sábado, 14 de setembro de 2019

A Câmara de Eco



A Câmara de Eco

Klaus H. G. Rehfeldt

O termo câmara de eco não habita o vocabulário cotidiano da maioria da população. Sua origem encontra-se na tecnologia analógica de processamento de sons em estúdios sonoros onde se refere ao ambiente próprio para o reforço da ressonância. Mas também tem outro sentido: o de ambiente onde apenas informações que correspondem às próprias preferências são oferecidas e consumidas. É o que hoje observamos nas redes sociais como facebook, twitter, whatsapp e outros. Fala-se também em bolha de filtro. Nelas participa todo um universo de amigos ou pessoas de quem – por alguma razão – gostamos, com suas e nossas notícias e comentários circulando entre as timelines. A impessoalidade dos contatos torna fácil ume seletividade; eventuais opiniões divergentes ou contradições, quando aparecem, podem simplesmente ser ignoradas ou acabam no lixo.

            Isso contribui naturalmente para a construção de uma visão bastante unilateral do mundo, reforça as próprias percepções e convicções ou confirma a sensação “estou certo e penso igual aos outros”. Algoritmos do facebook canalizam mais informações ou comentários sintonizados à pessoa ou ao grupo, reduzindo o senso crítico. Simultaneamente, pontos de vista divergentes são suprimidos, idem, a tolerância. Formam-se ilhas de posturas homogêneas, de convicções sociais, de ideologias políticas, de hábitos alimentares, de opções sexuais – ilhas e mais ilhas sem pontes entre elas, sem comunicação e sem interações. O facciosismo – para não dizer fanatismo –, conhecido das torcidas de futebol, invade boa parte das nossas opiniões e dos nossos critérios.
           
No caso extremo, encontramos grupos que a partir de sua percepção seletiva criam uma realidade alternativa e seguem muito radicalmente sua própria ideologia, seus conceitos e sua visão de vida, totalmente ignorando a heterogeneidade e pluralidade da humanidade. A continua realimentação de convicções idealizadas leva à dispensa – ou até rejeição – de outros ideários e finalmente ao incesto de comunicação.

O mundo online despersonificou a comunicação entre as pessoas. Conhecemos muitos interlocutores apenas pelos seus pronunciamento nas redes sociais, ou melhor, não as conhecemos. Cabe então a pergunta: não estamos abrindo mão de nossa liberdade de pensar, de avaliar, de aceitar e a nossa objetividade ao dar caráter de dogma à mensagem alheia – ainda mais quando não sabemos com que intenção e grau de verdade foi postada?  

Na essência de uma sociedade democrática podemos viver a livre manifestação de ideias e opiniões e enriquecemos a partir da pluralidade de discursos. Fechar-se voluntariamente a essa diversidade significa entrar numa câmara de eco que ensurdece e abate nosso bom-senso, e, num processo de atrofiamento de nossa capacidade de discernir, nos impede construir nossa personalidade. Cabe manter o padrão de relacionamento interpessoal que aprendemos desde quando nascemos, limitando as relações digitais a um plano assessório, não sem aprender a lidar com elas de forma sadia e inteligente.         

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