quarta-feira, 29 de junho de 2022

Abstenção do Voto - Um Fenômeno Crescente

 

Abstenção do Voto – Um Fenômeno Crescente

(“Abstention from Voting – An Increasing Phenomenon” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H, G, Rehfeldt

 

Um problema marcante das democracias ocidentais é a constante diminuição da participação nas eleições. Esse fenômeno costuma regularmente causar comentários preocupados e análises aprofundadas 'no dia seguinte' (ao de uma eleição), quando as comissões partidárias tiraram suas conclusões – em sua maioria de natureza pessoal – dos resultados eleitorais. Já em seguida, políticos e comentaristas políticos retornam aos negócios como de costume. Nesse contexto, explicações para as abstenções crescentes podem ir do simples desinteresse político ao questionamento da legitimidade do sistema democrático.

Na grande maioria dessas democracias – exceção feita a poucas como p. ex. Bélgica, Áustria ou Brasil, o voto e facultativo. Isso significa que o eleitor se manifesta nas urnas apenas quando pode ou quer, sem precisar justificar uma eventual abstenção. Em decorrência disso, as razões para a abstenção preenchem um amplo leque, que vai da preguiça ou o mau empo ao questionamento do próprio modelo democrático, passando por conformismo (“meu voto nada significa e nada muda”), resignação com a política, descrédito à classe política, ou, simplesmente, porque nenhum candidato corresponde às expectativas do eleitor. Consequência disso são taxas de abstenção, tidas como normais, em torno de 30%, podendo chegar a 44% como nas eleições presidenciais do Japão em 2021, ou a 67% observado nas eleições regionais da França em 2021. Isso faz o assunto suscitar intensas investigações e tornar-se razão de muitos estudos de ciências sociais.

Tais preocupações deviam ser desnecessárias no Brasil pelo simples fato do voto ser obrigatório, admitindo apenas algumas situações bem definidas, como doença de ausência do domicílio eleitoral. A prática, no entanto, é diferente. Para começar, a multa para a abstenção não justificada é de R$ 3,50, o que equivale à virtual inexistência de penalidade para essa contravenção.

Mas existem outras explicações para uma crescente taxa de abstenção do voto no Brasil, ou, pelo menos é definido como abstenção. Uma das razões é de simples ordem burocrática. Os próprios órgão eleitorais têm consciência da desatualização dos registros eleitorais, motivo pela qual promoveram um recadastramento dos eleitores, mas não concluído por razões políticas conhecidas. Outro aspecto central é o fato do voto ser facultativo para os eleitores com idade a partir de 70 anos. E esse contingente de pessoas encontra-se em constante crescimento, o que significa um crescente número de eleitores eventuais, que, não votando, geram abstenções. Os dados são claros: em dois períodos eleitorais, somando oito anos, a população brasileira de 70 e mais anos de idade aumentou de 9,242 milhões em 2010 para 12,405 milhões em 2018, um aumento expressivo de 34%. Isso significa que 3,163 milhões de eleitores passaram da obrigatoriedade do voto para o status de facultativos. No mesmo lapso de tempo, a população de eleitores cresceu apenas 6%.

Além disso há aspectos como o crescente número de pessoas econômica, social e politicamente excluídos e consequentemente desinteressadas ou impedidas de votar, ou então o jeitinho brasileiro que permite, por exemplo, esquivar-se da opção pelo candidato menos ruim de, mas parecem ser de menor importância.

Não há como negar que possa haver suspeitas de que a abstenção de voto seja usada como instrumento de fraude em eleições forjadas, todavia é sempre recomendável ter os dados acima em mente    

terça-feira, 7 de junho de 2022

Prosperação Intergerações

 

Prosperação Intergerações

(¨Inter-generation Prosperation” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Ano 2022. - Fernando e Ana formam um casal de classe média. Ele, 52 anos, farmacêutico, ela, 50 anos, pedagoga, tem dois filhos, Sueli e Pedro, ambos casados e ainda sem filhos. Fernando e Ana construíram um patrimônio sólido constituído de um apartamento confortável na cidade e um pequeno sítio a 30 quilômetros de distância, além de um carro que trocam a cada 4 a 5 anos.

A filha Sueli é casada com Ricardo, que é dono de uma pequena, mas bem-conceituada oficina de motocicletas. O casal mora em apartamento alugado e está adquirindo um apartamento ainda em construção. Eles não pensam em filhos no curto prazo. Alternam entre o uso de um carro econômico e aplicativos de transporte. Os pais de Ricardo, ambos professores, também moram em apartamento próprio. – Pedro, por sua vez, é programador de TI, solteiro, e como nômade digital não pensa em casar – por enquanto.

Essa moderna constelação familiar é contrasta bastante com as famílias numerosas de épocas passadas. Reduções sensíveis na taxa de fertilidade da mulher, de 4,6 filhos por mulher na década de 1940 para 2, no ano 2000, e atualmente 1,7 filhos, mudaram radicalmente as dimensões familiares. Entre as consequências observa-se uma importante mudança na dinâmica demográfica com expressivas consequências nos padrões de transmissão de patrimônio de geração a geração. Menos filhos, menos herdeiros – herança maior.

Essa tendência promete perpetuar e acentuar-se no futuro, possivelmente a médio prazo e talvez além, enquanto persistirem as estruturas familiares e de geração de renda com a participação da mulher. Como a fertilidade media da mulher tende a reduzir-se mais um pouco até cerca de 1,5 filho, devemos esperar uma consolidação, talvez acentuação dessa realidade

Voltemos à família de Fernando e Ana num pulo hipotético para o futuro, 30 anos depois. -  Fernando faleceu aos 79 anos de idade e Ana, agora aos 80 anos, continua em seu apartamento enquanto o sítio está sendo administrado pelo genro Ricardo. Sueli, mãe de gêmeos, está aposentada como funcionária pública, mas montou uma pequena oficina onde produz roupas para pets. Pedro vive, há 12 anos, numa relação estável, sem filhos, e é dono de uma consultoria de IA (inteligência artificial) especializada em logística multimodal. Em virtude da idade avançada de Ana, que vive com Sueli, a família acordou em que o sítio ficaria para Sueli e Ricardo e o apartamento, com Pedro, que ainda não sabe o que fazer com ele num mercado de baixa procura. Por outro lado, Ricardo seria herdeiro universal dos bens imóveis e moveis de seus pais.

Vemos aqui a constelação familiar típica do nosso momento, e seu bastante provável futuro. Percebe-se uma grande diferença com aquela de 70 ou 80 anos atrás, quando famílias de 6, 8 ou mais filhos eram normais, e isso numa época quando a mortalidade infantil já estava em acentuado declínio. As elevadas taxas de crescimento populacional neutralizavam em grande parte aquelas de crescimento das riquezas pessoas e familiares. Isso significa, que os patrimônios de cada geração eram repartidos entre um número relativamente grande de filhos, ou seja, a transferência de patrimônio para a posterioridade era bastante retalhada e, assim, limitada para cada herdeiro. (Obviamente, não estamos falando de sociedades com culturas de transmissão específica, p. ex., a primogênitos, ou similares.)

Naturalmente trata-se apenas de uma redistribuição de patrimônios, no entanto, essa concentração de renda propicia a capacidade de poupança e investimento. Na ausência de crescimento populacional, o enriquecimento da sociedade a partir de patrimônios anteriormente formados. A prosperidade pessoal e familiar, entretanto, aumentará substancialmente.

  

 

     

 

 

 

 

 

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Os Limites da Globalização

 

Os Limites da Globalização

(“Limits of Globalization” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Globalização significa a integração dos homens e de suas estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais ao redor do mundo. O processo de interconexão em várias áreas iniciou-se em meados do século 20, beneficiado pelas intenções pacifistas pós-guerra, mas especialmente pelos avanços nas tecnologias de comunicação e especialmente pela emergente TI (tecnologia de informação). Os aspectos econômicos mostraram-se os mais dinâmicos em desenvolvimentos globais, seja no estabelecimento de cadeias de fornecimento, seja na oportunização de mercados de consumo. No campo da política internacional, não por último em resposta e como suporte a interesses econômicos, pactos e acordos foram firmados com o intuito de aproximações internacionais e o fortalecimento das relações em vários planos.

Não devemos esquecer que sempre houve críticas das mais diversas origens à globalização em si, mas especialmente a formatos extremados, principalmente questionando interdependências excessivas de um lado em prejuízos de autonomia no outro. E essas preocupações revelaram-se justificadas no mínimo em três momentos da história recente: a crise bancária internacional de 2008, a pandemia recente da covid-19, e a guerra na Ucrânia atualmente em curso. Nessas ocasiões começaram e continuam se evidenciando situações que c0mprovaram e existência de limites à globalização, tanto econômica, quanto política, social e cultural. E tais limites têm várias feições.

Tanto a crise financeira com desdobramentos desastrosos para a economia de vários países, em princípio não envolvidos nas causas, quanto durante a pandemia, quando o outsourcing de indústrias farmacêuticas para um número reduzido de países, evidenciando uma extrema fragilidade do resto de munda em respostas medicinais imediatas, mostraram claramente a necessidade de autonomias domésticas mínimas em todos os setores. O custo de tal política parece justificar-se plenamente no médio e longo prazo. Em paralelo a isso é preciso considerar a desindustrialização de países desenvolvidos em benefício de países em desenvolvimento com o efeito secundário da transferência de problemas sociais em sentido contrário, decorrentes da liberação de mão de obra nos primeiros países com correspondente emprego nos segundos.

Num plano paralelo, não escapamos da realidade de que os recursos naturais são limitados e estão distribuídos irregularmente sobre o globo. Isso leva a outro limite, o da infraestrutura insuficiente de sustentar uma globalização econômica. Commodities são extraídos, em um ponto do globo, p.ex. da América do Sul, levados para outro, p.ex. na Ásia, para beneficiamento ou industrialização, para o produto final ser finalmente distribuído ao mundo todo para o consumo, inclusive de volta para a América do Sul. No caminho disso encontram-se obstáculos como portos inadequados para receber os modernos super-embarcações (que, aliás, são capazes de obstruir acidentalmente um canal estratégico por semanas como no caso do navio ‘Ever Given’ no canal de Sue, e represando centenas de outros navios – e centenas de milhões de dólares em mercadorias – em seus percursos), eventuais greves de marítimos ou aeroviários, e o elevado custo agregado por transportes, não esquecendo os consequentes efeitos ambientais. E esse processo significa que resíduos e subprodutos, além de serviços correlacionados, são desnecessariamente transportados ao redor do mundo. Além disso é preciso lembrar que o transporte marítimo é hoje o maior emissor de CO2, um problema ambiental de primeira ordem.

Em outra esfera, a flexibilização de fronteiras e a melhor acessibilidade aos meios de transporte favoreceram os contatos diretos entre os povos e suas culturas. Mas isso também significa o transplante de valores culturais e uma infalível diluição dos mesmos na convivência com outras culturas – ou entrar em choques. Um multiculturalismo excessivo tende a gerar estranhezas e desconforto. Por mais que valores culturais costumam ter raízes profundas, o risco de desfigurações, ou mesmo sua perda, é bastante real.

Com tudo isso em mente, impõe-se uma pergunta: existe a chance para uma civilização globalizada? A guerra em curso na Ucrânia mostra que interesses geopolíticos exacerbados podem quase instantaneamente desfazer pactos e alianças políticas, incluindo a implosão de constructos econômicos e a destruição de bases existenciais de sociedades inteiras. Uma globalização jamais subsistirá sem o respeito a pertencimentos étnicos ou religiosos, ou a identidades geográfico-políticos.

Concluindo parece evidenciar-se que não se justifica uma globalização absoluta, porém globalizações ou continentalizações relativas e inteligentes, onde independências e interdependências coexistam no melhor equilíbrio no alcance de micro- e macro-resultados econômicas, políticas, sociais e culturais.