Fake
(“Fake” - This
text is written in a way to ease a comprehensive electronic translation)
Klaus H. G.
Rehfeldt
A enganação não é
privilégio da espécie humana. Encontramos a “mentira” em outros seres vivos de
vários reinos da fauna e flora. Nesses casos, obviamente, não têm caráter maldoso,
mas servem como estratégia da natureza para garantir a sobrevivência ou o
sucesso reprodutivo da respectiva espécie.
No mundo do homo primitivo, certamente, as estratégias do uso
de inverdades tiveram os mesmos objetivos. Com a evolução da vida em sociedade,
competição e interações mais complexas tornaram a manipulação da verdade um
instrumento cada vez mais conveniente e usado no convívio para a solução de entraves e problemas,
seja do cidadão, seja da liderança. É a mentira instrumentalizada em busca de
vantagem ou de alcance de interesses. Sociedades de organização e constelação
mais sofisticadas deram origem a enganações mais refinadas.
Intenções de alcance e conservação do poder, político ou
econômico, há séculos recorreram ao uso de falsas informações ou distorções da
verdade na tentativa de enganar o público. A mentira chegou a ser
institucionalizada quando Josef Goebels, ministro de propaganda de Hitler, declarou
que “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. Outra maneira da propaganda
enganosa daquela época (sem mídia social) era a propaganda dirigida de
cochicho: “Você sabia que...”, “Eu sobe de fonte segura que...”. Em momentos de
conflito – de intrafamiliar a internacional – o maior perdedor sempre é a
verdade.
Entretanto, o avanço dos padrões morais e éticos como
resultado da evolução cultural sofreu um dramático revés com o surgimento das
mídias sociais. Qualquer pessoa consegue, sem qualquer custo ou
responsabilização, divulgar qualquer informação, verdadeira ou falsa, até mesmo
sem se identificar. E, em geral, o palco de difusão dessas notícias tem caráter
criminoso, ou político. Quando não são tentativas muito bem elaboradas com fins
criminosos, são desinformações dirigidas de cunho político – mormente eleitoral
– de lado a lado e ao redor do mundo. O recente uso da inteligência artificial no
mundo fake agravou o problema, enriquecendo significativamente a ferramentaria
digital, e o nível qualitativo e técnico da inverdade. E qualquer pessoa, por
ingenuidade, interesse, ou maldade, pode replicar e repassar reiteradamente qualquer
mensagem, com boas ou más intenções, tanto verdades, quanto mentiras.
O avanço tecnológico na área digital torna cada vez mais
difícil identificar a autenticidade da mensagem. A sociedade passou a ser, por
um lado, beneficiada com a imediatez da informação, por outro, vítima
involuntária de um sistema de dualidade quanto a seu uso. Na verdade, existem
meios e fontes bastante confiáveis que permitem verificar a veracidade de boa
parte das mensagens colocadas na mídia social. Porém, a busca pela
autenticidade, ou não, da informação requer algum empenho, ou, então, um
elevado espírito crítico e analítico. Há inverdades evidentes, outras revelam
sua intenção enganosa (“vai haver...”, “já está em curso...”) logo, basta
deixar passar o prazo anunciado e verificar, outras são de complexidade
tecnológica considerável. Por outro lado, o autor de mensagens enganosas ou ilusórias
sabe que, na outra ponta há pessoas que buscam de um ‘colírio’, seja com
respeito ao emprego, ao amor, ou à próxima safra. E não faltam artifícios que
fazem mentiras parecer verdades.
Naturalmente, com destaque no espectro político, a fake news
pode estar perfeitamente sintonizada com os desejos e as expectativas do
destinatário da mensagem, e assim, mesmo inverídica, encontra aceitação,
aprovação e eco. Afinal, a esperança faz parte de capacidade humana de lidar
com o futuro.
Ao receber fake news, cada pessoa aplica seu arbítrio. Ela tornou-se
parte de nosso cotidiano com os mais diversos efeitos sobre as pessoas, da
apatia ao entusiasmo. Porém, para toda fake news há uma informação contrária. Diante
disso, é bom lembrar Abraham Lincoln, quando diz: “Você pode enganar a todos
por algum tempo, a alguns o tempo todo, mas não pode enganar a todos o tempo
todo.”
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