O Homem de Cristal*)
,
Klaus H. G.
Rehfeldt
Se compararmos a evolução do homem com seus semelhantes no mundo dos
antropoides ao longo dos últimos milênios somos obrigados a reconhecer um
imenso avanço qualitativo e quantitativo do homem contra respectivas estagnação
e diminuição dos antropoides. A espécie homem nunca possuiu defesas próprias
contra agentes da natureza como predadores ou efeitos climáticos.
Sempre houve doenças que, porém, pelo
desconhecimento das causas, eram atribuídas a forças místicas e, assim, eram
prevenidas e combatidas com forças místicas. Tem se, inclusive, conhecimento da
ocorrência de epidemias em civilizações antigas, como a ‘epidemia dos hititas’
no século XIV A.C. que praticamente extinguiu esse povo.
Entretanto, um fator decisivo para a
manutenção e expansão da espécie homo foi, sem dúvida, o aprimoramento de habilidades
que lhe protegessem contra ameaças e adversidades na forma de abrigos mais
resistentes, armas – e a identificação de plantas medicinais. Ervas, raízes,
mas também minerais tornaram-se conhecidos na prevenção e cura das mais
diversas enfermidades. Diferentes civilizações em diferentes realidades
geográficas e biomas desenvolveram esses conhecimentos no curso da evolução da
humanidade. Até hoje, povos indígenas usufruem essa sapiência.
Do tratamento de doenças com pós,
gotas e infusões emergiu no século XIX a farmacologia moderna e que até os
nossos dias avança num contínuo processo de aperfeiçoamento ao ponto de hoje
dispormos de medicação específica e altamente sofisticada, seja na prevenção,
seja na cura, e tanto para patologias genéticas, quanto adquiridas.
Além de, assim, garantir uma boa
saúde para toda a população, os recursos farmacológicos têm contribuído para um
substancial aumento da expectativa de vida ao redor do mundo. Recursos
sanitárias e medicinais justificam a esperança por um bem estar físico e mental
e uma vida possivelmente longa.
Não existe, porém, a vantagem
absoluta. Há um reverso da moeda. Tendemos a esquecer a partir de nossa
situação de conforto que a base desse tranquilidade é bastante frágil, especialmente
quando a disponibilidade de inúmeros agentes fármaco-químicos depende de
acordos comerciais internacionais, transportes de milhares de quilômetros e
complexas cadeias de produção e suprimento.
Ao mesmo tempo, no decorrer dos
últimos três séculos, o homem urbano moderno tornou-se inviável em condição
autônoma (inviável no verdadeiro sentido da palavras de incapaz de sobreviver).
Robinson Crusoé já foi um fenômeno na época de sua criação. Em outras palavras,
salvo, talvez, alguns ex-escoteiros ou militares treinados em sobrevivência, nenhum
cidadão criado e crescido em ambiente urbano sobreviveria por muitos dias na
ausência de um supermercado próximo, de falta de energia elétrica ou um meio de
transporte, ou, pior, da disponibilidade de uma rede de água – e de seus
remédios.
Há, portanto, uma conexão direta
entre padrão de vida e fragilidade sanitária e existencial do moderno ser
humano sem que ele tenha necessariamente consciência dessa realidade. Muito
menos, esta consciência parece existir sobre a evolução desta vulnerabilidade.
Esta projeção, no entanto, e real e inexorável. O cristal da nossa constituição
continua sendo afinado e lapidado com mais esmero, tornando-o mais quebrável a
cada avanço tecnológico. Não conseguimos mais viver sem o suporte de
tecnologias – somos seus donos e seus escravos.
*) No sentido de material frágil e quebrável, sem relação com conceito da
‘geração cristal’.
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