domingo, 4 de julho de 2021

A Imunidade de Rebanho

A Imunidade de Rebanho

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Todas as grandes epidemias e pandemias na história terminaram sem extinguir as sociedades atingidas ou a humanidade, apesar dos diferentes, às vezes elevadíssimos graus de letalidade. E isso, até os tempos modernos, sem a disponibilidade de medicação eficaz e sem vacinas. A explicação para esse desfecho é a chamada imunidade de rebanho, que consiste na hipótese de que basta uma determinada parte da população ter desenvolvido anticorpos, o processo de contaminação é interrompido. As estimativas para a grandeza desse contingente populacional oscilam entre 60% e 70%.            

Com o aparecimento do coronavírus covid-19 voltou à memória, entre outras, a pandemia da Gripe Espanhola (que na verdade era americana) que, também na ausência de vacinas e medicamentos específicos, terminou antes de completar 3 anos, deixando o triste resultado estimado entre 27 e 50 milhões de óbitos. Não existem dados confiáveis sobre o número de pessoas infectadas. O que, no entanto, se sabe é que a gripe espanhola terminou como as epidemias anteriores – se auto-extinguindo por falta de pessoas imunizadas, portanto, infectáveis.

Nos momentos iniciais do surgimento do covid-19, na ausência de informações sobre a própria doença e de recursos medicinais para sua prevenção e sua terapia, era óbvio ver e considerar a imunidade de rebanho como solução e desfecho. Países como a Suécia, os Estados Unidos e o Brasil, entre outros, desenvolveram estratégias nessa linha. Embora a vacina contra a gripe N1H1 tivesses sido desenvolvida em 2009 no prazo de 9 meses, havia naquele momento apenas a certeza de que vários laboratórios ao redor do mundo estavam trabalhando na obtenção de imunizantes.

O milagre dos 9 meses para o desenvolvimento de uma vacina se repetiu, contando a partir da irrupção do vírus na China. No caso brasileiro, 6 meses depois do primeiro caso registrado, ou seja, em começo de setembro 2020, 4 milhões de pessoas já tinham sido infectadas e contavam-se 124 mil óbitos. De posse desses dados, para chegar a uma taxa de 60% de infectados, ou seja, 120 milhões de pessoas, tinha-se de contar com a perspectiva de quase 1,9 milhão de óbitos antes de atingir a imunidade de rebanho. Quase 1% da população feito “boi de piranha”? Portanto, apostar na estratégia da imunidade de rebanho revelou-se, no mínimo, incauto ou temerário, e indefensável na disponibilidade de vacina.

Talvez tenha sido um equívoco escolher a Suécia como modela se consideramos que sua população (10,2 milhões) é menor que a população favelada do Brasil (11,4 milhões) com altos riscos de contaminação, o que se prova quando se compara a mortalidade total sueca de 143,4/100 mil habitantes com a brasileira de 249,2/100 mil.

Ao longo da vacinação em curso ocorre uma gradual mudança de efeitos. Em sua fase inicial, a vacinação da população idosa tinha como resultado a proteção quase que individual dos vacinados tipicamente com pouca interação física com outras pessoas. No entanto, o programa atingindo faixas etária ao redor de meia vida, envolvendo pessoas presentes e atuando ativamente em seus campos profissional, social e cultural, um número cada vez maior de indivíduos age como bloqueio de transmissão nos relacionamentos físicos cotidianos. Nesse estágio, sim, podemos contar com uma crescentemente consequente imunização de rebanho.

Que sirva de lição para a próxima.      

  

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