter o equilíbrio, ou desequilibrar nossa relação com o meio ambiente. Na busca de cada vez mais facilitar nossas condições de vida e de construir riquezas, nem sempre de bons modos com o planeta que nos abriga, parece termos chegado a uma encruzilhada: ou continuaremos do jeito como fizemos e vivemos até aqui com consequências imprevisíveis, embora fatalmente catastróficas, ou repensamos e mudamos nossos valores, dando à natureza a prioridade que lhe cabe e o respeito que merece para garantir um futuro de razoável tranquilidade de bem-estar às próximas gerações.
Abusamos da natureza e daquilo que ela nos oferece por demasiado tempo, não importa se por ignorância, negligência ou ganância. E salvo os povos indígenas que ainda existem espalhados sobre a Terra, nenhuma nação ou civilização escapa dessa acusação. Durante muito tempo, e até o início dos tempos modernos, os abusos ambientais cometidos não se traduziram em situações dramáticas pela simples lentidão com que crescia a população e a grande disponibilidade de recursos naturais em territórios até então inexplorados. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico processava-se apenas paulatinamente. Práticas adotadas ainda na Idade Média na Europa Central como o rodízio de culturas e descanso da terra e a preservação das florestas podem não ter tido os objetivos preservacionistas que lhes foram atribuídos por muito tempo, mas, em primeiro lugar, atendido fins mas diretos como maior rentabilidade da terra e a garantia de caça para o senhorio.
Da mesma forma, as queimadas – depois da extração da madeira – eram a maneira mais rápida e econômica de obtenção de terra cultivável e seus produtos, especialmente nas infindáveis terras encontradas pelos colonizadores nas Américas, na África e na Oceania. Na ausência de preocupações ecológicas, ou, sequer, a necessidades para tais, a prática da queimada assumiu caráter cultural nessas regiões, estando em uso até a atualidade. Hoje, diante da grave realidade ecológica, urge, naturalmente, convencer-se das consequências condenáveis e abandonar essa técnica simplista. O benefício ambiental de processos mecânicos de limpeza é certamente maior que seu ônus. Aliás, o composto resultante da decomposição natural da vegetação é qualitativamente bem superior àquele produzido por cinzas.  
Na Europa Central, de onde partem hoje a maiores críticas contra esse procedimento, o mesmo não existe mais por motivos óbvios. Desde meados do século passado, a lavoura de pequena escala é abandonada e substituída por reflorestamentos. Por outro lado, as queimadas de pastagens para fins de limpeza, prática comum em regiões tropicais devido ao rápido crescimento da vegetação que estraga as pastagens, são dispensáveis em terras de clima temperado por causa do frio dos invernos. Por outro lado, é preciso lembrar que as florestas dessas regiões sofrem uma permanente ameaça – inclusive perdas concretas – decorrente das chamadas chuvas ácidas, consequência da crescente poluição do ar ao longo dos últimos dois séculos.
A natureza vive da própria natureza, a substância viva alimenta-se de outras substâncias vivas. Esta é a essência da existência da natureza e do equilíbrio nela reinante. O homem começou a ameaçar esse equilíbrio ao começar a utilizar a natureza não apenas para seu sustento básico, mas também para seu conforto, para o atendimento de suas ambições e a busca de recursos que contribuam para facilitar sua vida. A natureza passa a fornecer matéria prima para a construção de suas casas, de suas ferramentas e utensílios, de suas armas e defesas, e principalmente para a geração de energia. A exploração dos recursos naturais para fins impostos pelo avanço civilizatório, combinado com o rápido crescimento demográfico, iniciou um desequilíbrio que apenas a partir de meados do século passado foi identificado como causador de graves problemas.
A década de 1970 e os primeiros anos de 1980 chamaram notáveis em ecologia de diversos Institutos e Universidades de renome em todo o mundo ao palco para discutir os fenômenos ambientais inusitados de então. Enchentes aqui, secas acolá, verões chuvosos demais que dizimaram as colheitas no Paquistão, nas Américas e no Japão em 1972, a expansão do deserto do Saara, encontraram unânimes explicações em diversas formas e intensidades de poluição ao redor do mundo. Mas, uma curiosidade: as previsões então feitas pelas mais ilustres cabeças na área da ecologia tinham um denominador comum – a chegada próxima de uma nova era glacial a partir da observação de constantes quedas de temperatura, incluindo consequências catastróficas como calamidades extremas, grandes partes inabitáveis no nosso planeta, tornados, secas, enchentes e muito mais.
Bastaram 40 anos para, a partir de novas observações dos termómetros ao redor do planeta, para as atuais autoridades em meio ambiente (não são mais os Linus Pauling, Geroge J. Kukla e outros de décadas anteriores) preverem, a partir de causas idênticas, embora com novas magnitudes, um aquecimento global para o resto de século e além.
Não devemos, portanto, estranhar, ou até nos surpreender, que algumas (ou muitas) pessoas veem com ceticismos os alarmes expedidos por supostos entendidos no assunto, e com as atribuições de culpa em todas as direções. E catastrofismo vai às custas da credibilidade.
Estamos abusando dos recursos que a natureza nos oferece e sobrecarregando sua capacidade de se regenerar e recuperar? Estamos, sim. A natureza está se mostrando sensível e respondendo a esse abuso com reações extremadas? Está, sim. Adianta discutir se apenas vivemos ciclos naturais já anteriormente observados em nosso planta, ou se a humanidades é responsável pelas mudanças ambientais e climáticas, e em que grau contribui para as mesmas? Não, isso não resolve o problema.
Adianta, sim, resolve, sim, a consciência de que a natureza tem seu preço, o uso indevido, ou abuso, cobre taxas e sobretaxas, que serão reclamados daqueles que dela usufruem – todos nós. Esta consciência, honestamente vivida por cada cidadão e pela sociedade como um todo, discernindo entre usufruição e destruição, entre consumo e desperdício, entre lucro e ganância, enfim, entre respeito e desprezo à natureza, fará a diferença. Quando esta consciência, semeada hoje no solo receptivo e fértil da nova geração, amanhã trouxer frutos para finalmente converter-se em cultura – sem metas, nem promessas – voltaremos a viver na e com a natureza – não dela. A natureza é um conjunto vivo e, portanto, é vulnerável. Ela certamente não abandonará seus caprichos, mas estes não serão consequências de posturas irresponsáveis e inconsequentes da humanidade e, talvez, poderemos atenuá-los.
          
  

domingo, 22 de setembro de 2019

Um Entulho que Assusta



Um Entulho que Assusta

Klaus H. G. Rehfeldt

Se deixamos de lado as torres das habitações italianas do fim da idade média (a maior atingindo 97 metros de altura em Bologna), o primeiro arranha-céu surgiu em 1885 durante o boom de reconstruções em Chicago, EUA, depois do grande fogo de 1871, que destruiu mais de 17 mil edificações – o Home Insurance Building com 10 andares. Daí em diante, as cidades de Chicago e New York tornaram-se palco inicial de uma sequência e evolução de construções comerciais e habitacionais cada vez mais altas e audaciosas. Logo outras cidades norte-americanas acompanharam o mesmo modelo. Em 1894, o Manhattan Life Building rompeu com 106 metros de altura a marca dos 100 metros. Algumas décadas mais tarde, a mesma tendência de construção civil repetiu-se em outros países ao redor do mundo, principalmente naqueles em fase de desenvolvimento e com urbanizações rápidas. Hoje, o erguimento de arranha-céus é uma prática comum e estamo-nos aproximando da marca do 1.000 metros de altura.
            O Home Insurance Bulding já não existe mais; e foi demolido em 1931 e deu lugar a outro edifício maior. A grande maioria dos arranha-céus construídos desde a fase inicial de sua concepção, porém, continua em pé, embora muitos já tenham ultrapassado sua vida útil considerada pelos técnicos em uma média de 80 anos, conforme tecnologia e qualidade empregadas. Essa vida útil não se refere à substância construtiva dos prédios, mas à sua adequação com os requisitos técnicos e de utilidade prática exigidos pelos modernos usos comercial e habitacional. Como tais fatores são objeto de constantes melhorias e inovações resulta como consequência um crescente número de prédios desocupados por simples obsolescência em recursos e conforto e a decorrente rejeição pelos donos ou locadores. O centro de São Paulo tem mais de 200 edificações nessa situação.
            Há duas opções como reposta: a simples demolição (que pode não ser tão simples assim) ou o chamado descaroçamento (demolição interna, preservando apenas as estruturas essenciais) e uma renovação total, cujo custo é praticamente o de um novo prédio, podendo até excedê-lo; assim a demolição fica retardada em mais alguma s décadas. A forma mais simples é a implosão, que, no entanto, nem sempre é possível, especialmente em centros urbanos na proximidade de outras edificações. Nesse caso, o custo de uma demolição organizada e estruturada pode ser bastante onerosa. Esta é certamente uma das razões para tantos edifícios abandonados nos nossos centros urbanos.
            São raros os casos em que edifícios técnica e economicamente obsoletos ganhem uma nova finalidade de ocupação, como garagens ou hortas verticais, pelo simples fato de sua estrutura construtiva não admitir esse tipo de redefinição de ocupação. Nesse momento estamos ainda no início de um novo ciclo na construção civil: a desconstrução civil. Na verdade, quase não existe ainda consciência dessa realidade, o que se confirma pela total ausência de qualquer preocupação com o desenvolvimento de tecnologias que facilitem uma futura demolição e especialmente a reciclagem dos materiais empregados na construção. Nem, sequer, existe planejamento para o descarte dos materiais de demolição, de preferência com algum objetivo de criação de alguma utilidade. Mas é preciso começar a pensar nesses aspectos antes de eles ganharem formas e magnitudes indesejadas.   


sábado, 14 de setembro de 2019

A Câmara de Eco



A Câmara de Eco

Klaus H. G. Rehfeldt

O termo câmara de eco não habita o vocabulário cotidiano da maioria da população. Sua origem encontra-se na tecnologia analógica de processamento de sons em estúdios sonoros onde se refere ao ambiente próprio para o reforço da ressonância. Mas também tem outro sentido: o de ambiente onde apenas informações que correspondem às próprias preferências são oferecidas e consumidas. É o que hoje observamos nas redes sociais como facebook, twitter, whatsapp e outros. Fala-se também em bolha de filtro. Nelas participa todo um universo de amigos ou pessoas de quem – por alguma razão – gostamos, com suas e nossas notícias e comentários circulando entre as timelines. A impessoalidade dos contatos torna fácil ume seletividade; eventuais opiniões divergentes ou contradições, quando aparecem, podem simplesmente ser ignoradas ou acabam no lixo.

            Isso contribui naturalmente para a construção de uma visão bastante unilateral do mundo, reforça as próprias percepções e convicções ou confirma a sensação “estou certo e penso igual aos outros”. Algoritmos do facebook canalizam mais informações ou comentários sintonizados à pessoa ou ao grupo, reduzindo o senso crítico. Simultaneamente, pontos de vista divergentes são suprimidos, idem, a tolerância. Formam-se ilhas de posturas homogêneas, de convicções sociais, de ideologias políticas, de hábitos alimentares, de opções sexuais – ilhas e mais ilhas sem pontes entre elas, sem comunicação e sem interações. O facciosismo – para não dizer fanatismo –, conhecido das torcidas de futebol, invade boa parte das nossas opiniões e dos nossos critérios.
           
No caso extremo, encontramos grupos que a partir de sua percepção seletiva criam uma realidade alternativa e seguem muito radicalmente sua própria ideologia, seus conceitos e sua visão de vida, totalmente ignorando a heterogeneidade e pluralidade da humanidade. A continua realimentação de convicções idealizadas leva à dispensa – ou até rejeição – de outros ideários e finalmente ao incesto de comunicação.

O mundo online despersonificou a comunicação entre as pessoas. Conhecemos muitos interlocutores apenas pelos seus pronunciamento nas redes sociais, ou melhor, não as conhecemos. Cabe então a pergunta: não estamos abrindo mão de nossa liberdade de pensar, de avaliar, de aceitar e a nossa objetividade ao dar caráter de dogma à mensagem alheia – ainda mais quando não sabemos com que intenção e grau de verdade foi postada?  

Na essência de uma sociedade democrática podemos viver a livre manifestação de ideias e opiniões e enriquecemos a partir da pluralidade de discursos. Fechar-se voluntariamente a essa diversidade significa entrar numa câmara de eco que ensurdece e abate nosso bom-senso, e, num processo de atrofiamento de nossa capacidade de discernir, nos impede construir nossa personalidade. Cabe manter o padrão de relacionamento interpessoal que aprendemos desde quando nascemos, limitando as relações digitais a um plano assessório, não sem aprender a lidar com elas de forma sadia e inteligente.