quinta-feira, 24 de junho de 2021
O Entrave da Bipolarização
O Entrave da Bipolaridade.
Klaus H. G. Rehfeldt
Quando
oportunamente me manifesto nas redes sociais, apontando distorções ou
incorreções de cunho político, às vezes parecendo intencionais em favor do
governo – auto-identificado como de direita –, a resposta imediata e infalível
é categorizar-me como esquerdista. (Cabe esclarecer que, muito cedo na minha
vida, fui imunizado primeiramente contra uma direita radical e logo em seguida
contra uma extrema esquerda. Estou curado!)
A humanidade é formada atualmente por cerca de 7,5 bilhões de
pessoas. São, assim, o mesmo número de cérebros que recebem informações que
resultam em 7,5 bilhões de combinações entre impressões, sensações, compreensões
e interpretações.
Por outro lado, o mundo atual é, grosso modo – muito grosso modo
–, dividido politicamente em dois ideários fundamentais: direita e esquerda,
ambas em múltiplas variantes. Aliás, tal divisão política-ideológica tem sua origem
na assembleia nacional que se seguiu à Revolução Francesa de 1789, separando fisicamente
os defensores de novas ideias sociais e os conservadores monarquistas.
Chega a ser insana a ideia de que uma população mundial, ou
mesmo dezenas ou centenas de milhões de habitantes de um pais, dividam-se em
apenas duas concepções ou convicções políticas. No entanto, essa impressão é
fortalecida nas democracias bipartires, ou nos regimes presidencialistas com eleições
decisivas em segundo turno, quando o cidadão fica sujeito ao cabresto da opção
entre os lados mais ‘conservador’ e ‘progressista’, ou seja, direita e
esquerda, seja qual for o grau. Inapropriadamente, os resultados, que
ultimamente giram muito próximo do meio a meio, acabem sendo interpretados como
realidade ideológica de uma nação.
Esta situação leva a esquecer, até ignorar, que existe um
expressivo segmento da população ocupando uma ampla faixa central do espectro
ideológico, talvez até maior que a soma das pontas mais definidas. É verdade,
que tal contingente também abriga o universo de pessoas mais ou menos
apolíticas e que só vão as urnas em países com voto obrigatório.
Um fator adicional para a sensação de que que só haja ‘direita’
e ‘esquerda’ é a intensidade em frequência e volume com que essas facções se
manifestam em público numa presença de impacto. Essa visibilidade decorre em
boa parte da forma hostil como se enxergam mutuamente e da consequente postura
combativa, muitas vezes transgredindo os princípios democráticos.
Esses aspectos somam-se para um quadro de certa inexpressividade
das agremiações políticas de centro. Um centro quase invisível, imperceptível. Mas
ele aparece nos escrutínios de primeiro turno, especialmente nos obrigatórias. Aqui
se encontra a grande massa de cidadãos – e eleitores – que não defende qualquer
ideologia e que preferivelmente vota em pessoas, não em ideias políticas. É a
população sem causa coletiva. Isso dificulta sua aglutinação como poder central,
pois esse cidadão vota em busca da satisfação de suas necessidades e espirações
individuais. Somente quando tais causas individuais se fundem e consolidam em
causa comum, esse segmento começa a se manifestar coletivamente – modernamente,
indo para a rua (assustando a classe política).
Isso suscita uma questão. Entre claramente definidos e obscuros
existem não apenas dois campos políticos – direita e esquerda, mas três quando
valorizamos devidamente os não-direita, nem não-esquerda. Por outro lado, para
os cargos dos executivos, as eleições de segundo turno contemplam apenas os
dois candidatos mais votados, teoricamente eliminando a priori uma das três
forças eleitorais. Em países de voto facultativo, o eleitor que não encontra
candidato de seu agrado, abstém-se de votar; onde, no entanto, o voto é
obrigatório, um grande contingente de pessoas é obrigado a votar, não sem frustração,
no candidato que menos lhe desagrada. Porque, portando, nas eleições decisivas
não concorrem os três candidatos mais voltados no primeiro turno? Ganha quem
obtiver mais votos, mesmo sem maioria absoluta. Sem ônus, um imenso bônus.
Além de o resultado espelhar melhor as vontades políticas do
povo, seria uma forma de diluir a cada vez mais acentuada bipolarização da
população em ‘nós’ e ‘eles’ para um espectro mais amplo de ‘nós’, ‘eles’ e os
‘outros’.
Alguma objeção?
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário