quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Mudanças Culturais

 Mudanças Culturais

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O que é cultura? Genericamente falando, a ela consiste em todas as manifestações humanas construídas sobre determinados valores, e comportamentais desenvolvidas em, e inerentes a uma sociedade. Todavia, nem os valores, nem suas manifestações são perenes. Ao longo do tempo, a cultura gera uma dinâmica própria alimentada por aspectos sociais, religiosos, econômicos e políticas. Tais fatores sofrem mutações com o avanço civilizatório. Ao mesmo tempo, formam base sobre os quais constroem-se tradições e novos valores.

É um processo continuo intimamente ligado à história vivenciada por um povo. Cada evento histórico, especialmente os momentos trágicos como guerras ou catástrofes, suscita reflexões e revisões de posturas e atitudes, possivelmente dando origem a mudanças culturais, mais, ou menos, profundas e duradouras.

Assim, não podia ser diferente, que cada povo, cada sociedade, cada nação forjou seu próprio contexto cultural. O grau de distinção com outras culturas depende de quantos e quais aspectos culturais, e em que medida, divirjam, por exemplo, no caso de religiões diferentes. Por outro lado, uma língua comum pode ser um forte laço cultural entre duas nações distintas e com históricos diferentes. Entre grupos, sociedades ou nações vizinhas é comum observar semelhanças ou identidades culturais, como também pôde haver rivalidades severas.

Surge então a pergunta: pode, e até onde, uma sociedade ou nação política e economicamente dominante transferir intencionalmente, ou até impor, a outra, seu cenário cultural? Muito provavelmente será um processo conflituoso. Mas pode, isso sim, haver a adoção de valores culturais por parte de sociedades culturalmente menos sintonizadas com o momento atual. Os antigos gregos levaram sua cultura tão longe como o atual Afeganistão. O Império Romano foi um caso clássico de difusão cultural, militarmente sustentada, mas, enfim, assimilada e constituindo a base para várias culturas pós-romanas distintas em ambientes geográficos diferentes. Cultura deixa rastro. Ela só desaparece com a extinção de um povo, como os Incas, restando somente vestígios de sua arquitetura.              

Com o início da navegação marítima pelos europeus e a descoberta de outros continentes com outros povos – e outras culturas – estabeleceu-se a convicção da superioridade da cultural ocidental, mesmo que culturas do extremo oriente se revelassem muito mais antigas – e mais maduras, no seu contexto histórico. A cultura ocidental cristã seguia de reboque aos interesses econômicos e geopolíticos convincentemente defendidos pelos canhões. Nos séculos do período colonial, valores culturais africanos, asiáticos e americanos sucumbiram diante dos domínios dos colonizadores, e mesmo depois das independências não se recuperaram totalmente, em boa parte devido à assimilação de aspectos culturais dos conquistadores. Outros conseguem hibernar e voltar à vida no momento oportuno, quando ressurgem pelo vigor de sua história, seja em Benin, seja no Afeganistão.

Na reorganização geopolítica e econômica do século XX – mormente depois da II Guerra Mundial – percebeu-se a importância do acoplamento de significados culturais às convicções políticas e posições econômicos. Tradições culturais perderam-se no afã da modernização, mas também sob o peso regimes de política da força. De outro lado, processos de assimilação mútua ganharam reforço pela intensificação de contatos interculturais cada vez mais numerosos e vigorosos, sejam de caráter tecnológico e comercial, sejam turísticos ou de intercâmbios culturais. Na disputa de mercados e de hegemonias políticas, a construção de afinidades culturais tornou-se estratégia importante e as mídias ocupam espaços significativos e se tornam instrumentos eficazes nesse processo e transferência de valores e comportamentos.

Significados culturais têm demonstrado um enorme poder de resistir a influências externas, às vezes bloqueando o próprio avanço civilizatório. Por outro lado, num longo processo, a cultura tem contribuído pare que o homem compreendesse a si mesmo, mas ela conseguirá prevenir a humanidade da possível autodestruição?

 

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