segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

No Início Está a Maçã?

 

No Início Está a Maçã?

 

(“Does It Start with the Apple?” - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. H. Rehfeldt

 

Durante centenas de milhares de anos, nossos antepassados viviam simples e diretamente na natureza. Extraiam dela o necessário para sua subsistência elementar, sem excessos, sem desperdícios, num continuo processo de trocas e renovação. E no fim da vida retornavam à natureza. Frutas e animais eram captados em seus habitats e sem qualquer interferência no equilíbrio ambiental.

Não sabemos com clareza qual foi o fator ou evento que iniciou a distinção do homem primitivo de outros gêneros homo e do restante da fauna – talvez uma melhor comunicação através da fala. Existe, no entanto, um momento de ruptura, da vida na natureza para aquela da natureza com a transformação de recursos naturais em outros artificiais. Terá esse sido o momento da bíblica expulsão do homem do paraíso? E da consequente busca de amenizar as agruras da preservação da existência?

Essa transformação consiste em criar um produto a partir do trabalho em materiais naturais, do processamento ou a combinação desses recursos. É o que se chama de criação de massa antropogênica. Tudo indica que a madeira tenha sido o primeiro material natural usado na fabricação de ferramentas e armas, seguida pelos tecidos e o barro na transformação de biomassa em material antropogênico na forma de tijolos ou vasilhames. Seguiram-se a mineração, as edificações, mas também os utensílios e artefatos em contínuo aperfeiçoamento e número crescente.

Ao longo dos séculos, a massa antropogênica em diversidades e quantidade como estradas, pontes, tornos e bigornas, carroças, navios e muito mais, tudo a partir de tudo que podia servir como matéria prima. No período das navegações ibéricas, por exemplo, a grande maioria das florestas portuguesas foi transformada em caravelas. As cidades cresciam, móveis e utensílios sofreram constante refinamento, as guerras frequentes clamavam por armas e defesas, a fé exigia a construção de templos cada vez maiores e mais opulentos, e burgos, castelos e mosteiros multiplicaram-se e ficavam mais requintados. Tudo às custas de substâncias orgânicas ou anorgânicas do nosso planeta.

Chegou a revolução industrial. Matérias primas de toda ordem e origem são exploradas para produtos finais, incluindo seus processos de refino, transformação e fabricação. Ao lado disso, toda uma infraestrutura surge para garantir o suprimento de energia e os fluxos de bens e pessoas. Em fins do século XIX, só na Europa Central já havia uma rede de ferrovias de cerca de 150 mil quilômetros, significando 27 milhões de m3, ou 21 milhões de toneladas de dormentes – de biomassa.

Carvão, minerais ferrosos e não ferrosos, petróleo, madeira, calcário e muito mais é subtraído a cada momento e ano após ano da nossa biomassa e geomassa com o destino de se constituir em massa antropológica na forma natural ou beneficiada física ou quimicamente.

 O crescimento populacional exponencial nos últimos 100 anos acelerou esse processo de transformação de biomassa e geomassa em material antropogênico. Segundo pesquisadores do Weizmann Institute of Science em Israel, somente a massa de todos os plásticos sobre a Terra é maior que a massa de todos os animais terrestres e marítimos. Os mesmos pesquisadores concluíram que desde 1900 a massa antropogênica dobrou a cada 20 anos. Era de cerca de 3% naquela época e poderá estar ultrapassando atualmente aos 100%, na quantidade de mais de 30 giga-toneladas por ano. Isso significa que por semana produz-se massa antropogênica com peso igual ao de toda a humanidade.

Por outro lado, a imensa perda de biomassa de duas terá-toneladas em 1900 para uma terá-tonada atual contribui para tal igualdade assustadora. Por exemplo, a vegetação cultivada e não perene de milhões de hectares de monoculturas substituiu a vegetação original, muitas vezes abundante – não raro através de desmatamentos.

Uma projeção dos mencionados pesquisadores afirma que na continuação da atual tendência, a massa antropogênica poderá ser três vezes maior que a biomassa por volta de 2040. Encontramo-nos definitivamente no antropoceno, uma nova era do nosso planeta, em que a humanidade é e força formativa. Com que futuro, está escrito nas estrelas. Virtualmente?   

 


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