Os Limites da Globalização
(“Limits of
Globalization” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G.
Rehfeldt
Globalização significa a integração dos homens e de suas estruturas
econômicas, políticas, sociais e culturais ao redor do mundo. O processo de
interconexão em várias áreas iniciou-se em meados do século 20, beneficiado
pelas intenções pacifistas pós-guerra, mas especialmente pelos avanços nas
tecnologias de comunicação e especialmente pela emergente TI (tecnologia de
informação). Os aspectos econômicos mostraram-se os mais dinâmicos em
desenvolvimentos globais, seja no estabelecimento de cadeias de fornecimento,
seja na oportunização de mercados de consumo. No campo da política
internacional, não por último em resposta e como suporte a interesses
econômicos, pactos e acordos foram firmados com o intuito de aproximações
internacionais e o fortalecimento das relações em vários planos.
Não devemos esquecer que sempre houve
críticas das mais diversas origens à globalização em si, mas especialmente a
formatos extremados, principalmente questionando interdependências excessivas
de um lado em prejuízos de autonomia no outro. E essas preocupações
revelaram-se justificadas no mínimo em três momentos da história recente: a
crise bancária internacional de 2008, a pandemia recente da covid-19, e a guerra
na Ucrânia atualmente em curso. Nessas ocasiões começaram e continuam se
evidenciando situações que c0mprovaram e existência de limites à globalização,
tanto econômica, quanto política, social e cultural. E tais limites têm várias
feições.
Tanto a crise financeira com desdobramentos
desastrosos para a economia de vários países, em princípio não envolvidos nas
causas, quanto durante a pandemia, quando o outsourcing de indústrias
farmacêuticas para um número reduzido de países, evidenciando uma extrema
fragilidade do resto de munda em respostas medicinais imediatas, mostraram
claramente a necessidade de autonomias domésticas mínimas em todos os setores.
O custo de tal política parece justificar-se plenamente no médio e longo prazo.
Em paralelo a isso é preciso considerar a desindustrialização de países
desenvolvidos em benefício de países em desenvolvimento com o efeito secundário
da transferência de problemas sociais em sentido contrário, decorrentes da
liberação de mão de obra nos primeiros países com correspondente emprego nos
segundos.
Num plano paralelo, não escapamos da
realidade de que os recursos naturais são limitados e estão distribuídos
irregularmente sobre o globo. Isso leva a outro limite, o da infraestrutura insuficiente
de sustentar uma globalização econômica. Commodities são extraídos, em um ponto
do globo, p.ex. da América do Sul, levados para outro, p.ex. na Ásia, para
beneficiamento ou industrialização, para o produto final ser finalmente distribuído
ao mundo todo para o consumo, inclusive de volta para a América do Sul. No
caminho disso encontram-se obstáculos como portos inadequados para receber os
modernos super-embarcações (que, aliás, são capazes de obstruir acidentalmente
um canal estratégico por semanas como no caso do navio ‘Ever Given’ no canal de
Sue, e represando centenas de outros navios – e centenas de milhões de dólares
em mercadorias – em seus percursos), eventuais greves de marítimos ou
aeroviários, e o elevado custo agregado por transportes, não esquecendo os consequentes
efeitos ambientais. E esse processo significa que resíduos e subprodutos, além
de serviços correlacionados, são desnecessariamente transportados ao redor do
mundo. Além disso é preciso lembrar que o transporte marítimo é hoje o maior emissor
de CO2, um problema ambiental de primeira ordem.
Em outra esfera, a flexibilização de fronteiras
e a melhor acessibilidade aos meios de transporte favoreceram os contatos diretos
entre os povos e suas culturas. Mas isso também significa o transplante de
valores culturais e uma infalível diluição dos mesmos na convivência com outras
culturas – ou entrar em choques. Um multiculturalismo excessivo tende a gerar
estranhezas e desconforto. Por mais que valores culturais costumam ter raízes
profundas, o risco de desfigurações, ou mesmo sua perda, é bastante real.
Com tudo isso em mente, impõe-se uma
pergunta: existe a chance para uma civilização globalizada? A guerra em curso
na Ucrânia mostra que interesses geopolíticos exacerbados podem quase
instantaneamente desfazer pactos e alianças políticas, incluindo a implosão de
constructos econômicos e a destruição de bases existenciais de sociedades
inteiras. Uma globalização jamais subsistirá sem o respeito a pertencimentos
étnicos ou religiosos, ou a identidades geográfico-políticos.
Concluindo parece evidenciar-se que não se
justifica uma globalização absoluta, porém globalizações ou continentalizações
relativas e inteligentes, onde independências e interdependências coexistam no
melhor equilíbrio no alcance de micro- e macro-resultados econômicas,
políticas, sociais e culturais.
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