terça-feira, 19 de maio de 2020

O Homem de Cristal



O Homem de Cristal*)
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Klaus H. G. Rehfeldt

Se compararmos a evolução do homem com seus semelhantes no mundo dos antropoides ao longo dos últimos milênios somos obrigados a reconhecer um imenso avanço qualitativo e quantitativo do homem contra respectivas estagnação e diminuição dos antropoides. A espécie homem nunca possuiu defesas próprias contra agentes da natureza como predadores ou efeitos climáticos.
Sempre houve doenças que, porém, pelo desconhecimento das causas, eram atribuídas a forças místicas e, assim, eram prevenidas e combatidas com forças místicas. Tem se, inclusive, conhecimento da ocorrência de epidemias em civilizações antigas, como a ‘epidemia dos hititas’ no século XIV A.C. que praticamente extinguiu esse povo.    
Entretanto, um fator decisivo para a manutenção e expansão da espécie homo foi, sem dúvida, o aprimoramento de habilidades que lhe protegessem contra ameaças e adversidades na forma de abrigos mais resistentes, armas – e a identificação de plantas medicinais. Ervas, raízes, mas também minerais tornaram-se conhecidos na prevenção e cura das mais diversas enfermidades. Diferentes civilizações em diferentes realidades geográficas e biomas desenvolveram esses conhecimentos no curso da evolução da humanidade. Até hoje, povos indígenas usufruem essa sapiência.
Do tratamento de doenças com pós, gotas e infusões emergiu no século XIX a farmacologia moderna e que até os nossos dias avança num contínuo processo de aperfeiçoamento ao ponto de hoje dispormos de medicação específica e altamente sofisticada, seja na prevenção, seja na cura, e tanto para patologias genéticas, quanto adquiridas.
Além de, assim, garantir uma boa saúde para toda a população, os recursos farmacológicos têm contribuído para um substancial aumento da expectativa de vida ao redor do mundo. Recursos sanitárias e medicinais justificam a esperança por um bem estar físico e mental e uma vida possivelmente longa.
Não existe, porém, a vantagem absoluta. Há um reverso da moeda. Tendemos a esquecer a partir de nossa situação de conforto que a base desse tranquilidade é bastante frágil, especialmente quando a disponibilidade de inúmeros agentes fármaco-químicos depende de acordos comerciais internacionais, transportes de milhares de quilômetros e complexas cadeias de produção e suprimento.
Ao mesmo tempo, no decorrer dos últimos três séculos, o homem urbano moderno tornou-se inviável em condição autônoma (inviável no verdadeiro sentido da palavras de incapaz de sobreviver). Robinson Crusoé já foi um fenômeno na época de sua criação. Em outras palavras, salvo, talvez, alguns ex-escoteiros ou militares treinados em sobrevivência, nenhum cidadão criado e crescido em ambiente urbano sobreviveria por muitos dias na ausência de um supermercado próximo, de falta de energia elétrica ou um meio de transporte, ou, pior, da disponibilidade de uma rede de água – e de seus remédios.
Há, portanto, uma conexão direta entre padrão de vida e fragilidade sanitária e existencial do moderno ser humano sem que ele tenha necessariamente consciência dessa realidade. Muito menos, esta consciência parece existir sobre a evolução desta vulnerabilidade. Esta projeção, no entanto, e real e inexorável. O cristal da nossa constituição continua sendo afinado e lapidado com mais esmero, tornando-o mais quebrável a cada avanço tecnológico. Não conseguimos mais viver sem o suporte de tecnologias – somos seus donos e seus escravos.    

*) No sentido de material frágil e quebrável, sem relação com conceito da ‘geração cristal’.

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