Economia de Crescimento, Consumismo e
Desigualdade
Klaus H. G. Rehfeldt
Na
economia moderna, o objetivo central daqueles que definem o destino de uma
nação e conduzem as operações que levam a tal destino visam primordialmente um
crescimento possivelmente significativo do Produto Interno Bruto (PIB). Esta
elevação traduz-se em enriquecimento da sociedade na medida em que for maior
que o aumento populacional. Depois de mais de meio século de aceitação
inconteste surgem mais recentemente alertas e reservas contra essa premissa.
A principal contestação reside no fato de que
a expansão do PIB tem como condição indispensável o aumento do uso e aplicação de
recursos naturais que provêm exclusivamente de um planeta de dimensões
limitadas, ou seja, tais recursos são finitos. E não se trata de uma projeção
remota. Basta conscientizar-se da seguinte perspectiva: se todos os 7,5 bilhões
de habitantes da Terra tivessem o mesmo padrão de vida da população dos Estados
Unidos haveria necessidade de quatro planetas como a Terra para suprir os
necessários recursos naturais. Portanto, uma igualdade econômica da população
mundial nesse patamar econômico é simplesmente impossível. Consequentemente, o
aumento do PIB tem limites, e se cada país dependesse apenas de seus próprios
recursos, muitos países nem teriam chegado à riqueza que hoje ostentam. O
esgotamento de recurso naturais atingirá, mais cedo o mais tarde, a todos indistintamente.
Por outro lado, o consumismo em
plena expansão ao longo das últimas sete décadas, continua sendo estimulada pelos
agentes econômicos, mas também pelas políticas governamentais, a manter e,
inclusive, intensificar esse comportamento. Se a afirmação de que a riqueza impulsiona
o consumo é verdadeira, a riqueza não necessariamente, nem sempre e não para
todos é gerada através consumo. Obviamente, o fabricante e o intermediador até
o consumidor final ganham com os bens e serviços de consumo produzidos e oferecidos.
Na outra ponta porém, não encontramos tal equidade de efeitos. O consumo de um
automóvel pode contribuir para a constituição de riquezas pela agilidade,
capacidade de transporte, ganho de tempo, racionalização de movimentos etc.;
uma geladeira costuma permitir um consumo mais econômico de alimentos e a
redução de desperdícios. Já um telefone celular, trocado a cada ano, seja por
obsolescência, seja porque sua durabilidade de vida é pretensamente limitado,
gera riqueza para o fabricante e o distribuídos, enquanto o consumidor/usuário
gasta seus recursos comprando consecutivamente 5, 6 ou 10 aparelhos para sempre
possuir apenas um.
Esta mesma situação observamos com
praticamente todos os bens de consumo de curta durabilidade, baixa qualidade, sujeitos
a ditames da moda, ou com características similares. Pior ainda, quando a
compra for feito à crédito. Além disso, quanto menor a durabilidade de vida,
pior a qualidade e mais frequentes os ciclos da moda, maior o desperdício que
se acumula nos lixões ao redor do mundo, hoje, mais de 20% de tudo que
produzimos (40% dos alimentos). E exatamente aqui encontramos a atuação econômica
do segmento populacional de menos recursos, que no entanto, se vê cada vez mais
forçado a integrar-se no moderno padrão de vida, p. ex., no mundo digital com
os decorrentes custos. (A necessidade do ensino remoto ou a distância durante a
pandemia do covid-19 deixou essa imposição muito clara).
Resulta daí uma verdadeira armadilha de
consumo para quem tem menos condições para tal. Hoje, fogão a gás,
refrigerador, TV e telefone celular perfazem o conforto mínimo do brasileiro em
contraste com a progressiva capacidade de consumo dos mais abastados, do que
resulta uma crescente desigualdade econômica.
Crescimento econômico, consumismo e
desigualdade são aspectos onipresentes e preocupantes da economia moderna. Eles
não nasceram de um pecado original, mas desenvolveram-se na sombra do desenvolvimento
recente da humanidade: o crescimento econômico em consonância com os avanços tecnológicos,
o consumismo, na esteira da produção em massa, e a desigualdade, da
incapacidade das classes mais pobres em acompanhar a velocidade cada vez maior de
geração de novas riquezas. Confrontando e conjugando a atual realidade desses
três tópicos, somos obrigados a concluir que nos encontramos numa rota de
progressiva irracionalidade. Falta saber a que grau de toleima e inconsequência
precisamos chegar para enveredar por um outro modelo econômico.
O bem-estar com comedimento é possível a partir
do momento em que a consciência coletiva perceber e compreender a fatalidade da
situação e a racionalidade e inevitabilidade no seu enfrentamento (como
entendeu a lógica e coerência do uso de máscaras de proteção e manutenção de
distância física diante do amedrontamento pela pandemia de covid-19).
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