Sindicalista não tem Filhos?
(O Sindicalismo em Causa Própria.)
Klaus H. G. Rehfeldt
Desde
sua criação na Alemanha em fins do século XIX, o sistema de aposentadoria
tutelada pelo Estado revelou-se uma conquista social sem paralelo em todo mundo
(aliás instituído por uma ferrenho antissocialista, o chanceler Otto von
Bismarck). Sua versão original previa uma idade de aposentadoria de 70 anos e a
sobrevida média do aposentado era de cerca de um ano. Desde então observaram-se
constantes mudanças e adaptações por necessidades conjunturais ou conveniências
políticas de cada sociedade. Hoje, os detalhes variam de país para país, mas a
concepção básica comprovou sua validade.
Mais recentemente, mudanças no perfil
demográfico das sociedades, especialmente um sensível aumento na expectativa da
vida, causaram uma crescente desproporção entre o período de contribuição e a
duração do benefício; os valores auferidos pelo trabalho não cobrem mais os
montantes pagos durante a aposentadoria, tornando a sistemática atual
insustentável – já a curto prazo. A consequência lógica de uma vida mais longa
é a necessidade de um período produtivo igualmente mais longo para garantir seu
sustento de toda esta fase da vida – o resto é utopia, pois não somente a
velhice, mas também a fase da idade produtiva está se alongando. O trabalhador
que se aposentar aos 60 anos de idade tem uma expectativa de vida de 83 anos.
Isso levanta uma pergunta: o máximo de 42 anos produtivos conseguem formar um
fundo que custeie mais 21 anos (50% do tempo produtivo) de aposentadoria?
Diferentemente da quase totalidade das outras
nações, o Brasil não incluía uma idade mínima como fator central na
determinação do momento inicial da aposentadoria. Isto impede uma vinculação –
e correção – automática e contínua da idade mínima com a mudança da expectativa
de vida, evitando assim resistências espontâneas ou, na maioria das vezes,
fomentadas por organizações sindicais sob o pretexto de preservar direitos
trabalhistas duramente conquistados, bem entendido, em épocas com parâmetros
socioeconômicos e demográficos bem diferentes. Porém, uma reformatação das
fontes de geração de recursos previdenciários é inadiável. É absolutamente
inviável mexer nas taxas de contribuição. Então, só resta redimensionar os
parâmetros temporais, uma vez que a um tempo de contribuição histórico correspondem
períodos cada vez mais longos de sobrevida custeados pela aposentadoria. Isto,
além de estar em perfeita consonância com as mudanças demográficas em curso,
justificaria um sistema de contribuições capitalizadas.
O argumento da defesa de direitos adquiridos
é uma plataforma primorosa para as próximas eleições de diretorias sindicais.
Enquanto isto, subtrai-se do trabalhador a informação de que esta rigidez
condena seus filhos a conviver com uma previdência falida, sem quaisquer
garantias que assegurem uma velhice minimamente digna e economicamente viável. É
o fisiologismo imediatista de quem tem previdência privada paga pela entidade
em detrimento do ajuste necessário de um sistema que visa beneficiar no longo
prazo toda a coletividade trabalhadora, e que sustenta com suas contribuições e
seu esforço.
Os recentes movimentos de protesto e
paralizações contra a reforma previdenciária promovidos e instigados pelos
sindicatos trabalhistas atingem em seus efeitos em primeiro lugar exatamente a
faixa populacional economicamente mais frágil, supostamente defendidas pelas
organizações sindicais. Mas, acima de tudo, deixam, no mínimo, uma dúvida: ou
as lideranças sindicais atrás dessas “orquestrações sociais” têm realmente um
perfil socioeducativo muito precário (em outros países são portadores de PhD),
ou são muito espertos, iludindo outras pessoas, igualmente pouco instruídas,
com informações falsas, promessas vazias e sonhos irrealizáveis, com o único
objetivo de preservar o direito a sua poltrona na entidade de classe – nenhum
aspecto que contribua para a construção de uma ‘classe trabalhadora’ socioeconomicamente
mais próspera. O absurdo desse posicionamento evidenciou-se no momento em que os
próprios partidos de esquerda deixaram de bloquear a tramitação da reforma previdenciária
na comissão especial do Congresso – apesar da insofismável vinculação
político-partidária. Os sindicalistas ainda não compreenderam que oposições por
mera oposição e inconsistentes correm o risco de levar ao suicídio da entidade
que insiste nelas (as pessoas estão rapidamente ficando mais esclarecidas!).
Um sugestão de ação construtiva e que
justificaria a necessidade de sua existência: em vez de defender ‘atividades’
como cobrador de ônibus ou frentista de posto de gasolina, invistam os recursos
gastos nesses ‘protestos’ estéreis na preparação de seus afiliados para o
moderno mundo do trabalho que depois lhes proporcione uma aposentadoria digna. Além
dos benefícios para os usufruidores diretos, mostraria que as organizações
sindicais compreenderam os verdadeiros problemas do futuro mundo do trabalho.
Os sindicatos têm sua razão de ser, mas em outro nível.
Os sindicatos têm sua razão de ser, mas em outro nível.
Por óbvio não seria um socialista que teria esta idéia. Os sindicatos estão contaminados.
ResponderExcluir