Quem Vota, Você?
Klaus H. G. Rehfeldt
"Atenas é o único lugar onde uma pessoa
apolítica não é considerada um cidadão silencioso, mas um mau cidadão",
Péricles (c. 495/492 a.C. – 429 a.C.).
Tudo começou quando, na Grécia Antiga, por volta do ano 507 a.C., o
oficial público Clístenes cria uma nova autoridade, o "Conselho dos
500", que deve preparar as decisões da Assembleia Popular. Os membros do
conselho não são eleitos, mas escolhidos por sorteio – todos os anos de novo.
Como o domicílio composto por homens, mulheres, crianças e escravos formava a
unidade básica central da comunidade, o dono da casa o representava em público.
Séculos de regimes feudais absolutistas impediram
quaisquer iniciativas que possibilitassem à população geral expressar suas
vontades cívicas. Apenas a partir do século XVII, especialmente na Inglaterra,
surgiram manifestações clamando pela voz do povo. Movimentos e revoluções com a
Gloriosa na Inglaterra em 1688, a Independência dos Estados Unidos, 1776, e a
Revolução Francesa (1789) estabeleceram as bases das futuras democracias e da
consagração do voto popular (embora, por muito tempo limitado apenas aos
homens.
Desde os tempos antigos, porém, o direito
democrático de voto foi visto com desconfiança. Assim, Aristóteles rejeitou a
"democracia" no sentido do governo popular, uma vez que o poder de
decisão residiria nos destituídos, com cujos votos o abuso pode ser realizado
e, portanto, a porta estria aberta à arbitrariedade. A essa reserva somaram-se ao
longo do tempo as permanentes incertezas alimentadas por reiteradas eleições
fraudadas, especialmente nas mais recentes democracias de aparência de regimes
efetivamente totalitários. Ao lado disso, existem países onde tradicionalmente
a lisura dos processos eleitorais é questionada pelos perdedores, e outros que,
há mais de dois séculos, realizam eleições amplamente consideradas limpas.
A era digital trouxe novas configurações às eleições democráticas na forma de votos, urnas e apurações eletrônicas. E trouxe mais: as campanhas mediáticas. Nunca tantos fizeram tanto barulho e divulgaram tantas verdades e mentiras a favor e contra tão poucos. Campanhas políticas deixam de ser confrontos objetivos e racionais, passando para algo parecido com torcidas, com ódios e paixões, sem avaliação objetiva de méritos. Conteúdos programáticos somem atrás de construções e destruições de imagens pessoais. O efeito futuro disso está em aberto.
Isso, no entanto, é o varejo, a nível de
marqueteiro eleitoral. O atacado é muito mais sério. Resumidamente, é a secreta
manipulação organizada e metodizada, de lado a lado, da opinião do cidadão. Empresas
especializadas em RP (relações públicas) eleitorais – entre as 500 maiores, 8 encontram-se
em Londres, como Cambridge Analytica (não existe mais, os dados elaborados,
sim), Howard Associates, Kanto Systems, New Central Media (como fortes laços
com a agência russa Elit), entre outras. Elas levantam furtivamente e processam
dezenas de milhões de perfis psicotécnicos, que utilizam seletivamente para
seus canais de divulgação de interesses políticos de quem os contrata em
qualquer parte do mundo. Pessoas politicamente não alinhados, desavisadas,
incautas e potencialmente crédulas são tornadas são instrumentalizadas
inadvertidamente para papeis de difusão de notícias tendenciosas, total ou
parcialmente inverídicas, com vários objetivos: politizá-las na linha desejada,
transformá-las em reprodutores de seu material eleitoral, desencadear e alimentar
temores e ódios, criar atmosferas favoráveis ou hostis, endossar conspirações
de ódio e outros mais. Tudo abusando da inocência de pessoas incautas e inocentes.
Fato é que todos somos moldados pelo nosso passado,
pelas influências sofridas, informações recebidas e os conhecimentos que conquistamos
ao longo da nossa vida. Também é fato que temos poucas ou nenhuma defesa contra
os efeitos de tais fatores formadores, nem contra as eventuais investidas especificamente
elaboradas com a finalidade de manipular nossas posturas, atitudes, prioridades
e decisões. Tornamo-nos simples objetos nas mãos de profissionais que procuram propositadamente
influenciar e manipular nossa mente – em troca de imensos lucros. E mais:
vendem nosso perfil psicotécnico a preço de ouro a outras organizações para o
mesmo abuso.
Como subprodutos restam uma sociedade despedaçada e
uma democracia ameaçada.
O que fazer? Difícil de responder. Talvez seja
fundamental entender que quanto mais crédulos, mais vulneráveis nos tornamos. Para
tudo existe um fundamento, uma razão e uma explicação, de acesso relativamente
fácil no mundo digital – basta um pouco de empenho. Por outro lado, a priorização
do juízo e da sensatez sobre o emocional pode ajudar muito na tentativa da
preservação da autenticidade. O mais importante, porém, é ter consciência da
presença de refinados esquemas dessa natureza que procuram violar o que temos
de mais valioso, nossa privacidade e capacidade de discernir e decidir conforme
nosso único arbítrio. A preservação da integridade moral não é graciosa, ela
exige empenho. Cada um é responsável pela preservação de sua dignidade e
respeitabilidade.
Este texto é um convite ao exercicio do pensamento analítico dirigido aos diversos aspectos presentes na política. E um alerta aos que preferem apenas sentar e assistir a um jogo político de interesses duvidosos.
ResponderExcluir