Covid-19 – Responsabilidade Coletiva
‘Covid-19 – Collective Accountability’ - This text was written in a way to ease comprehensive
electronic translations.)
Klaus H. G. Rehfeldt
Ao
longo de muitos anos de atuação na prevenção de dependências químicas escutei
muitas vezes em resposta à abordagens réplicas como “a vida é minha, faço com
ela o que eu quiser”, “a droga é minha e ninguém tem nada a ver com isso”.
Lamentavelmente, percebe-se hoje com frequência uma atitude semelhante com
respeito à adoção de medidas protetivas, como máscaras e distanciamento físico,
diante da pandemia da covid-19.
Quando tal atitude não reflete simples
ignorância deixa claro um forte sentimento de egoísmo, ou total ausência de
espirito coletivo. Ignorância, ou mera falta de discernimento, do fato de que
cada cidadão é parte de uma sociedade intradependente em função da integração
social, econômica e política de todos os seus membros. É uma permanente troca entre
a geração de bens e seu usufruto.
O início da vida, a infância e a adolescência
de cada um representam um elevado ônus para a coletividade, que começa no
pré-natal e na maternidade e se estende por toda a fase de educação e formação
profissional, sempre em presença da garantia de subsistência, segurança e
saúde. Esse ônus, como também aquele gerado pela população idosa, é compensado
pela produção auferida pelo segmento economicamente ativo da população.
Em outras palavras, o trabalho não reverte
apenas em benefício do trabalhador, mas, através das suas contribuições
tributárias e da utilidade rendida à coletividade, garante o desenvolvimento e o
sustento das parcelas populacionais não produtivas. Este é o pacto
socioeconômico sem o qual uma sociedades não persiste.
A longa tradição de vivência deste pacto,
como o observamos, por exemplo, nas nações europeias e forjada em históricas
adversidades (guerras, epidemias, catástrofes naturais) tem favorecido o
surgimento e a consolidação de um espírito coletivo muito presente, mas mais
difícil de encontrar em nas nações mais jovens e com história sem maiores
convulsões.
Traduzindo estas considerações para a atual
situação epidêmica conclui-se que a deliberada desobediência às orientações ou instruções
sobre como contribuir para o estancamento da propagação viral não constitui
apenas um risco pessoal, mas representa uma absoluta falta de responsabilidade
pela coletividade, seja pela possível contaminação de outras pessoas, seja pelo
desrespeito do ônus que a sociedade já rendeu para sua existência desse
indivíduo inconsequente.
Desconsiderando lucubrações conspiratórias
nas mais diversas direções, é preciso convencer-se de que nos encontramos numa
calamidade, num desequilíbrio da natureza, favorecido pela crescente densidade
de contatos físicos no nosso cotidiano social. Não sendo eremitas, tornamo-nos
agentes de contágio e sujeitos a ser contaminados.
Uma situação dessa ordem evidencia o
descabimento de quaisquer egocentrismos, estrelismos ou divisionismos
espetaculosos, ou de sapiências infundadas. Ela projeta para o centro da
questão a necessidade de solidariedade, de compaixão e, acima de tudo, o
espírito altruísta e protetor da saúde própria e alheia. Que este momento seja
o da percepção que nada somos fora da sociedade e do amadurecimento da índole
coletiva.
Solidariedade e responsabilidade coletiva
significam abrir mão de algumas vantagens ou privilégios pessoais a bem das
necessidades e do bem-estar se outrem. Por outro lado, o egoísmo em momento de
crise acaba em perdas e prejuízo para o autocentrado.
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