Mudanças Culturais
Klaus H. G. Rehfeldt
O que é cultura? Genericamente falando, a ela consiste em todas as
manifestações humanas construídas sobre determinados valores, e comportamentais
desenvolvidas em, e inerentes a uma sociedade. Todavia, nem os valores, nem suas
manifestações são perenes. Ao longo do tempo, a cultura gera uma dinâmica própria
alimentada por aspectos sociais, religiosos, econômicos e políticas. Tais
fatores sofrem mutações com o avanço civilizatório. Ao mesmo tempo, formam base
sobre os quais constroem-se tradições e novos valores.
É um processo continuo intimamente ligado à
história vivenciada por um povo. Cada evento histórico, especialmente os
momentos trágicos como guerras ou catástrofes, suscita reflexões e revisões de posturas
e atitudes, possivelmente dando origem a mudanças culturais, mais, ou menos,
profundas e duradouras.
Assim, não podia ser diferente, que cada povo, cada
sociedade, cada nação forjou seu próprio contexto cultural. O grau de distinção
com outras culturas depende de quantos e quais aspectos culturais, e em que
medida, divirjam, por exemplo, no caso de religiões diferentes. Por outro lado,
uma língua comum pode ser um forte laço cultural entre duas nações distintas e
com históricos diferentes. Entre grupos, sociedades ou nações vizinhas é comum
observar semelhanças ou identidades culturais, como também pôde haver
rivalidades severas.
Surge então a pergunta: pode, e até onde, uma
sociedade ou nação política e economicamente dominante transferir
intencionalmente, ou até impor, a outra, seu cenário cultural? Muito
provavelmente será um processo conflituoso. Mas pode, isso sim, haver a adoção
de valores culturais por parte de sociedades culturalmente menos sintonizadas com
o momento atual. Os antigos gregos levaram sua cultura tão longe como o atual
Afeganistão. O Império Romano foi um caso clássico de difusão cultural,
militarmente sustentada, mas, enfim, assimilada e constituindo a base para
várias culturas pós-romanas distintas em ambientes geográficos diferentes.
Cultura deixa rastro. Ela só desaparece com a extinção de um povo, como os
Incas, restando somente vestígios de sua arquitetura.
Com o início da navegação marítima pelos
europeus e a descoberta de outros continentes com outros povos – e outras
culturas – estabeleceu-se a convicção da superioridade da cultural ocidental,
mesmo que culturas do extremo oriente se revelassem muito mais antigas – e mais
maduras, no seu contexto histórico. A cultura ocidental cristã seguia de
reboque aos interesses econômicos e geopolíticos convincentemente defendidos
pelos canhões. Nos séculos do período colonial, valores culturais africanos,
asiáticos e americanos sucumbiram diante dos domínios dos colonizadores, e
mesmo depois das independências não se recuperaram totalmente, em boa parte
devido à assimilação de aspectos culturais dos conquistadores. Outros conseguem
hibernar e voltar à vida no momento oportuno, quando ressurgem pelo vigor de
sua história, seja em Benin, seja no Afeganistão.
Na reorganização geopolítica e econômica do século
XX – mormente depois da II Guerra Mundial – percebeu-se a importância do
acoplamento de significados culturais às convicções políticas e posições
econômicos. Tradições culturais perderam-se no afã da modernização, mas também sob
o peso regimes de política da força. De outro lado, processos de assimilação
mútua ganharam reforço pela intensificação de contatos interculturais cada vez
mais numerosos e vigorosos, sejam de caráter tecnológico e comercial, sejam
turísticos ou de intercâmbios culturais. Na disputa de mercados e de hegemonias
políticas, a construção de afinidades culturais tornou-se estratégia importante
e as mídias ocupam espaços significativos e se tornam instrumentos eficazes
nesse processo e transferência de valores e comportamentos.
Significados culturais têm demonstrado um enorme
poder de resistir a influências externas, às vezes bloqueando o próprio avanço civilizatório.
Por outro lado, num longo processo, a cultura tem contribuído pare que o homem
compreendesse a si mesmo, mas ela conseguirá prevenir a humanidade da possível autodestruição?
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