sexta-feira, 30 de julho de 2021

Home Office e Qualidade de Vida

 

Home Office e Qualidade de Vida

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Até cerca de dois séculos atrás, trabalho e moradia sob o mesmo telhado era a normalidade. Os ofícios e o comércio desenvolviam suas atividades em instalações afins nas casas dos respectivos mestres ou comerciantes. E era normal que aprendizes e companheiros moravam na mesma casa. Família e trabalho interagiam estreitamente. Na atividade agrícola, salvo em agroindústrias, essa realidade persiste até hoje, A industrialização e a formação de outros empreendimentos de porte crescente romperam com essa tradição milenar. Moradia e trabalho passaram a ser locais distintos e distantes entre si.

Dois séculos depois, a informatização de atividades de toda natureza, deslocou grandes contingentes da força de trabalho para a área de prestação de serviços. Com o tempo percebeu-se, especialmente no trabalho por contra própria, certa desnecessidade da execução do trabalho nos recintos da empresa. A realização de cada vez mais trabalho deixa de depender do local físico, basta um notebook e o acesso à internet. Consequência disso foi uma crescente, mas reservada, vontade de outsourcing da atuação profissional por parte das empresas.

A pandemia do covid-19 mudou tudo. O home office, que não era novidade, mas raridade, repentinamente tornou-se uma imposição para dar continuidade aos negócios. Funcionalmente, o notebook mudou-se da escrivaninha do escritório para mesa da sala ou da cozinha. Ao mesmo tempo, o liquidificador teve de dividir espaço com os livros de escola das crianças, também em ‘home office’ no ensino a distância. E os membros da família, que até então só se encontravam no café da manhã e no jantar, tiveram também o almoço juntos – e todo o resto do dia.

A realidade habitual do fim de semana passou a estender-se pela semana inteira. Liberdades até então concedidas pela pouca convivência tiveram que dar lugar a regras e disciplinas mais rígidas. A função familiar, antes terceirizada para a creche e a escola, voltou para dentro de casa. Enquanto os filhos veem o trabalho que gera os recursos da família, os pais deixam de ser surpreendidos pelos boletins escolares. Por outro lado, numa convivência diária e mais intensa, os papeis na família acabam por ser redefinidos, deixando de se limitar a supridores e usufruários.

Obviamente, foram mudanças muito repentinas e muito radicais, e muitas vezes transcorreram em ambientes despreparados e inapropriados para tal. Sem dúvida, a súbita mudança no cotidiano trouxe problemas iniciais – da falta e divisão de espaços à organização da convivência de trabalho, lar e lazer, e praticamente sem privacidade. Nessa situação, incipientes contratempos e conflitos são inevitáveis. Especialmente crianças podem ter dificuldade na adaptação a novas realidades restritivas e mostrar sua inconformidade com atitudes mais ou menos associais. Se por um lado uma mudança nessa ordem pode gerar muito desconforto e necessidade de tolerância, por outro, refeições cotidianas em família contribuem substancialmente para a harmonia e para o diálogo tão pobre em muitas famílias atuais. Além disso, e a longo prazo, a experiência de uma vida familiar intensa certamente alimentará nos filhos visões mais bem definidas no que tange a constituição da própria família.

De sua vez, o home office, nos casos em que é aplicável, parece ter sido uma modalidade de trabalho bem-sucedida. A inicial incerteza, de lado a lado, foi substituída por dados concretos, e esses, de uma maneira geral, são positivos. As empresas registram que esse tipo de trabalho se revelou mais produtivo. Certamente, o intervalo, em vez da cantina, na mesa da cozinha, e um passeio em volta da quadra às 10 de manhã sem prejudicar a carga e horário contribuíram para isso, sem falar no stress e no gasto de tempo no percurso entre casa e trabalho.

Com pouco mais de um ano de prática com a vida doméstica e laboral sob o mesmo teto seria prematuro pensar em termos de modelo acabado e definitivo. Muitos ajustes em ambos os aspectos ainda virão com o tempo, tornando essa coexistência mais eficiente e confortável. Enquanto números expressivos de imóveis comerciais estão sendo devolvidos às imobiliárias, com certeza, não devem demorar os primeiros prédios residenciais dispondo de espaço de co-working, ou em construções mais antigas, a aquisição pelo condomínio de um apartamento para transformação nesse tipo de espaço. Seguramente não será um retorno a tempos pré-industriais, mas as perspectivas permitem acreditar numa evolução para uma maior qualidade de vida familiar e laboral – mais salutar e mais feliz.

Todas as catástrofes produzem resultados desastrosos, muitos resultados desastrosos, mas também alguns efeitos profícuos e auspiciosos, e o retorno de muitas famílias à sua forma mais natural e pura deve ser o melhor deles. 

  

terça-feira, 6 de julho de 2021

O Caso dos Saiga

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Estamos no Cazaquistão em maio e junho de 2015. É nesse país que vive com quase exclusividade o antílope Saiga e naquele momento, no curto espaço de três semanas, morrem 200 mil animais de uma população total de cerca de 240 cabeças. A causa: determinada bactéria proliferou com rapidez e intensidade anormais em virtude de repentinas condições climáticas inusitadas na região – extremo calor de 37º C e humidade muito elevada de 80%. Para a espécie isso significou uma pandemia em seu habitat. Este não é o primeiro episódio dessa natureza, mas apenas o último de outros que o antecederam em épocas passadas.

Primeiramente chama atenção a inesperada reação da natureza a um fenômeno climático insólito, mas possível, e de difícil explicação quanto a sua causa. A natureza tem seus caprichos com consequências não menos caprichosos. Se esse caso específico se enquadra na amplitude de ocorrências que perfazem as atuais mudanças climáticas globais talvez seja difícil de comprovar, o que não nega essa possibilidade.

O segundo aspecto consiste virtualmente naquilo que é conhecido como ‘imunidade de rebanho’. Mesmo vivendo espalhados pelos estepes da região, a contaminação direta e indireta (via gramíneos) foi fulminante e somente quando cerca de 80% do rebanho original tinha morrido, a imunidade de rebanho foi alcançada, restando apenas 40 mil espécimes. Sem dúvida, um mecanismo de reação bastante brutal da natureza.

Foi apenas um episódio no mundo em que vivemos, obviamente diferente dos Saiga, mas o qual gerou a todos e que dividimos com todos. Uma questão de grau de semelhança de DNA. Os Saiga recuperaram sua população relativamente rápido, não por último porque durante anos faltou comida para seus predadores – os lobos – e cujo número também se reduziu.

Enfim, cabe considerar que bactérias e outros micro-organismos não precisam de laboratórios para causar pandemias e a imunidade de rebanho pode ser dramática.

domingo, 4 de julho de 2021

A Imunidade de Rebanho

A Imunidade de Rebanho

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Todas as grandes epidemias e pandemias na história terminaram sem extinguir as sociedades atingidas ou a humanidade, apesar dos diferentes, às vezes elevadíssimos graus de letalidade. E isso, até os tempos modernos, sem a disponibilidade de medicação eficaz e sem vacinas. A explicação para esse desfecho é a chamada imunidade de rebanho, que consiste na hipótese de que basta uma determinada parte da população ter desenvolvido anticorpos, o processo de contaminação é interrompido. As estimativas para a grandeza desse contingente populacional oscilam entre 60% e 70%.            

Com o aparecimento do coronavírus covid-19 voltou à memória, entre outras, a pandemia da Gripe Espanhola (que na verdade era americana) que, também na ausência de vacinas e medicamentos específicos, terminou antes de completar 3 anos, deixando o triste resultado estimado entre 27 e 50 milhões de óbitos. Não existem dados confiáveis sobre o número de pessoas infectadas. O que, no entanto, se sabe é que a gripe espanhola terminou como as epidemias anteriores – se auto-extinguindo por falta de pessoas imunizadas, portanto, infectáveis.

Nos momentos iniciais do surgimento do covid-19, na ausência de informações sobre a própria doença e de recursos medicinais para sua prevenção e sua terapia, era óbvio ver e considerar a imunidade de rebanho como solução e desfecho. Países como a Suécia, os Estados Unidos e o Brasil, entre outros, desenvolveram estratégias nessa linha. Embora a vacina contra a gripe N1H1 tivesses sido desenvolvida em 2009 no prazo de 9 meses, havia naquele momento apenas a certeza de que vários laboratórios ao redor do mundo estavam trabalhando na obtenção de imunizantes.

O milagre dos 9 meses para o desenvolvimento de uma vacina se repetiu, contando a partir da irrupção do vírus na China. No caso brasileiro, 6 meses depois do primeiro caso registrado, ou seja, em começo de setembro 2020, 4 milhões de pessoas já tinham sido infectadas e contavam-se 124 mil óbitos. De posse desses dados, para chegar a uma taxa de 60% de infectados, ou seja, 120 milhões de pessoas, tinha-se de contar com a perspectiva de quase 1,9 milhão de óbitos antes de atingir a imunidade de rebanho. Quase 1% da população feito “boi de piranha”? Portanto, apostar na estratégia da imunidade de rebanho revelou-se, no mínimo, incauto ou temerário, e indefensável na disponibilidade de vacina.

Talvez tenha sido um equívoco escolher a Suécia como modela se consideramos que sua população (10,2 milhões) é menor que a população favelada do Brasil (11,4 milhões) com altos riscos de contaminação, o que se prova quando se compara a mortalidade total sueca de 143,4/100 mil habitantes com a brasileira de 249,2/100 mil.

Ao longo da vacinação em curso ocorre uma gradual mudança de efeitos. Em sua fase inicial, a vacinação da população idosa tinha como resultado a proteção quase que individual dos vacinados tipicamente com pouca interação física com outras pessoas. No entanto, o programa atingindo faixas etária ao redor de meia vida, envolvendo pessoas presentes e atuando ativamente em seus campos profissional, social e cultural, um número cada vez maior de indivíduos age como bloqueio de transmissão nos relacionamentos físicos cotidianos. Nesse estágio, sim, podemos contar com uma crescentemente consequente imunização de rebanho.

Que sirva de lição para a próxima.