sábado, 30 de maio de 2020

Crescimento Econômico, Consumismo e Desigualdade



Economia de Crescimento, Consumismo e Desigualdade

Klaus H. G. Rehfeldt

Na economia moderna, o objetivo central daqueles que definem o destino de uma nação e conduzem as operações que levam a tal destino visam primordialmente um crescimento possivelmente significativo do Produto Interno Bruto (PIB). Esta elevação traduz-se em enriquecimento da sociedade na medida em que for maior que o aumento populacional. Depois de mais de meio século de aceitação inconteste surgem mais recentemente alertas e reservas contra essa premissa.
A principal contestação reside no fato de que a expansão do PIB tem como condição indispensável o aumento do uso e aplicação de recursos naturais que provêm exclusivamente de um planeta de dimensões limitadas, ou seja, tais recursos são finitos. E não se trata de uma projeção remota. Basta conscientizar-se da seguinte perspectiva: se todos os 7,5 bilhões de habitantes da Terra tivessem o mesmo padrão de vida da população dos Estados Unidos haveria necessidade de quatro planetas como a Terra para suprir os necessários recursos naturais. Portanto, uma igualdade econômica da população mundial nesse patamar econômico é simplesmente impossível. Consequentemente, o aumento do PIB tem limites, e se cada país dependesse apenas de seus próprios recursos, muitos países nem teriam chegado à riqueza que hoje ostentam. O esgotamento de recurso naturais atingirá, mais cedo o mais tarde, a todos indistintamente.
Por outro lado, o consumismo em plena expansão ao longo das últimas sete décadas, continua sendo estimulada pelos agentes econômicos, mas também pelas políticas governamentais, a manter e, inclusive, intensificar esse comportamento. Se a afirmação de que a riqueza impulsiona o consumo é verdadeira, a riqueza não necessariamente, nem sempre e não para todos é gerada através consumo. Obviamente, o fabricante e o intermediador até o consumidor final ganham com os bens e serviços de consumo produzidos e oferecidos. Na outra ponta porém, não encontramos tal equidade de efeitos. O consumo de um automóvel pode contribuir para a constituição de riquezas pela agilidade, capacidade de transporte, ganho de tempo, racionalização de movimentos etc.; uma geladeira costuma permitir um consumo mais econômico de alimentos e a redução de desperdícios. Já um telefone celular, trocado a cada ano, seja por obsolescência, seja porque sua durabilidade de vida é pretensamente limitado, gera riqueza para o fabricante e o distribuídos, enquanto o consumidor/usuário gasta seus recursos comprando consecutivamente 5, 6 ou 10 aparelhos para sempre possuir apenas um.
Esta mesma situação observamos com praticamente todos os bens de consumo de curta durabilidade, baixa qualidade, sujeitos a ditames da moda, ou com características similares. Pior ainda, quando a compra for feito à crédito. Além disso, quanto menor a durabilidade de vida, pior a qualidade e mais frequentes os ciclos da moda, maior o desperdício que se acumula nos lixões ao redor do mundo, hoje, mais de 20% de tudo que produzimos (40% dos alimentos). E exatamente aqui encontramos a atuação econômica do segmento populacional de menos recursos, que no entanto, se vê cada vez mais forçado a integrar-se no moderno padrão de vida, p. ex., no mundo digital com os decorrentes custos. (A necessidade do ensino remoto ou a distância durante a pandemia do covid-19 deixou essa imposição muito clara).
Resulta daí uma verdadeira armadilha de consumo para quem tem menos condições para tal. Hoje, fogão a gás, refrigerador, TV e telefone celular perfazem o conforto mínimo do brasileiro em contraste com a progressiva capacidade de consumo dos mais abastados, do que resulta uma crescente desigualdade econômica.
Crescimento econômico, consumismo e desigualdade são aspectos onipresentes e preocupantes da economia moderna. Eles não nasceram de um pecado original, mas desenvolveram-se na sombra do desenvolvimento recente da humanidade: o crescimento econômico em consonância com os avanços tecnológicos, o consumismo, na esteira da produção em massa, e a desigualdade, da incapacidade das classes mais pobres em acompanhar a velocidade cada vez maior de geração de novas riquezas. Confrontando e conjugando a atual realidade desses três tópicos, somos obrigados a concluir que nos encontramos numa rota de progressiva irracionalidade. Falta saber a que grau de toleima e inconsequência precisamos chegar para enveredar por um outro modelo econômico.
O bem-estar com comedimento é possível a partir do momento em que a consciência coletiva perceber e compreender a fatalidade da situação e a racionalidade e inevitabilidade no seu enfrentamento (como entendeu a lógica e coerência do uso de máscaras de proteção e manutenção de distância física diante do amedrontamento pela pandemia de covid-19).       


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