sexta-feira, 24 de maio de 2019

A Ilusão do Crescimento sem Fim



A Ilusão do Crescimento sem Fim

(Extraído do meu livro "2050 d.C. / Prosperidade sem Crescimento - e sem Propriedade", no prelo da Chiado Editora, Lisboa.
Lançamento no Brasil, dezembro 2016)

Klaus H. G. Rehfeldt

Durante os últimos dois séculos, a sinergia entre industrialização crescente e aumento populacional estabeleceu os parâmetros básicos para o crescimento econômico como fator constante e onipresente das projeções micro- e macroeconômicas. Assim, tradicionalmente, os economistas formularam, e continuam formulando, suas teses e previsões como se este crescimento fosse um ingrediente sine qua non para o desenvolvimento, a prosperidade e a felicidade da humanidade. A única variável a considerar é a taxa de crescimento. Obviamente há argumentos que procuram justificar a necessidade de manter os mercados em crescimento contínuo, entre os quais o mais sólido é a mais recente inclusão de cerca de 1,2 bilhões de novos consumidores no mercado global, oriundos de países em desenvolvimento acelerado como China, Índia, Rússia, Brasil, África do Sul, Nigéria etc. Neste contexto, o credo do crescimento sem fim não é necessariamente uma ilusão, mas certamente a esperança, ou torcida, de que este fim inexorável esteja ainda muito longe. Longe o suficiente para não ter de ser tratado no presente.

[...]

            A ilusão para os menos informados e esperança para os mais perspicazes alimenta-se fundamentalmente da constatação de uma realidade histórica – o aumento populacional, especialmente aquele em ritmo exponencial observado nos últimos dois séculos. Entretanto, alguns países da Europa Central e o Japão já estão experimentando um crescimento negativo, e observa-se uma taxa média de fertilidade abaixo 1,5 filho por mulher para a União Europeia. O ponto de crescimento populacional zero é estabelecido em 2,1 filhos por mulher. [...]

Por continente / subcontinente as taxas de fertilidade para 2015 foram: África – 4,7 filhos por mulher, Austrália e Oceania – 2,5, Ásia – 2,2, América Latina e Caribe – 2,1, América do Norte – 1,8, Europa – 1,6, Mundo – 2,5.

            Estatisticamente, mais da metade da população do planeta vive em países nos quais a taxa de fertilidade é inferior à de manutenção quantitativa da população. Em alguns países esta taxa já é preocupante; no Japão, Coreia do Sul, Alemanha, Portugal, Itália, Ucrânia, Romênia, Sérvia, Polônia e Hungria nascem atualmente entre 1,2 e 1,4 filhos por mulher. Isso significa que cada geração subsequente é numericamente cerca de um terço menor que a anterior. Em quase todos os países da Europa, as famílias têm hoje um filho menos que aquelas de seus pais, e dois menos que as de seus avós. Nos países em desenvolvimento, as mulheres têm até de 2 a 3 filhos menos que suas mães. No Brasil, os filhos por mulher diminuíram nos últimos 30 anos de 4,3 para 1,7, em Bangladesh, de 6,5 para 2,3, na Turquia, de 4,2 para 2,0. Um caso extremo é o Irã com uma queda de 7,0 para 1.8 filhos por mulher.


            Para o ano de 2016 calcula-se com um crescimento populacional brasileiro de 0,80%, o que, em termos práticos, já pode ser considerado irrelevante. Uma projeção dos dados da tabela acima revela que entre 2028 e 2032 o crescimento da população do Brasil atingirá o índice zero para, a partir de então, passar a ser negativo. Segundo o IPEA, através da pesquisa do Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do mesmo ano, prevê o pico da população brasileira com 208 milhões de pessoas para o ano 2030. A partir de então haverá um decréscimo populacional, o mesmo instituto estimando para o ano de 2040 um Brasil com 205,6 milhões de habitantes. Isso permite uma projeção de aproximadamente 203 milhões de brasileiros para o ano 2050.

Este quadro está preocupando pesquisadores sociais, especialmente com foco no futuro dos sistemas de previdência social, porém poucos economistas e ainda menos administradores públicos e de empreendimentos privados têm mostrado inquietação com relação a esta projeção, pelo menos publicamente.


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