sábado, 1 de junho de 2019

A Cauda do Cometa



A Cauda do Cometa

Klaus H. G. Rehfeldt

Desde a Revolução Gloriosa na Inglaterra em 1688 e a Revolução Francesa em 1789 um ciclo de milênios de regimes autoritários foi sendo quebrado por democracias de diversas roupagens, colorações e graus de sucesso. Num gradativo e ainda inacabado processo de transição e amadurecimento dos povos e de suas estruturas sociopolíticas, alimentados por uma massa crítica mais desenvolvida, a consciência de seus potenciais de autogestão e, não por último, estimulados pelo novo ideário humanista, os potentados foram simplesmente destronados ou passaram a ocupar meros papeis representativos.
            Na maioria dos casos não foram transições ou mudanças tranquilas e pacíficas, mas desencadeadas por situações de certo grau de violência como lutas por autonomia e independência, revoluções ou redimensionamentos territoriais por atividades bélicas. Às vezes, não bastou uma única tentativa até a definitiva instalação de um regime democrático. Em outros casos, democracias já instaladas foram derrubadas por golpes totalitários, pela subjugação a regimes autocráticos apenas travestidos de democráticos, ou então aqueles imbuídos de uma proposta ideológica populista e de elevado teor ilusório.
            Fugindo dos ritos democráticos, costuma haver nestes últimos casos um toque de messianismo, em geral preenchendo momentâneos vácuos de poder ou aproveitando-se de instabilidades políticas. São aparições feitas cometas no firmamento político. O brilho destes cometas é alimentado por ideologias inebriantes e programas promissores, frequentemente utópicos, e que conseguem cegar uma boa parcela de cidadãos, especialmente os economicamente e socialmente mais frágeis. Uma boa dose de demagogia e visões de futuros mirabolantes incrementam a luminosidade do cometa.
            Porém, igual aos cometas, historicamente os regimes políticos que não nasceram e amadureceram no seio da sociedade têm duração limitada. Cedo ou tarde, eles costumam exaurir-se no confronto de suas falácias e falsidades com os verdadeiros potenciais e os fatos socioeconômicos de um povo, como os cometas no atrito com a atmosfera que penetram.
            Ideários políticos malsucedidos, fracassados ou falidos deixam rastros iguais às caudas, às vezes longas, de cometas desintegrados. Estas são povoados e mantidas acesas por adeptos residuais, seja por convicções ideológicas ou falta de discernimento. Ali situam-se, além dos ideólogos recalcitrantes, meros saudosistas, os seguidores cegos e intolerantes das bandeiras desbotadas e da doutrina naufragada, da qual não se conseguem libertar por carência de opinião própria e arbítrio, ou pela falta de coragem de optar ou se redefinir. São os perdedores inconformados que procuram na sociedade os responsáveis e as causas de seu insucesso. São os skin heads de direita, os black blocs que não sabem se são, ou não são anarquistas ... e serão as militâncias radicalizadas, ainda sem nome, que sobreviverão o em breve finado Partido dos Trabalhadores. Será preciso preparar-se e aprender a conviver com eles até a cauda se extinguir.       


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