Home Office e Qualidade de Vida
Klaus H. G. Rehfeldt
Até cerca de dois séculos atrás, trabalho e moradia sob o mesmo telhado
era a normalidade. Os ofícios e o comércio desenvolviam suas atividades em
instalações afins nas casas dos respectivos mestres ou comerciantes. E era
normal que aprendizes e companheiros moravam na mesma casa. Família e trabalho
interagiam estreitamente. Na atividade agrícola, salvo em agroindústrias, essa
realidade persiste até hoje, A industrialização e a formação de outros
empreendimentos de porte crescente romperam com essa tradição milenar. Moradia
e trabalho passaram a ser locais distintos e distantes entre si.
Dois séculos depois, a informatização de atividades
de toda natureza, deslocou grandes contingentes da força de trabalho para a
área de prestação de serviços. Com o tempo percebeu-se, especialmente no
trabalho por contra própria, certa desnecessidade da execução do trabalho nos
recintos da empresa. A realização de cada vez mais trabalho deixa de depender
do local físico, basta um notebook e o acesso à internet. Consequência disso foi
uma crescente, mas reservada, vontade de outsourcing da atuação profissional por
parte das empresas.
A pandemia do covid-19 mudou tudo. O home office,
que não era novidade, mas raridade, repentinamente tornou-se uma imposição para
dar continuidade aos negócios. Funcionalmente, o notebook mudou-se da
escrivaninha do escritório para mesa da sala ou da cozinha. Ao mesmo tempo, o
liquidificador teve de dividir espaço com os livros de escola das crianças,
também em ‘home office’ no ensino a distância. E os membros da família, que até
então só se encontravam no café da manhã e no jantar, tiveram também o almoço
juntos – e todo o resto do dia.
A realidade habitual do fim de semana passou a
estender-se pela semana inteira. Liberdades até então concedidas pela pouca
convivência tiveram que dar lugar a regras e disciplinas mais rígidas. A função
familiar, antes terceirizada para a creche e a escola, voltou para dentro de
casa. Enquanto os filhos veem o trabalho que gera os recursos da família, os
pais deixam de ser surpreendidos pelos boletins escolares. Por outro lado, numa
convivência diária e mais intensa, os papeis na família acabam por ser
redefinidos, deixando de se limitar a supridores e usufruários.
Obviamente, foram mudanças muito repentinas e muito
radicais, e muitas vezes transcorreram em ambientes despreparados e
inapropriados para tal. Sem dúvida, a súbita mudança no cotidiano trouxe
problemas iniciais – da falta e divisão de espaços à organização da convivência
de trabalho, lar e lazer, e praticamente sem privacidade. Nessa situação, incipientes
contratempos e conflitos são inevitáveis. Especialmente crianças podem ter
dificuldade na adaptação a novas realidades restritivas e mostrar sua
inconformidade com atitudes mais ou menos associais. Se por um lado uma mudança
nessa ordem pode gerar muito desconforto e necessidade de tolerância, por outro,
refeições cotidianas em família contribuem substancialmente para a harmonia e
para o diálogo tão pobre em muitas famílias atuais. Além disso, e a longo prazo,
a experiência de uma vida familiar intensa certamente alimentará nos filhos
visões mais bem definidas no que tange a constituição da própria família.
De sua vez, o home office, nos casos em que é
aplicável, parece ter sido uma modalidade de trabalho bem-sucedida. A inicial
incerteza, de lado a lado, foi substituída por dados concretos, e esses, de uma
maneira geral, são positivos. As empresas registram que esse tipo de trabalho
se revelou mais produtivo. Certamente, o intervalo, em vez da cantina, na mesa
da cozinha, e um passeio em volta da quadra às 10 de manhã sem prejudicar a
carga e horário contribuíram para isso, sem falar no stress e no gasto de tempo
no percurso entre casa e trabalho.
Com pouco mais de um ano de prática com a vida
doméstica e laboral sob o mesmo teto seria prematuro pensar em termos de modelo
acabado e definitivo. Muitos ajustes em ambos os aspectos ainda virão com o
tempo, tornando essa coexistência mais eficiente e confortável. Enquanto
números expressivos de imóveis comerciais estão sendo devolvidos às imobiliárias,
com certeza, não devem demorar os primeiros prédios residenciais dispondo de
espaço de co-working, ou em construções mais antigas, a aquisição pelo
condomínio de um apartamento para transformação nesse tipo de espaço. Seguramente
não será um retorno a tempos pré-industriais, mas as perspectivas permitem
acreditar numa evolução para uma maior qualidade de vida familiar e laboral – mais
salutar e mais feliz.
Todas as catástrofes produzem resultados
desastrosos, muitos resultados desastrosos, mas também alguns efeitos profícuos
e auspiciosos, e o retorno de muitas famílias à sua forma mais natural e pura
deve ser o melhor deles.
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