domingo, 22 de setembro de 2019

Um Entulho que Assusta



Um Entulho que Assusta

Klaus H. G. Rehfeldt

Se deixamos de lado as torres das habitações italianas do fim da idade média (a maior atingindo 97 metros de altura em Bologna), o primeiro arranha-céu surgiu em 1885 durante o boom de reconstruções em Chicago, EUA, depois do grande fogo de 1871, que destruiu mais de 17 mil edificações – o Home Insurance Building com 10 andares. Daí em diante, as cidades de Chicago e New York tornaram-se palco inicial de uma sequência e evolução de construções comerciais e habitacionais cada vez mais altas e audaciosas. Logo outras cidades norte-americanas acompanharam o mesmo modelo. Em 1894, o Manhattan Life Building rompeu com 106 metros de altura a marca dos 100 metros. Algumas décadas mais tarde, a mesma tendência de construção civil repetiu-se em outros países ao redor do mundo, principalmente naqueles em fase de desenvolvimento e com urbanizações rápidas. Hoje, o erguimento de arranha-céus é uma prática comum e estamo-nos aproximando da marca do 1.000 metros de altura.
            O Home Insurance Bulding já não existe mais; e foi demolido em 1931 e deu lugar a outro edifício maior. A grande maioria dos arranha-céus construídos desde a fase inicial de sua concepção, porém, continua em pé, embora muitos já tenham ultrapassado sua vida útil considerada pelos técnicos em uma média de 80 anos, conforme tecnologia e qualidade empregadas. Essa vida útil não se refere à substância construtiva dos prédios, mas à sua adequação com os requisitos técnicos e de utilidade prática exigidos pelos modernos usos comercial e habitacional. Como tais fatores são objeto de constantes melhorias e inovações resulta como consequência um crescente número de prédios desocupados por simples obsolescência em recursos e conforto e a decorrente rejeição pelos donos ou locadores. O centro de São Paulo tem mais de 200 edificações nessa situação.
            Há duas opções como reposta: a simples demolição (que pode não ser tão simples assim) ou o chamado descaroçamento (demolição interna, preservando apenas as estruturas essenciais) e uma renovação total, cujo custo é praticamente o de um novo prédio, podendo até excedê-lo; assim a demolição fica retardada em mais alguma s décadas. A forma mais simples é a implosão, que, no entanto, nem sempre é possível, especialmente em centros urbanos na proximidade de outras edificações. Nesse caso, o custo de uma demolição organizada e estruturada pode ser bastante onerosa. Esta é certamente uma das razões para tantos edifícios abandonados nos nossos centros urbanos.
            São raros os casos em que edifícios técnica e economicamente obsoletos ganhem uma nova finalidade de ocupação, como garagens ou hortas verticais, pelo simples fato de sua estrutura construtiva não admitir esse tipo de redefinição de ocupação. Nesse momento estamos ainda no início de um novo ciclo na construção civil: a desconstrução civil. Na verdade, quase não existe ainda consciência dessa realidade, o que se confirma pela total ausência de qualquer preocupação com o desenvolvimento de tecnologias que facilitem uma futura demolição e especialmente a reciclagem dos materiais empregados na construção. Nem, sequer, existe planejamento para o descarte dos materiais de demolição, de preferência com algum objetivo de criação de alguma utilidade. Mas é preciso começar a pensar nesses aspectos antes de eles ganharem formas e magnitudes indesejadas.   


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