O Trabalho
Klaus H. G. Rehfeldt
Duas coisas são
necessárias, além do ar, para garantir a existência do ser humano: água e
comida. Todas as atividades do homem primitivo, enquanto ainda nômade,
consistiam em ir à próxima fonte para beber e colher produtos vegetais ou
caçar. Todas as atividades e todos os esforços, como é normal na fauna deste
planeta, destinam-se à obtenção desses dois itens e constituem função vital,
como respirar e dormir. A construção de abrigo cai na mesma categoria. Nesse
contexto não podemos falar em trabalho como hoje o compreendemos.
O
trabalho talvez possa ter suas raízes identificadas na produção de ferramentas
e utensílios destinados a facilitar a vida, e na medida em que deixem de
atender unicamente necessidades pessoais de seu produtor como, por exemplo, a
cerâmica. A lenta agregação do homem em comunidades gradativamente fixadas no
solo traz inúmeros benefícios. Por outro lado, criou o ônus da necessidade de produção
de excedentes como meio de troca por algum benefício material ou imaterial – da
necessidade do trabalho. A evolução civilizatória leva a uma crescente
urbanização e consequente interdependência econômica dos indivíduos – o empenho
de esforço para a disponibilização e aquisição direta (troca) ou indireta (compra
e venda) de bens e serviços. Tal interdependência decorre adicionalmente da
busca por maior proteção e conforto. A própria vida em sociedade impõe encargos
a serem cobertos pelos resultados do trabalho.
Em tempos
mais recentes, recursos energéticos extra-corporais ampliaram o leque de
possibilidades de produção de bens, mas sempre na presença do trabalho humano,
braçal e mental. O trabalho (alienado,
como definido por Marx) torna-se a garantia de existência para a quase
totalidade da humanidade. A constituição de riquezas que dispensam o trabalho
tem, na realidade, um trabalho bem-sucedido em sua origem (se honesto ou não é
assunto à parte). Na sociedade moderna, o trabalho para todos é objetivo central,
e causa e efeito da economia.
Todavia, na
economia de mercado evoluída para o consumismo, cada vez mais trabalho é esbanjado
para, por exemplo, produzir 40% de desperdício da nossa alimentação e bens
industrializados de curta duração de vida. Ao mesmo tempo, as últimas décadas trouxeram
ingredientes novos, até revolucionários, ao mundo do trabalho: digitalização,
automação, robotização e inteligência artificial. Não sem consequências
radicais e enormes desafios.
No campo
industrial, outro exemplo, onde manufaturas exigiam numerosos processos e
passos produtivos, a fabricação aditiva (impressão 3D) possibilita produzir
componentes com uma grande variedade de materiais de diferentes composições,
especialmente no uso industrial em um tempo muito curto. Muitas vezes também
diretamente no local de utilização.
A digitalização,
redes digitais e big data resultam em informações criadas, disponibilizadas e
processadas em qualquer lugar e a uma velocidade inédita. Além dos modelos de
negócios e dos processos de fabricação e desenvolvimento, o trabalho está mudando
de acordo e deve atender aos novos requisitos. E nunca tantas pessoas
conseguiram com conhecimento e criatividade construir em pouquíssimo tempo
patrimônios que exigiriam gerações de trabalho árduo do formato tradicional.
Na
robótica e inteligência artificial, então, o poder computacional dos
processadores aumentou de maneira gigantesca nas últimas décadas – atualmente,
dobrando a cada 18 a 24 meses. O enorme aumento das capacidades de computação
levou ao fato de que computadores – semelhantes ao homem – podem resolver
problemas, aprender através da inteligência artificial e otimizar-se autonomamente.
É o avanço
da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, da cultura do labor
físico para a do trabalho do conhecimento. Enquanto atividades de rotina de
qualquer natureza são digitalizados e robotizados, o mundo do trabalho 4.0, com
‘work-life-blending’ (integração de
trabalho e vida privada do tipo home
office ou mobile office), com novos
modelos de trabalho, de contratação e de estruturas organizacionais, está se
reformulando e reformatando. E a empresa deve estar disposta a investir em
flexibilidade e experimentação de novas formas e arranjos de trabalho em que o
trabalhador do conhecimento possa se sentir confortável, trabalhar de forma
criativa, com o know-how existente interna ou externamente, podendo ser usado
da melhor maneira possível.
Fica uma
questão: haverá num futuro próximo trabalho para todos de oito horas por dia e
200 dias por ano? E se não, que humanidade resultará de uma vida com cada vez
mais lazer e menos trabalho? Desde já, modelos de ‘renda básica universal’ (e
seu financiamento), fazendo do trabalho uma opção, estão sendo estudados e
testado em várias partes e realidades econômicas do mundo.
Em outras
palavras, surge uma nova realidade: a da desnecessidade do trabalho. Resta
saber se estamos preparados para uma situação de vinte horas, ou menos, de
labor por semana e folga de outras vinte, ou mais, além do fim de semana, E
nesse contexto cabe lembrar que, enquanto o trabalho gera receita, o lazer gera
despesa. Por outro lado, é inevitável que nosso comportamento consumista –
especialmente de bens materiais – sofra restrições, seja por mudança de atitude
sociocultural, seja pelo fato condicionante de nosso mundo, com seus recursos, ser
finito.
O
trabalho encontra-se no centro da nossa civilização desde o fim do nomadismo. Mas
surge no horizonte uma grande pergunta, ele se tornando cada vez menos
necessário, que modelo de civilização resultará dessa perspectiva? Uma
civilização do ser (em vez do ter) e a imaterialidade?
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