sábado, 12 de agosto de 2023

Rios Voadores

 

Rios Voadores

(“Flying Rivers” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Em longtudes ao redor de 30º, tanto no hemisfério norte, quanto no sul, situam-se os grandes desertos ao redor do globo. Saara (África), Arábia, Iran, Gobi (Ásia) e Mojave (América do Norte) no hemisfério norte, e Kalahari e Namíbia (África), os desertos australianos, e o da costa peruana e Atacama (América do Sul) no hemisfério sul são regiões de permanente alta pressão – isso é, sem chuvas. Esta incursão na geografia se torna necessária para o texto a seguir fazer sentido.

 

Qualquer grande área florestal funciona como uma bomba d'água. As nuvens de chuva que se formam sobre o mar só chegam a algumas centenas de quilômetros para o interior antes de se dissiparem em chuva. A floresta pode não apenas armazenar a água da chuva como uma esponja, mas também liberá-la la através da evaporação. Por exemplo, uma árvore caducifólia europeia "transpira" até 400 litros de água em um dia quente de verão. Dessa forma, tem efeito de resfriamento em seu entorno e contribui para a formação de nuvens de chuva.

 

Em contrapartida, um único gigante de selva tropical pode liberar até 1.000 litros de água por dia na atmosfera. Essa evaporação faz com que a bacia amazônica é, de longe, a maior bomba de água do planeta. Sua floresta tropical absorve as chuvas provenientes do Atlântico e da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, cerca de metade é liberada no sistema formado pelo rio Amazonas e seus afluentes, a outra metade evapora sobre a folhagem densa e de vários andares da floresta. O ar acima da floresta tropical da Amazônia absorve cerca de 20 milhões de metros cúbicos de água todos os dias, uma quantidade praticamente igual à água transportada pelo próprio rio Amazonas.

 

Na região do equador, os ventos em alturas de cerca de 3.000 metros, onde se formam as nuvens resultantes dessa evaporação, os ventos sopram predominantemente de leste para oeste, dando origem aos assim chamados "rios voadores" da América do Sul (nome dado pelo pesquisador brasileiro Antônio D. Nobre), por onde flui um décimo dos recursos de água doce do mundo. No seu trajeto leste-oeste, esses rios voadores atingem a Cordilheira dos Andes com montanhas de até 7.000 metros de altura, ou seja, bem mais altos do que a altura de flutuação das nuvens. Essa barreira força uma mudança de curso dos ventos e das nuvens, uma menor parte dos quais desviando-se e acompanhando os Andes em direção ao norte, descarregando suas chuvas sobre o leste Peru e a Colômbia.

 

A maior parte do rio voador e sua capacidade pluvial, no entanto, toma o rumo para o sul, garantindo chuvas mais ou menos regulares no leste da Bolívia, no norte da Argentina e no Paraguai, bem como, em território brasileiro no Centro-oeste, na parte sulina do Sudeste e no Sul quando entra numa faixa de ventos preponderantemente de oeste a leste.

 

E aí voltamos ao prefácio geográfico. A parte sul do Mato Grosso do Sul, o sul de Minas Gerais, e os estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina situam-se exatamente na faixa de latitude dos desertos do hemisfério sul. Isso significa que esses territórios são diretamente beneficiados pelo rio voador vindo da Amazônia, sem os quais a flora e fana típicas dos mesmos não existiria. Em outras palavras, cada árvore desmatada nas Amazônia resulta numa redução de cerca de 1000 litros de chuva por dia (aproximadamente o equivalente ao consumo diário de três famílias de três pessoas) ao longo do curso desses rios voadores.

 

Fica a lição: os sistemas meteorológicos são complexos, sensíveis e consequentes.  

 

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Economia Circular

 

Economia Circular

(“Circular Economy” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Um dos fenômenos que acompanha a evolução industrial desde seus momentos iniciais é a cultura do descarte. Sejam os subprodutos não imediatamente aproveitáveis, os materiais residuais, ou sejam os produtos industriais de baixa qualidade ou o próprio equipamento superado ou desgastado, especialmente não-metálicos, tudo acaba em algum depósito de lixo, aterro ilegal ou em fogo. Uma solução fácil e barata. De uma maneira geral, uma combinação entre matérias primas relativamente baratas e a inexistência de estruturas e tecnologias para a reutilização desses materiais beneficiam tal comportamento. Somente em momentos de crise ou carências observaram-se esforços para o reaproveitamento de materiais, como no caso das ‘mulheres de entulho’ na Alemanha pós-guerra, quando essas vasculharam os montes de destroços de edificações bombardeadas em busca de tijolos reutilizáveis.

 

É a típica economia linear. Nela, os produtos são elaborados a partir de matérias primas recursos em primeiro uso, chegam através do comercia ao usuário consumidor e, depois de sua vida útil, são descartados. Dessa maneira, uma grande parte das matérias-primas utilizadas é depositada em lixões, aterros ou é incinerada; apenas uma pequena proporção, especialmente quando envolve elevado valos, é reutilizada.             

 

Preocupações com os resultados econômicos e ecológicos, seja na extração e no uso de recursos naturais,  no uso de matérias primas, seja nos destinos final das mesmas contidas em produtos finais ao serem descartadas, ou então a própria limitação de sua existência em nosso planeta, deram origem à busca pela recuperação dessas substâncias, dando-lhes uma nova vida como matérias primas primárias ou secundárias – a chamada economia circular, também conhecida como ‘cradle to cradle’, C2C, (berço a berço). 

 

 Em princípio, a economia circular visa minimizar não só o uso de materiais durante a produção, mas também a utilização do meio ambiente como sumidouro de poluentes para resíduos e materiais de alguma maneira recicláveis da produção industrial. Portanto, o ciclo da natureza é tomado como modelo e tenta-se alcançar usos em cascata sem desperdício ou emissões nocivas. O objetivo da economia circular é alcançar a eco-eficácia, ou seja, produtos que podem ser devolvidos aos ciclos biológicos como nutrientes biológicos ou são mantidos continuamente em ciclos técnicos como "nutrientes técnicos".

 

Conscientes das possibilidades futuras, alguns sectores, como a indústria da construção civil, já deram os primeiros passos no sentido da produção circular. No entanto, a simples adaptação do modelo de negócio não resolve os muitos problemas, como a integração de medidas circulares na produção linear, que continuarão a existir e precisam ser abordados sistematicamente, por exemplo, estruturas metálicas parafusadas em vez de soldadas, o que facilita e barateia a desmontagem das peças.

     

Para transformar a economia linear num círculo fechado é preciso inserir um elo adicional no sistema: a reciclagem, decomposição, re-obtenção, recuperação, re-generação e re-disponibilização de materiais e substância. São processos que vão da separação e recuperação da areia contida em concreto de demolição à re-obtenção de nióbio, e outras substâncias nobres de baterias descartadas ou de metais preciosos de telefones celulares. Ou, então, impressoras 3-D podem ser ótimas recicladoras de materiais plásticos.

 

Numa outra dimensão da economia circular, produtos são desde seu projeto concebidos de maneira a facilitar e recuperação de componentes e materiais ao fim de sua vida útil, para reaproveitamento. A título de colaboração, o produto até pode ter informações uteis e de segurança para sua desmontagem ou desconstrução pelo reciclador, pois pode haver necessidade de sofisticados processos e tecnologias específicas, bem como de mão de obra especializada. 

 

Até 80% do impacto ambiental de um produto já é determinado na fase de planejamento. As novas abordagens na concepção de produtos são, por conseguinte, uma alavanca decisiva para tornar o ciclo de vida de um produto o mais eficiente possível em termos de recursos, de preservação de ambiente e rentável. Em uma economia circular, por exemplo, a reciclagem só importa quando todos os outros usos foram esgotados.

 

E existem muitas outras áreas e processos de reciclagem regenerativa de resíduos, por exemplo a reciclagem de metais, ou de óleos usados por meio de segundo refino e processos térmicos para a produção de combustíveis substitutos ou secundários com o aproveitamento de lodo de papel, borracha de pneus velhos e biomassa. Além do reganho material sem insumos de novas matérias primas, são processos como uma importante contribuição para a proteção do clima.       

 

Embora ainda soe a utopia, já existem empresas que fazem da economia circular uma virtude, falta uma mudança geral de mentalidade para que ela se transforme numa causa.