No Início Está
a Maçã?
(“Does It Start with the Apple?” - This text was written
in a way to ease comprehensive electronic translations)
Klaus H. H. Rehfeldt
Durante centenas de milhares de
anos, nossos antepassados viviam simples e diretamente na natureza. Extraiam
dela o necessário para sua subsistência elementar, sem excessos, sem
desperdícios, num continuo processo de trocas e renovação. E no fim da vida
retornavam à natureza. Frutas e animais eram captados em seus habitats e sem
qualquer interferência no equilíbrio ambiental.
Não
sabemos com clareza qual foi o fator ou evento que iniciou a distinção do homem
primitivo de outros gêneros homo e do restante da fauna – talvez uma melhor
comunicação através da fala. Existe, no entanto, um momento de ruptura, da vida
na natureza para aquela da natureza com a transformação de
recursos naturais em outros artificiais. Terá esse sido o momento da bíblica
expulsão do homem do paraíso? E da consequente busca de amenizar as agruras da
preservação da existência?
Essa
transformação consiste em criar um produto a partir do trabalho em materiais
naturais, do processamento ou a combinação desses recursos. É o que se chama de
criação de massa antropogênica. Tudo indica que a madeira tenha sido o primeiro
material natural usado na fabricação de ferramentas e armas, seguida pelos
tecidos e o barro na transformação de biomassa em material antropogênico na
forma de tijolos ou vasilhames. Seguiram-se a mineração, as edificações, mas
também os utensílios e artefatos em contínuo aperfeiçoamento e número
crescente.
Ao
longo dos séculos, a massa antropogênica em diversidades e quantidade como
estradas, pontes, tornos e bigornas, carroças, navios e muito mais, tudo a partir
de tudo que podia servir como matéria prima. No período das navegações
ibéricas, por exemplo, a grande maioria das florestas portuguesas foi
transformada em caravelas. As cidades cresciam, móveis e utensílios sofreram
constante refinamento, as guerras frequentes clamavam por armas e defesas, a fé
exigia a construção de templos cada vez maiores e mais opulentos, e burgos,
castelos e mosteiros multiplicaram-se e ficavam mais requintados. Tudo às
custas de substâncias orgânicas ou anorgânicas do nosso planeta.
Chegou
a revolução industrial. Matérias primas de toda ordem e origem são exploradas
para produtos finais, incluindo seus processos de refino, transformação e
fabricação. Ao lado disso, toda uma infraestrutura surge para garantir o
suprimento de energia e os fluxos de bens e pessoas. Em fins do
século XIX, só na Europa Central já havia uma rede de ferrovias de cerca de 150
mil quilômetros, significando 27 milhões de m3, ou 21 milhões
de toneladas de dormentes – de biomassa.
Carvão, minerais ferrosos e não
ferrosos, petróleo, madeira, calcário e muito mais é subtraído a cada momento e
ano após ano da nossa biomassa e geomassa com o destino de se constituir em
massa antropológica na forma natural ou beneficiada física ou quimicamente.
O crescimento populacional exponencial nos
últimos 100 anos acelerou esse processo de transformação de biomassa e geomassa
em material antropogênico. Segundo pesquisadores do Weizmann Institute of
Science em Israel, somente a massa de todos os plásticos sobre a Terra é maior
que a massa de todos os animais terrestres e marítimos. Os mesmos pesquisadores
concluíram que desde 1900 a massa antropogênica dobrou a cada 20 anos. Era de
cerca de 3% naquela época e poderá estar ultrapassando atualmente aos 100%, na
quantidade de mais de 30 giga-toneladas por ano. Isso significa que por semana produz-se
massa antropogênica com peso igual ao de toda a humanidade.
Por outro lado, a imensa perda de
biomassa de duas terá-toneladas em 1900 para uma terá-tonada atual contribui para
tal igualdade assustadora. Por exemplo, a vegetação cultivada e não perene de milhões
de hectares de monoculturas substituiu a vegetação original, muitas vezes
abundante – não raro através de desmatamentos.
Uma projeção dos mencionados
pesquisadores afirma que na continuação da atual tendência, a massa antropogênica
poderá ser três vezes maior que a biomassa por volta de 2040. Encontramo-nos
definitivamente no antropoceno, uma nova era do nosso planeta, em que a
humanidade é e força formativa. Com que futuro, está escrito nas estrelas.
Virtualmente?
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