Rios Voadores
(“Flying Rivers” - This text is
written in a way to ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Em longtudes ao redor
de 30º, tanto no hemisfério norte, quanto no sul, situam-se os grandes desertos
ao redor do globo. Saara (África), Arábia, Iran, Gobi (Ásia) e Mojave (América
do Norte) no hemisfério norte, e Kalahari e Namíbia (África), os desertos
australianos, e o da costa peruana e Atacama (América do Sul) no hemisfério sul
são regiões de permanente alta pressão – isso é, sem chuvas. Esta incursão na
geografia se torna necessária para o texto a seguir fazer sentido.
Qualquer
grande área florestal funciona como uma bomba d'água. As nuvens de chuva que se
formam sobre o mar só chegam a algumas centenas de quilômetros para o interior
antes de se dissiparem em chuva. A floresta pode não apenas armazenar a água da
chuva como uma esponja, mas também liberá-la la através da evaporação. Por
exemplo, uma árvore caducifólia europeia "transpira" até 400 litros
de água em um dia quente de verão. Dessa forma, tem efeito de resfriamento em
seu entorno e contribui para a formação de nuvens de chuva.
Em contrapartida,
um único gigante de selva tropical pode liberar até 1.000 litros de água por
dia na atmosfera. Essa evaporação faz com que a bacia amazônica é, de longe, a
maior bomba de água do planeta. Sua floresta tropical absorve as chuvas
provenientes do Atlântico e da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, cerca de metade
é liberada no sistema formado pelo rio Amazonas e seus afluentes, a outra
metade evapora sobre a folhagem densa e de vários andares da floresta. O ar
acima da floresta tropical da Amazônia absorve cerca de 20 milhões de metros
cúbicos de água todos os dias, uma quantidade praticamente igual à água
transportada pelo próprio rio Amazonas.
Na região
do equador, os ventos em alturas de cerca de 3.000 metros, onde se formam as
nuvens resultantes dessa evaporação, os ventos sopram predominantemente de
leste para oeste, dando origem aos assim chamados "rios voadores" da
América do Sul (nome dado pelo pesquisador brasileiro Antônio D. Nobre), por
onde flui um décimo dos recursos de água doce do mundo. No seu trajeto
leste-oeste, esses rios voadores atingem a Cordilheira dos Andes com montanhas de
até 7.000 metros de altura, ou seja, bem mais altos do que a altura de
flutuação das nuvens. Essa barreira força uma mudança de curso dos ventos e das
nuvens, uma menor parte dos quais desviando-se e acompanhando os Andes em
direção ao norte, descarregando suas chuvas sobre o leste Peru e a Colômbia.
A maior
parte do rio voador e sua capacidade pluvial, no entanto, toma o rumo para
o sul, garantindo chuvas mais ou menos regulares no leste da Bolívia, no norte
da Argentina e no Paraguai, bem como, em território brasileiro no Centro-oeste,
na parte sulina do Sudeste e no Sul quando entra numa faixa de ventos preponderantemente de oeste a leste.
E aí
voltamos ao prefácio geográfico. A parte sul do Mato Grosso do Sul, o sul de
Minas Gerais, e os estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina situam-se exatamente na faixa de latitude dos desertos do hemisfério sul.
Isso significa que esses territórios são diretamente beneficiados pelo rio voador vindo da Amazônia, sem os quais a flora e fana típicas dos mesmos não
existiria. Em outras palavras, cada árvore desmatada nas Amazônia resulta numa
redução de cerca de 1000 litros de chuva por dia (aproximadamente o equivalente ao consumo diário de três famílias de três pessoas) ao longo do curso desses rios voadores.
Fica a lição:
os sistemas meteorológicos são complexos, sensíveis e consequentes.
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