sábado, 27 de maio de 2023

Mais Filhos?

 

Mais Filhos?

(More children? - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H.G. Rehfeldt

 

A virada demográfica, em alguns países esperada para as próximas décadas, em outros já em curso, é um fato incontestável. Gradativamente aumenta o número de países com declínio em sua população, como a de Portugal (-0,22%), Japão (-0,33%) ou Itália (-0,59%) entre os 30 países atualmente nessa situação. Até a china, um pesadelo nas projeções demográficas, registrou o primeiro crescimento negativo em 2021. A causa central é a queda da taxa de fertilidade por várias razões impostas pela vida moderna (emancipação da mulher garantida pela pílula, o elevado custo dos filhos até sua autonomia econômica, etc.) e que não deverá mudar a curto e médio prazo. Essa tendência promete continuar e, cedo ou tarde, atingir toda a população mundial.

 

De uma maneira geral, essa realidade é vista com um misto de preocupação e indecisão de como reagir. Não sem razão, pois o declínio no número de nascimentos e o simultâneo aumento da expectativa de vida serão um real problema para os sistemas previdenciário. A relação entre um período economicamente produtivo inalterado por definição de lei diante de uma expectativa de vida em elevação certamente requer medidas corretivas. Por outro lado, menos mão de obra, embora com mesma produtividade, significa, grosso modo, um menor Produto Interno Bruto (PIB), o que não necessariamente deve afetar o PIB per capita. (Uma sociedade menor tem obviamente um PIB menor, mas o PIB per capita semelhante a economias maiores.)  

 

A resposta mais fácil, imediata e aparentemente lógica encontrada pelos governos dos países afetados é a proposta da criação de estímulos financeiros ou de outra natureza para as famílias terem mais filhos. A pergunta é: uma redução na população das nações, ou seja, mundial, representa realmente um problema? No caso de um crescimento continuado da população, até que limite nosso planeta consegue sustentar seus habitantes? De fato, trata-se de uma absoluta novidade na história da humanidade, e novidades geram incertezas. Mas encontramo-nos numa situação única de promover mudanças radicais a favor do nosso futuro. Existem aspectos econômicos entendidos como negativos, mas o futuro da humanidade não pode dependem somente de resultados contábeis. O que falta é a identificação de aspectos positivos dessa mudança existencial. E eles existem.

 

No caso da previdência social será preciso que o cidadão, diferentemente do século XIX quando terminou a ‘previdência familiar’ com o trabalho nas minas e nas fábricas e nasceu a previdência tutelada pelo estado, hoje, e no futuro, deverá, pelo menos em parte, ser gestada pelo próprio cidadão, sob pena de ser beneficiado apenas pelo mínimo necessário para uma vida digna. Haverá, sim, a necessidade de repensar e planejar o próprio sustento na velhice. Na verdade, paralelo ao aumento da expectativa de vida, também aumenta a vida produtiva das pessoas. Prova disso é que para muitas pessoas o benefício da aposentadoria é uma renda complementar àquela de uma atividade econômica normalmente executada (mesmo sendo com o suporte medicinal, preventivo ou não, hoje absolutamente normal) depois da entrada no amparo previdenciário.

 

Outra condição consiste numa população progressivamente menor vivendo num mundo de infraestruturas dimensionadas para populações maiores, ou seja, não haverá mais necessidade de investimentos de expansão – de melhoria e modernização, sim. Seria como a população de 1990 dispor de infraestruturas aturais, ou viver hoje com as tecnologias e infraestruturas de 2050.

 

Menos quantidade, mais qualidade. Menos consumo suprido por produções quantitativamente menores, mas crescimento através de qualidade e tecnologia. Não podemos esquecer nesta questão que o atual modelo de consumo num planeta de recursos limitados está condenado inicialmente a um encarecimento dos produtos na medida em que as matérias primas de tornam mais escassos, e finalmente a um colapso. Por outro lado, já estamos vivendo uma mudança do consumo de bens para o de serviços.

 

Por fim, um dos aspectos mais importantes e absolutamente positivo será uma gradual redução dos efeitos da ação humana sobre o nosso planeta com seu meio ambientes. Sejam espaços menores para fins agropecuários, sejam menos matérias primas para a geração de energia ou a produção de bens, seja uma redução em desperdícios e resíduos de toda sorte, ou seja, a redução de todo tipo de poluentes na, no ar e no mar, todos são ganhos indiscutíveis para nosso planeta e sua flora e fauna.  

 

Sem dúvida haverá desde já a necessidade de avaliar as projeções mais diversas nas esferas econômicas, políticas e sociais, onde mudanças importantes já são perfeitamente avaliáveis. No caso brasileiro ainda experimentamos um crescimento populacional diminuto de 0,6%, mas a inversão demográfica não deverá acontecer em não mais de duas décadas, e é preciso que tenhamos consciência dessa realidade, e de uma significativa mudança de mentalidade – a valorização do menos.

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário