A Imunidade de Rebanho
Klaus H. G. Rehfeldt
Todas as grandes epidemias e pandemias na história terminaram sem extinguir
as sociedades atingidas ou a humanidade, apesar dos diferentes, às vezes
elevadíssimos graus de letalidade. E isso, até os tempos modernos, sem a
disponibilidade de medicação eficaz e sem vacinas. A explicação para esse
desfecho é a chamada imunidade de rebanho, que consiste na hipótese de que
basta uma determinada parte da população ter desenvolvido anticorpos, o
processo de contaminação é interrompido. As estimativas para a grandeza desse
contingente populacional oscilam entre 60% e 70%.
Com o aparecimento do coronavírus covid-19 voltou à
memória, entre outras, a pandemia da Gripe Espanhola (que na verdade era
americana) que, também na ausência de vacinas e medicamentos específicos,
terminou antes de completar 3 anos, deixando o triste resultado estimado entre
27 e 50 milhões de óbitos. Não existem dados confiáveis sobre o número de
pessoas infectadas. O que, no entanto, se sabe é que a gripe espanhola terminou
como as epidemias anteriores – se auto-extinguindo por falta de pessoas
imunizadas, portanto, infectáveis.
Nos momentos iniciais do surgimento do covid-19, na
ausência de informações sobre a própria doença e de recursos medicinais para
sua prevenção e sua terapia, era óbvio ver e considerar a imunidade de rebanho
como solução e desfecho. Países como a Suécia, os Estados Unidos e o Brasil,
entre outros, desenvolveram estratégias nessa linha. Embora a vacina contra a
gripe N1H1 tivesses sido desenvolvida em 2009 no prazo de 9 meses, havia
naquele momento apenas a certeza de que vários laboratórios ao redor do mundo
estavam trabalhando na obtenção de imunizantes.
O milagre dos 9 meses para o desenvolvimento de uma
vacina se repetiu, contando a partir da irrupção do vírus na China. No caso
brasileiro, 6 meses depois do primeiro caso registrado, ou seja, em começo de
setembro 2020, 4 milhões de pessoas já tinham sido infectadas e contavam-se 124
mil óbitos. De posse desses dados, para chegar a uma taxa de 60% de infectados,
ou seja, 120 milhões de pessoas, tinha-se de contar com a perspectiva de quase
1,9 milhão de óbitos antes de atingir a imunidade de rebanho. Quase 1% da
população feito “boi de piranha”? Portanto, apostar na estratégia da imunidade
de rebanho revelou-se, no mínimo, incauto ou temerário, e indefensável na
disponibilidade de vacina.
Talvez tenha sido um equívoco escolher a Suécia
como modela se consideramos que sua população (10,2 milhões) é menor que a
população favelada do Brasil (11,4 milhões) com altos riscos de contaminação, o
que se prova quando se compara a mortalidade total sueca de 143,4/100 mil
habitantes com a brasileira de 249,2/100 mil.
Ao longo da vacinação em curso ocorre uma gradual
mudança de efeitos. Em sua fase inicial, a vacinação da população idosa tinha
como resultado a proteção quase que individual dos vacinados tipicamente com
pouca interação física com outras pessoas. No entanto, o programa atingindo
faixas etária ao redor de meia vida, envolvendo pessoas presentes e atuando
ativamente em seus campos profissional, social e cultural, um número cada vez
maior de indivíduos age como bloqueio de transmissão nos relacionamentos
físicos cotidianos. Nesse estágio, sim, podemos contar com uma crescentemente
consequente imunização de rebanho.
Que sirva de lição para a próxima.
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