A Câmara de Eco
Klaus H. G. Rehfeldt
O
termo câmara de eco não habita o vocabulário cotidiano da maioria da população.
Sua origem encontra-se na tecnologia analógica de processamento de sons em
estúdios sonoros onde se refere ao ambiente próprio para o reforço da
ressonância. Mas também tem outro sentido: o de ambiente onde apenas
informações que correspondem às próprias preferências são oferecidas e
consumidas. É o que hoje observamos nas redes sociais como facebook, twitter,
whatsapp e outros. Fala-se também em bolha de filtro. Nelas participa todo um
universo de amigos ou pessoas de quem – por alguma razão – gostamos, com suas e
nossas notícias e comentários circulando entre as timelines. A impessoalidade dos contatos torna fácil ume
seletividade; eventuais opiniões divergentes ou contradições, quando aparecem, podem
simplesmente ser ignoradas ou acabam no lixo.
Isso contribui naturalmente para a
construção de uma visão bastante unilateral do mundo, reforça as próprias percepções
e convicções ou confirma a sensação “estou certo e penso igual aos outros”. Algoritmos
do facebook canalizam mais informações ou comentários sintonizados à pessoa ou
ao grupo, reduzindo o senso crítico. Simultaneamente, pontos de vista
divergentes são suprimidos, idem, a tolerância. Formam-se ilhas de posturas homogêneas,
de convicções sociais, de ideologias políticas, de hábitos alimentares, de
opções sexuais – ilhas e mais ilhas sem pontes entre elas, sem comunicação e
sem interações. O facciosismo – para não dizer fanatismo –, conhecido das
torcidas de futebol, invade boa parte das nossas opiniões e dos nossos critérios.
No caso extremo, encontramos grupos que a
partir de sua percepção seletiva criam uma realidade alternativa e seguem muito
radicalmente sua própria ideologia, seus conceitos e sua visão de vida, totalmente
ignorando a heterogeneidade e pluralidade da humanidade. A continua
realimentação de convicções idealizadas leva à dispensa – ou até rejeição – de
outros ideários e finalmente ao incesto de comunicação.
O mundo online despersonificou a comunicação entre
as pessoas. Conhecemos muitos interlocutores apenas pelos seus pronunciamento
nas redes sociais, ou melhor, não as conhecemos. Cabe então a pergunta: não
estamos abrindo mão de nossa liberdade de pensar, de avaliar, de aceitar e a
nossa objetividade ao dar caráter de dogma à mensagem alheia – ainda mais
quando não sabemos com que intenção e grau de verdade foi postada?
Na essência de uma sociedade democrática podemos
viver a livre manifestação de ideias e opiniões e enriquecemos a partir da pluralidade
de discursos. Fechar-se voluntariamente a essa diversidade significa entrar
numa câmara de eco que ensurdece e abate nosso bom-senso, e, num processo de
atrofiamento de nossa capacidade de discernir, nos impede construir nossa personalidade.
Cabe manter o padrão de relacionamento interpessoal que aprendemos desde quando
nascemos, limitando as relações digitais a um plano assessório, não sem
aprender a lidar com elas de forma sadia e inteligente.
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