quinta-feira, 2 de junho de 2022

Os Limites da Globalização

 

Os Limites da Globalização

(“Limits of Globalization” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Globalização significa a integração dos homens e de suas estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais ao redor do mundo. O processo de interconexão em várias áreas iniciou-se em meados do século 20, beneficiado pelas intenções pacifistas pós-guerra, mas especialmente pelos avanços nas tecnologias de comunicação e especialmente pela emergente TI (tecnologia de informação). Os aspectos econômicos mostraram-se os mais dinâmicos em desenvolvimentos globais, seja no estabelecimento de cadeias de fornecimento, seja na oportunização de mercados de consumo. No campo da política internacional, não por último em resposta e como suporte a interesses econômicos, pactos e acordos foram firmados com o intuito de aproximações internacionais e o fortalecimento das relações em vários planos.

Não devemos esquecer que sempre houve críticas das mais diversas origens à globalização em si, mas especialmente a formatos extremados, principalmente questionando interdependências excessivas de um lado em prejuízos de autonomia no outro. E essas preocupações revelaram-se justificadas no mínimo em três momentos da história recente: a crise bancária internacional de 2008, a pandemia recente da covid-19, e a guerra na Ucrânia atualmente em curso. Nessas ocasiões começaram e continuam se evidenciando situações que c0mprovaram e existência de limites à globalização, tanto econômica, quanto política, social e cultural. E tais limites têm várias feições.

Tanto a crise financeira com desdobramentos desastrosos para a economia de vários países, em princípio não envolvidos nas causas, quanto durante a pandemia, quando o outsourcing de indústrias farmacêuticas para um número reduzido de países, evidenciando uma extrema fragilidade do resto de munda em respostas medicinais imediatas, mostraram claramente a necessidade de autonomias domésticas mínimas em todos os setores. O custo de tal política parece justificar-se plenamente no médio e longo prazo. Em paralelo a isso é preciso considerar a desindustrialização de países desenvolvidos em benefício de países em desenvolvimento com o efeito secundário da transferência de problemas sociais em sentido contrário, decorrentes da liberação de mão de obra nos primeiros países com correspondente emprego nos segundos.

Num plano paralelo, não escapamos da realidade de que os recursos naturais são limitados e estão distribuídos irregularmente sobre o globo. Isso leva a outro limite, o da infraestrutura insuficiente de sustentar uma globalização econômica. Commodities são extraídos, em um ponto do globo, p.ex. da América do Sul, levados para outro, p.ex. na Ásia, para beneficiamento ou industrialização, para o produto final ser finalmente distribuído ao mundo todo para o consumo, inclusive de volta para a América do Sul. No caminho disso encontram-se obstáculos como portos inadequados para receber os modernos super-embarcações (que, aliás, são capazes de obstruir acidentalmente um canal estratégico por semanas como no caso do navio ‘Ever Given’ no canal de Sue, e represando centenas de outros navios – e centenas de milhões de dólares em mercadorias – em seus percursos), eventuais greves de marítimos ou aeroviários, e o elevado custo agregado por transportes, não esquecendo os consequentes efeitos ambientais. E esse processo significa que resíduos e subprodutos, além de serviços correlacionados, são desnecessariamente transportados ao redor do mundo. Além disso é preciso lembrar que o transporte marítimo é hoje o maior emissor de CO2, um problema ambiental de primeira ordem.

Em outra esfera, a flexibilização de fronteiras e a melhor acessibilidade aos meios de transporte favoreceram os contatos diretos entre os povos e suas culturas. Mas isso também significa o transplante de valores culturais e uma infalível diluição dos mesmos na convivência com outras culturas – ou entrar em choques. Um multiculturalismo excessivo tende a gerar estranhezas e desconforto. Por mais que valores culturais costumam ter raízes profundas, o risco de desfigurações, ou mesmo sua perda, é bastante real.

Com tudo isso em mente, impõe-se uma pergunta: existe a chance para uma civilização globalizada? A guerra em curso na Ucrânia mostra que interesses geopolíticos exacerbados podem quase instantaneamente desfazer pactos e alianças políticas, incluindo a implosão de constructos econômicos e a destruição de bases existenciais de sociedades inteiras. Uma globalização jamais subsistirá sem o respeito a pertencimentos étnicos ou religiosos, ou a identidades geográfico-políticos.

Concluindo parece evidenciar-se que não se justifica uma globalização absoluta, porém globalizações ou continentalizações relativas e inteligentes, onde independências e interdependências coexistam no melhor equilíbrio no alcance de micro- e macro-resultados econômicas, políticas, sociais e culturais.

                

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