terça-feira, 31 de agosto de 2021

Patriotismo

 

Patriotismo

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O que é, e não é patriotismo? Comecemos com uma curiosidade: o termo grego antigo, os πατριώτης (patriótes) define exclusivamente os não-gregos (bárbaros) que eram unidos por uma linhagem comum (πατριά (patriá), e, assim, formaram um clã ou uma tribo. Só com a migração do termo para outras línguas e culturas, o significado transmutou para o sentido hoje lhe atribuído.

            Patriotismo é manifestar-se pela pintura do rosto com as cores nacionais, OU colorir a alma através da tolerância e aceitação de toda pluralidade de gênero, raças, origens, religiões e ideologias?

            Patriotismo é revelado vestindo a bandeira nacional, OU vestindo a camisa de um povo unido em torno da busca do bem-estar e da felicidade de todos?

Patriotismo é discriminar e hostilizar aqueles que pensam diferente ou têm visões próprias, OU procurar o diálogo respeitoso com argumentos reais em busca do consenso no engrandecimento do país?

Patriotismo é criar e difundir notícias intencionalmente falsas, infundamentadas ou de desinformação, OU argumentar e convencer com incondicional honestidade e integridade.

Patriotismo é seguimento cego e bucefálico a decisões superiores, tão falíveis como o próprio homem, OU ter a coragem de expressar e receber sugestões e críticas fundamentadas em moldes democráticos e civilizados?

Patriotismo é o desrespeito às instituições constitucionais, OU a reivindicação, pelos meios democráticos, de mudanças e aperfeiçoamentos?

Patriotismo é segregação e divisão, OU promover a convivência respeitosa e harmoniosa?

Sim, patriotismo é o cidadão na defesa da dignidade e igualdade civil e cívica dos concidadãos, no respeito às diversidades encontradas dentro de uma união nacional, na intolerância ativa de discriminações e hostilizações por motivo de divergências de opinião com honestidade cívica e a firmeza de discordar e criticar a administração pública, é sua busca e defesa cívicas e democráticas na constante consecução de melhorias e aprimoramentos de sua pátria. É usufruir dos direitos assegurados sem esquecer as obrigações legais e morais. Patriotismo não é idolatria – é postura e atitude críticas com a visão de construir um país cada vez melhor e para todos. Enfim, é o amor à nação com respeito às instituições, aos organismos e estruturas necessários à sua existência e seu progresso exitosos, e ao seu povo, seja como indivíduo, seja como coletividade.

Patriotismo não precisa de língua, nem de teclado; exige, sim, postura - de cima a baixo. 

Não existe nação perfeita; o patriotismo deve ter por objetivo interno aperfeiçoá-la pelos meios legais e apropriados, e por atitude externa respeitar as outras nações em concordância com os valores da nossa civilização.          

      

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Mudanças Culturais

 Mudanças Culturais

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O que é cultura? Genericamente falando, a ela consiste em todas as manifestações humanas construídas sobre determinados valores, e comportamentais desenvolvidas em, e inerentes a uma sociedade. Todavia, nem os valores, nem suas manifestações são perenes. Ao longo do tempo, a cultura gera uma dinâmica própria alimentada por aspectos sociais, religiosos, econômicos e políticas. Tais fatores sofrem mutações com o avanço civilizatório. Ao mesmo tempo, formam base sobre os quais constroem-se tradições e novos valores.

É um processo continuo intimamente ligado à história vivenciada por um povo. Cada evento histórico, especialmente os momentos trágicos como guerras ou catástrofes, suscita reflexões e revisões de posturas e atitudes, possivelmente dando origem a mudanças culturais, mais, ou menos, profundas e duradouras.

Assim, não podia ser diferente, que cada povo, cada sociedade, cada nação forjou seu próprio contexto cultural. O grau de distinção com outras culturas depende de quantos e quais aspectos culturais, e em que medida, divirjam, por exemplo, no caso de religiões diferentes. Por outro lado, uma língua comum pode ser um forte laço cultural entre duas nações distintas e com históricos diferentes. Entre grupos, sociedades ou nações vizinhas é comum observar semelhanças ou identidades culturais, como também pôde haver rivalidades severas.

Surge então a pergunta: pode, e até onde, uma sociedade ou nação política e economicamente dominante transferir intencionalmente, ou até impor, a outra, seu cenário cultural? Muito provavelmente será um processo conflituoso. Mas pode, isso sim, haver a adoção de valores culturais por parte de sociedades culturalmente menos sintonizadas com o momento atual. Os antigos gregos levaram sua cultura tão longe como o atual Afeganistão. O Império Romano foi um caso clássico de difusão cultural, militarmente sustentada, mas, enfim, assimilada e constituindo a base para várias culturas pós-romanas distintas em ambientes geográficos diferentes. Cultura deixa rastro. Ela só desaparece com a extinção de um povo, como os Incas, restando somente vestígios de sua arquitetura.              

Com o início da navegação marítima pelos europeus e a descoberta de outros continentes com outros povos – e outras culturas – estabeleceu-se a convicção da superioridade da cultural ocidental, mesmo que culturas do extremo oriente se revelassem muito mais antigas – e mais maduras, no seu contexto histórico. A cultura ocidental cristã seguia de reboque aos interesses econômicos e geopolíticos convincentemente defendidos pelos canhões. Nos séculos do período colonial, valores culturais africanos, asiáticos e americanos sucumbiram diante dos domínios dos colonizadores, e mesmo depois das independências não se recuperaram totalmente, em boa parte devido à assimilação de aspectos culturais dos conquistadores. Outros conseguem hibernar e voltar à vida no momento oportuno, quando ressurgem pelo vigor de sua história, seja em Benin, seja no Afeganistão.

Na reorganização geopolítica e econômica do século XX – mormente depois da II Guerra Mundial – percebeu-se a importância do acoplamento de significados culturais às convicções políticas e posições econômicos. Tradições culturais perderam-se no afã da modernização, mas também sob o peso regimes de política da força. De outro lado, processos de assimilação mútua ganharam reforço pela intensificação de contatos interculturais cada vez mais numerosos e vigorosos, sejam de caráter tecnológico e comercial, sejam turísticos ou de intercâmbios culturais. Na disputa de mercados e de hegemonias políticas, a construção de afinidades culturais tornou-se estratégia importante e as mídias ocupam espaços significativos e se tornam instrumentos eficazes nesse processo e transferência de valores e comportamentos.

Significados culturais têm demonstrado um enorme poder de resistir a influências externas, às vezes bloqueando o próprio avanço civilizatório. Por outro lado, num longo processo, a cultura tem contribuído pare que o homem compreendesse a si mesmo, mas ela conseguirá prevenir a humanidade da possível autodestruição?

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O Trabalho

 

O Trabalho

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Duas coisas são necessárias, além do ar, para garantir a existência do ser humano: água e comida. Todas as atividades do homem primitivo, enquanto ainda nômade, consistiam em ir à próxima fonte para beber e colher produtos vegetais ou caçar. Todas as atividades e todos os esforços, como é normal na fauna deste planeta, destinam-se à obtenção desses dois itens e constituem função vital, como respirar e dormir. A construção de abrigo cai na mesma categoria. Nesse contexto não podemos falar em trabalho como hoje o compreendemos.

O trabalho talvez possa ter suas raízes identificadas na produção de ferramentas e utensílios destinados a facilitar a vida, e na medida em que deixem de atender unicamente necessidades pessoais de seu produtor como, por exemplo, a cerâmica. A lenta agregação do homem em comunidades gradativamente fixadas no solo traz inúmeros benefícios. Por outro lado, criou o ônus da necessidade de produção de excedentes como meio de troca por algum benefício material ou imaterial – da necessidade do trabalho. A evolução civilizatória leva a uma crescente urbanização e consequente interdependência econômica dos indivíduos – o empenho de esforço para a disponibilização e aquisição direta (troca) ou indireta (compra e venda) de bens e serviços. Tal interdependência decorre adicionalmente da busca por maior proteção e conforto. A própria vida em sociedade impõe encargos a serem cobertos pelos resultados do trabalho.

Em tempos mais recentes, recursos energéticos extra-corporais ampliaram o leque de possibilidades de produção de bens, mas sempre na presença do trabalho humano, braçal e mental.  O trabalho (alienado, como definido por Marx) torna-se a garantia de existência para a quase totalidade da humanidade. A constituição de riquezas que dispensam o trabalho tem, na realidade, um trabalho bem-sucedido em sua origem (se honesto ou não é assunto à parte). Na sociedade moderna, o trabalho para todos é objetivo central, e causa e efeito da economia.

Todavia, na economia de mercado evoluída para o consumismo, cada vez mais trabalho é esbanjado para, por exemplo, produzir 40% de desperdício da nossa alimentação e bens industrializados de curta duração de vida. Ao mesmo tempo, as últimas décadas trouxeram ingredientes novos, até revolucionários, ao mundo do trabalho: digitalização, automação, robotização e inteligência artificial. Não sem consequências radicais e enormes desafios.

No campo industrial, outro exemplo, onde manufaturas exigiam numerosos processos e passos produtivos, a fabricação aditiva (impressão 3D) possibilita produzir componentes com uma grande variedade de materiais de diferentes composições, especialmente no uso industrial em um tempo muito curto. Muitas vezes também diretamente no local de utilização.

A digitalização, redes digitais e big data resultam em informações criadas, disponibilizadas e processadas em qualquer lugar e a uma velocidade inédita. Além dos modelos de negócios e dos processos de fabricação e desenvolvimento, o trabalho está mudando de acordo e deve atender aos novos requisitos. E nunca tantas pessoas conseguiram com conhecimento e criatividade construir em pouquíssimo tempo patrimônios que exigiriam gerações de trabalho árduo do formato tradicional.

Na robótica e inteligência artificial, então, o poder computacional dos processadores aumentou de maneira gigantesca nas últimas décadas – atualmente, dobrando a cada 18 a 24 meses. O enorme aumento das capacidades de computação levou ao fato de que computadores – semelhantes ao homem – podem resolver problemas, aprender através da inteligência artificial e otimizar-se autonomamente.

É o avanço da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, da cultura do labor físico para a do trabalho do conhecimento. Enquanto atividades de rotina de qualquer natureza são digitalizados e robotizados, o mundo do trabalho 4.0, com ‘work-life-blending’ (integração de trabalho e vida privada do tipo home office ou mobile office), com novos modelos de trabalho, de contratação e de estruturas organizacionais, está se reformulando e reformatando. E a empresa deve estar disposta a investir em flexibilidade e experimentação de novas formas e arranjos de trabalho em que o trabalhador do conhecimento possa se sentir confortável, trabalhar de forma criativa, com o know-how existente interna ou externamente, podendo ser usado da melhor maneira possível.

Fica uma questão: haverá num futuro próximo trabalho para todos de oito horas por dia e 200 dias por ano? E se não, que humanidade resultará de uma vida com cada vez mais lazer e menos trabalho? Desde já, modelos de ‘renda básica universal’ (e seu financiamento), fazendo do trabalho uma opção, estão sendo estudados e testado em várias partes e realidades econômicas do mundo.

Em outras palavras, surge uma nova realidade: a da desnecessidade do trabalho. Resta saber se estamos preparados para uma situação de vinte horas, ou menos, de labor por semana e folga de outras vinte, ou mais, além do fim de semana, E nesse contexto cabe lembrar que, enquanto o trabalho gera receita, o lazer gera despesa. Por outro lado, é inevitável que nosso comportamento consumista – especialmente de bens materiais – sofra restrições, seja por mudança de atitude sociocultural, seja pelo fato condicionante de nosso mundo, com seus recursos, ser finito.

O trabalho encontra-se no centro da nossa civilização desde o fim do nomadismo. Mas surge no horizonte uma grande pergunta, ele se tornando cada vez menos necessário, que modelo de civilização resultará dessa perspectiva? Uma civilização do ser (em vez do ter) e a imaterialidade?