Uma Alternativa Energética
Promissora
Klaus H. G. Rehfeldt
Há 250 anos (1769), foi registrada a patente da máquina a vapor
inventada por James Watt, desencadeando uma revolução energética depois de
milhares de anos com as fontes energéticas extra-humanas limitadas à força
animal, do vento e da água. Os efeitos dessa inovação foram enormes para a
indústria e a sociedade. Seguem-se a criação de novas fontes energéticas nas
formas da hidro- e termo-geração, e do motor de combustão interna
essencialmente dependendo de derivados do petróleo. Um novo capítulo é
acrescido à história da energia na sua modalidade de fissão nuclear. A
insaciável e sempre crescente fome por energia, na presença de preocupações
ecológicas, deu origem à geração de energias solar e eólica, ao lado da energia
geotérmica em mínimas proporções. A geração e o consumo de todas as variantes desse
leque de recursos energéticos dependem diretamente das disponibilidades de condições
produtivas e finalidades de uso.
O processo desenvolvimentista e de avanço tecnológico
da nossa civilização continua – nunca parou e não parará, mas sempre dependendo
da disponibilidade energética. Por muito tempo, a energia nuclear era tida como
praticamente inesgotável, quase independente de condições externas (climáticas,
geográficas etc.) e de baixo consumo de matéria prima, embora não abundante.
Acidentes em reatores nucleares em Three Mile Island (EUA), Chernobyl (então União
Soviética) e Fukushima (Japão) reaqueceram as sempre existentes discussões em
torno da segurança dessas usinas, além do permanente e nunca definitivamente
resolvido problema dos resíduos atômicos. Alguns países, como a Alemanha, já
estabeleceram prazos para o abandono definitivo desse recurso energético.
De repente, uma notícia corre o mundo: a China está
testando um reator de tório. O processo não é exatamente uma novidade, pois é
conhecido desde os anos de1950, mas inclui grandes obstáculos técnicos para sua
concretização devido ao alto poder corrosivo do sal. Diante de várias
iniciativas atuais na mesma direção do projeto chinês conclui-se que uma
solução (uma liga apropriada) para tal entrave está sendo encontrada. Outrossim,
as vantagens do reator de tória sobre o de urânio são indiscutíveis, a começar
pela maior disponibilidade da matéria prima e, no lado do consumo, uma
quantidade equivalente a uma bola de tênis, por exemplo, basta para gerar a
energia consumida por uma pessoa durante toda sua vida.
Por outro lado, observa-se uma enorme diferença
vantajosa na comparação de um reator de tório com outro de urânica. Enquanto o
último exige uma usina de grandes proporções, o de tório permite unidades não
maiores que um box de chuveiro doméstico. Nessa dimensão, trabalha-se com uma
capacidade geradora suficiente para suprir cerca de 100 mil residências, e, ao
mesmo tempo permite-se fácil portabilidade. Na sua operação, em contraste com o
reator a urânio, que exige varetas de combustível e grandes quantidades de água
de resfriamento, no modelo de tório trata-se essencialmente da produção de
calor pela fissão dos núcleos de tório 232 num banho de sal líquido. Isso
garante, além das diminutas dimensões, alto grau de segurança, pois em caso de
superaquecimento, o sal cristaliza e interrompe a reação nuclear. Num outro
aspecto crucial, os resíduos do tório decompõem-se em cerca de 300 anos, os de
urânio, em 10 mil anos. Eis a solução para a substituição altamente sustentável
de tradicionais usinas termoelétricas e nucleares convencionais. E mais: o tório não serve para fins militares.
Especialmente os últimos dois séculos ensinaram-nos
que não existe tecnologia definitiva e acabada. Mas também devemos ter
aprendido que cada tecnologia nova ou aprimorada oferece aos interessados a
oportunidade de ser vanguarda em vez de mero usufruários dos resultados. Nas últimas
décadas, diversos países asiáticos assumiram o risco de ocupar dianteiras – e,
em geral, se deram bem. A China, mesmo sem reservas de nióbio e similares é
hoje fabricante número um de baterias automotivas, a Coreia do Sul tornou-se
fornecedor principal fornecedor mundial de eletrônica automotiva e de outras
áreas. Nós temos depósitos de tório em todos os estados da Região Sul, Minas
Gerais, e quase todos os estados do Nordeste – mas dormimos em berço
esplêndido. Vamos acordar! Temos uma enorme chance de ganhar um mercado
altamente promissor para o futuro – com o produto acabado, entende-se. Será que
não temos as cabeças?
Excelente texto, atualissimo, em assunto de interesse global. E acrescente-se, extremamente didático.
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