A Cauda do Cometa
Klaus H. G. Rehfeldt
Desde
a Revolução Gloriosa na Inglaterra em 1688 e a Revolução Francesa em 1789 um
ciclo de milênios de regimes autoritários foi sendo quebrado por democracias de
diversas roupagens, colorações e graus de sucesso. Num gradativo e ainda
inacabado processo de transição e amadurecimento dos povos e de suas estruturas
sociopolíticas, alimentados por uma massa crítica mais desenvolvida, a
consciência de seus potenciais de autogestão e, não por último, estimulados
pelo novo ideário humanista, os potentados foram simplesmente destronados ou
passaram a ocupar meros papeis representativos.
Na maioria dos casos não foram
transições ou mudanças tranquilas e pacíficas, mas desencadeadas por situações de
certo grau de violência como lutas por autonomia e independência, revoluções ou
redimensionamentos territoriais por atividades bélicas. Às vezes, não bastou
uma única tentativa até a definitiva instalação de um regime democrático. Em
outros casos, democracias já instaladas foram derrubadas por golpes
totalitários, pela subjugação a regimes autocráticos apenas travestidos de
democráticos, ou então aqueles imbuídos de uma proposta ideológica populista e
de elevado teor ilusório.
Fugindo dos ritos democráticos,
costuma haver nestes últimos casos um toque de messianismo, em geral
preenchendo momentâneos vácuos de poder ou aproveitando-se de instabilidades
políticas. São aparições feitas cometas no firmamento político. O brilho destes
cometas é alimentado por ideologias inebriantes e programas promissores, frequentemente
utópicos, e que conseguem cegar uma boa parcela de cidadãos, especialmente os
economicamente e socialmente mais frágeis. Uma boa dose de demagogia e visões
de futuros mirabolantes incrementam a luminosidade do cometa.
Porém, igual aos cometas,
historicamente os regimes políticos que não nasceram e amadureceram no seio da
sociedade têm duração limitada. Cedo ou tarde, eles costumam exaurir-se no
confronto de suas falácias e falsidades com os verdadeiros potenciais e os
fatos socioeconômicos de um povo, como os cometas no atrito com a atmosfera que
penetram.
Ideários políticos malsucedidos, fracassados
ou falidos deixam rastros iguais às caudas, às vezes longas, de cometas
desintegrados. Estas são povoados e mantidas acesas por adeptos residuais, seja
por convicções ideológicas ou falta de discernimento. Ali situam-se, além dos
ideólogos recalcitrantes, meros saudosistas, os seguidores cegos e intolerantes
das bandeiras desbotadas e da doutrina naufragada, da qual não se conseguem
libertar por carência de opinião própria e arbítrio, ou pela falta de coragem
de optar ou se redefinir. São os perdedores inconformados que procuram na
sociedade os responsáveis e as causas de seu insucesso. São os skin heads de direita, os black blocs que não sabem se são, ou não
são anarquistas ... e serão as militâncias radicalizadas, ainda sem nome, que
sobreviverão o em breve finado Partido dos Trabalhadores. Será preciso preparar-se
e aprender a conviver com eles até a cauda se extinguir.
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