Uma Catástrofe Natural
(‘A Natural Catastrophe’ - This
text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)
Klaus H. G. Rehfeldt
Embora
tivesse havido alguma relutância inicia, existe hoje consenso de que no caso da
pandemia Covid-19 não se trata de uma simples surto que permita compromissos em
prejuízo de medidas sanitárias radicais e consequentes, mas de umas catástrofe
natural a ser enfrentada com todo rigor..
O que tem dificultado a compreensão da
gravidade da situação, seja por parte das autoridades governamentais, seja pela
própria população em risco, são particularidades da atual calamidade,
diferentes daquilo que conhecemos como catástrofe. Tsunamis, erupções
vulcânicas ou excessos climáticos. Tais fenômenos costumam ter delimitações
geográficas e temporais com impactos maciços sobre as áreas atingidas e com
duração relativamente curta, e com perdas trágicas em vidas e valores. São
milhares, dezenas de milhares de vidas perdidas e destruições quase instantâneas,
mas sem o efeito de uma propagação territorial e de número de óbitos. Na época
da comunicação digital, episódios dessa natureza ganham visibilidade imediata e
dramática.
A catástrofe do coronavírus é diferente. Ela
apresenta-se inicialmente de forma concentrada e bem delimitada. Não demorou,
contudo, sua expansão territorial, não avançando de país em país como os
exércitos mongóis de Genghis Khan, mas seguindo as modernas rotas aéreas
intercontinentais. Resultou daí em curto prazo o surgimento da doença em
inúmeros lugares pontuais ao redor do planeta. A epidemia evoluiu para uma
pandemia, especialmente nos centros urbanos.
Nessa expansão difusa reside um dos motivos da
relativa indiferença da população e de alguns governos, numa relação dialética,
diante da catástrofe. Mas também a incredulidade quanto à sua gravidade e aos
enfrentamentos necessários devido à diversidade de discursos encontra suporte
em diversos fenômenos presentes no ambiente social. São teorias de conspiração
que geram insegurança, é a indiferença diante da desgraça do outro e a
banalização do sofrimento e da morte, que começa nos games e chega à rua em frente de casa. É a atitude do capitão de
navio em perigo que se preocupa mais com a carga do que com a vida dos
passageiros, ou o difundido descrédito a mídia profissional, mais também é a
simples falta de civilidade.
Há até hoje no mundo quase 10 milhões de
pessoas contaminadas e perto dos 500 mil óbitos (no Brasil, perto de 1,3 milhão
e 56 mil, respectivamente) e a garantia para a subsistência e expansão do vírus
são sempre novas pessoas vulneráveis (ainda não imunes). Encontramo-nos numa
evolução pandêmica sem fim previsível. Por uma lado falta uma medicação
específica e eficaz, por outro, a solução definitiva reside na ansiosamente
aguardada descoberta de uma vacina eficiente, mas cabe lembrar que ainda não
temos vacinas contra o HIV e a dengue depois de décadas de pesquisa.
A história nos ensina que o menosprezo a
riscos e perigos reais só tem agravado os problemas. Teoricamente, a identificação
no surgimento dos primeiros casos com as devidas medidas de isolamento poderia
ter extinto a propagação do vírus na origem. Na prática, ele prosperou devido
ao despreparo – perfeitamente justificável por se tratar de vírus desconhecido
– das autoridades sanitárias. A conjugação desses dois fatos autoriza uma
conclusão: quanto mais rigor na aplicação dos (lamentavelmente, poucos)
recursos disponíveis, melhores as chances de refrear o avanço da pandemia.
Diante da amplitude do fenômeno cabe às
competentes autoridades governamentais assumir o comando sobre o controle e as
medidas de enfrentamento do próprio problema e das consequências. O êxito
dessas medidas, porém, está nas mãos, melhor, na cabeça, de cada cidadão,
agindo e se comportando de maneira sensata, responsável e cívica na proteção da
própria integridade física e em defesa da saúde alheia. A catástrofe expande-se
de pessoa em pessoa, não de decreto em decreto. Cada um pode, por leviandade ou
descuido próprio, ou de outrem, levar a qualquer momento o vírus para dentro de
sua família ou círculo de amigos.
Nunca vivemos tão densamente concentrados.
Isso suscita um corolário: nunca foi tão importante pensar e agir tão coletiva
e solidariamente, com tanto respeito pelo próximo. Não há catástrofe sem
perdas. Mas, quantas perdas, depende do grau de responsabilidade civil e social
de cada um – depende da minha máscara e da minha distância aos outros.
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