Um Entulho que Assusta
Klaus H. G. Rehfeldt
Se
deixamos de lado as torres das habitações italianas do fim da idade média (a
maior atingindo 97 metros de altura em Bologna), o primeiro arranha-céu surgiu em
1885 durante o boom de reconstruções em Chicago, EUA, depois do grande fogo de
1871, que destruiu mais de 17 mil edificações – o Home Insurance Building com
10 andares. Daí em diante, as cidades de Chicago e New York tornaram-se palco
inicial de uma sequência e evolução de construções comerciais e habitacionais cada
vez mais altas e audaciosas. Logo outras cidades norte-americanas acompanharam o
mesmo modelo. Em 1894, o Manhattan Life Building rompeu com 106 metros de
altura a marca dos 100 metros. Algumas décadas mais tarde, a mesma tendência de
construção civil repetiu-se em outros países ao redor do mundo, principalmente naqueles
em fase de desenvolvimento e com urbanizações rápidas. Hoje, o erguimento de
arranha-céus é uma prática comum e estamo-nos aproximando da marca do 1.000
metros de altura.
O Home Insurance Bulding já não
existe mais; e foi demolido em 1931 e deu lugar a outro edifício maior. A grande
maioria dos arranha-céus construídos desde a fase inicial de sua concepção,
porém, continua em pé, embora muitos já tenham ultrapassado sua vida útil
considerada pelos técnicos em uma média de 80 anos, conforme tecnologia e
qualidade empregadas. Essa vida útil não se refere à substância construtiva dos
prédios, mas à sua adequação com os requisitos técnicos e de utilidade prática exigidos
pelos modernos usos comercial e habitacional. Como tais fatores são objeto de
constantes melhorias e inovações resulta como consequência um crescente número
de prédios desocupados por simples obsolescência em recursos e conforto e a
decorrente rejeição pelos donos ou locadores. O centro de São Paulo tem mais de
200 edificações nessa situação.
Há duas opções como reposta: a
simples demolição (que pode não ser tão simples assim) ou o chamado descaroçamento
(demolição interna, preservando apenas as estruturas essenciais) e uma
renovação total, cujo custo é praticamente o de um novo prédio, podendo até
excedê-lo; assim a demolição fica retardada em mais alguma s décadas. A forma
mais simples é a implosão, que, no entanto, nem sempre é possível,
especialmente em centros urbanos na proximidade de outras edificações. Nesse
caso, o custo de uma demolição organizada e estruturada pode ser bastante onerosa.
Esta é certamente uma das razões para tantos edifícios abandonados nos nossos
centros urbanos.
São raros os casos em que edifícios
técnica e economicamente obsoletos ganhem uma nova finalidade de ocupação, como
garagens ou hortas verticais, pelo simples fato de sua estrutura construtiva
não admitir esse tipo de redefinição de ocupação. Nesse momento estamos ainda
no início de um novo ciclo na construção civil: a desconstrução civil. Na
verdade, quase não existe ainda consciência dessa realidade, o que se confirma
pela total ausência de qualquer preocupação com o desenvolvimento de tecnologias
que facilitem uma futura demolição e especialmente a reciclagem dos materiais empregados
na construção. Nem, sequer, existe planejamento para o descarte dos materiais
de demolição, de preferência com algum objetivo de criação de alguma utilidade.
Mas é preciso começar a pensar nesses aspectos antes de eles ganharem formas e
magnitudes indesejadas.
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