sexta-feira, 2 de junho de 2023

Equívoco

 

Equivoco

(“Equivocation” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Cito, em globo.com, 02.06.2023, “...o consumo das famílias vem recuando e contribuindo cada vez menos para o PIB...”, dando alguns detalhes numéricos e concluindo com as principais explicações econômicas sendo a inflação alta, juros altos e encarecimento de produtos essenciais.

 

São explicações notórias e não cabem reparos ou contestações. Faltou, no entanto, a inclusão de outro aspecto nas análises – o fator demográfico. E esse parece contribuir, no mínimo, com igual peso na leitura mencionada.

 

Eis o foco: com uma população do Brasil em 2003 de 182,6 milhões de habitantes, o número de nascimentos vivos foi de 3,4 milhões de crianças. Ao mesmo tempo, a taxa de fertilidade da mulher brasileira (em queda a décadas) foi de 2,1 filhos, o que corresponde à taxa de simples reposição populacional (nem aumento, nem diminuição), aliás o último ano antes de valores já não mais de reposição. Esta queda de fertilidade continuou caindo nos anos posteriores a 2003, chegando em 2021 com uma taxa de 1,7 filhos, representando apenas 2,7 nascimentos vivos, e uma população nacional de 207,5 milhões de pessoas. Projeções demográficas preveem uma mais lenta continuação dessa queda da fertilidade até cerca de 1,5 filho por mulher, quando, então, deverá se manter razoavelmente estável.

 

Caso a taxa de fertilidade tivesse continuada no patamar de 2,1 filhos por mulher, o número de nascimentos teria sido em 2021 de 3,9 milhões de crianças, ou seja, 1,2 milhão acima do número registrado. Isso significa que no período de 18 anos observou-se um déficit total acumulado de cerca de 4,5 milhões de nascimentos, ou seja, 4,5 milhões de futuros habitantes economicamente ativos a menos, apenas na hipótese de manter a população constante. Disso resulta um igual déficit de consumidores futuros, dos quais os mais velhos teriam atualmente 18 anos. Portanto, “...o consumo das famílias (vem) continuará recuando e contribuindo cada vez menos para o PIB...”, salvo o crescimento econômico compense ou supere essa queda da população economicamente ativa. Isso não significa que o PIB per capita não possa aumentar.

 

Uma vez que originados por mudanças socioculturais profundas e sem perspectivas de mudança no curto e médio praz, principalmente a emancipação da mulher e eficientes mecanismos contraceptivos, além de lidar com números concretos devemos encarar tendências de longo curso.

 

E não somente isso. Há outra dimensão demográfica a ser observada cuidadosamente, e que aponta na mesma direção de redução de consumo. Ela localiza-se na outra extremidade do ciclo da vida, tratando-se da população idosa.

 

No mesmo espaço de tempo de 2003 a 2021, a participação desse segmento populacional cresceu de 9,6% para 14,7% do total de brasileiros. Em números absolutos, isso significa um aumento de 17,5 para 30,5 milhões de idosos, ou seja, quase dobrou. Diante da sabida queda gradual de consumo por parte dessas pessoas, especialmente de bens não essenciais e duráveis, um reflexo dessa situação sobre os mercados, e consequentemente o PIB, é inegável. E a expectativa de vida continua subindo (embora com uma ligeira redução de intensidade), o que significa que também nesse caso não há previsão de término dessa dinâmica.

 

Portanto, senhores economistas, este humilde colega sugere que o leque de considerações nessa esfera, bem como o conhecimento desses fatos pelos mercados, sejam ampliados.  Aliás, outras nações encontra-se em situação parecida.

Um comentário:

  1. Bem pensado, e como você mesmo colocou, não incluído nas considerações de caráter econômico, talvez por se tratar de um aspecto de cunho essencialmente social.

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