terça-feira, 28 de setembro de 2021

Uma Alternativa Energética Promissora

 

Uma Alternativa Energética Promissora

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Há 250 anos (1769), foi registrada a patente da máquina a vapor inventada por James Watt, desencadeando uma revolução energética depois de milhares de anos com as fontes energéticas extra-humanas limitadas à força animal, do vento e da água. Os efeitos dessa inovação foram enormes para a indústria e a sociedade. Seguem-se a criação de novas fontes energéticas nas formas da hidro- e termo-geração, e do motor de combustão interna essencialmente dependendo de derivados do petróleo. Um novo capítulo é acrescido à história da energia na sua modalidade de fissão nuclear. A insaciável e sempre crescente fome por energia, na presença de preocupações ecológicas, deu origem à geração de energias solar e eólica, ao lado da energia geotérmica em mínimas proporções. A geração e o consumo de todas as variantes desse leque de recursos energéticos dependem diretamente das disponibilidades de condições produtivas e finalidades de uso.

O processo desenvolvimentista e de avanço tecnológico da nossa civilização continua – nunca parou e não parará, mas sempre dependendo da disponibilidade energética. Por muito tempo, a energia nuclear era tida como praticamente inesgotável, quase independente de condições externas (climáticas, geográficas etc.) e de baixo consumo de matéria prima, embora não abundante. Acidentes em reatores nucleares em Three Mile Island (EUA), Chernobyl (então União Soviética) e Fukushima (Japão) reaqueceram as sempre existentes discussões em torno da segurança dessas usinas, além do permanente e nunca definitivamente resolvido problema dos resíduos atômicos. Alguns países, como a Alemanha, já estabeleceram prazos para o abandono definitivo desse recurso energético.

De repente, uma notícia corre o mundo: a China está testando um reator de tório. O processo não é exatamente uma novidade, pois é conhecido desde os anos de1950, mas inclui grandes obstáculos técnicos para sua concretização devido ao alto poder corrosivo do sal. Diante de várias iniciativas atuais na mesma direção do projeto chinês conclui-se que uma solução (uma liga apropriada) para tal entrave está sendo encontrada. Outrossim, as vantagens do reator de tória sobre o de urânio são indiscutíveis, a começar pela maior disponibilidade da matéria prima e, no lado do consumo, uma quantidade equivalente a uma bola de tênis, por exemplo, basta para gerar a energia consumida por uma pessoa durante toda sua vida.

Por outro lado, observa-se uma enorme diferença vantajosa na comparação de um reator de tório com outro de urânica. Enquanto o último exige uma usina de grandes proporções, o de tório permite unidades não maiores que um box de chuveiro doméstico. Nessa dimensão, trabalha-se com uma capacidade geradora suficiente para suprir cerca de 100 mil residências, e, ao mesmo tempo permite-se fácil portabilidade. Na sua operação, em contraste com o reator a urânio, que exige varetas de combustível e grandes quantidades de água de resfriamento, no modelo de tório trata-se essencialmente da produção de calor pela fissão dos núcleos de tório 232 num banho de sal líquido. Isso garante, além das diminutas dimensões, alto grau de segurança, pois em caso de superaquecimento, o sal cristaliza e interrompe a reação nuclear. Num outro aspecto crucial, os resíduos do tório decompõem-se em cerca de 300 anos, os de urânio, em 10 mil anos. Eis a solução para a substituição altamente sustentável de tradicionais usinas termoelétricas e nucleares convencionais. E mais: o tório não serve para fins militares.

Especialmente os últimos dois séculos ensinaram-nos que não existe tecnologia definitiva e acabada. Mas também devemos ter aprendido que cada tecnologia nova ou aprimorada oferece aos interessados a oportunidade de ser vanguarda em vez de mero usufruários dos resultados. Nas últimas décadas, diversos países asiáticos assumiram o risco de ocupar dianteiras – e, em geral, se deram bem. A China, mesmo sem reservas de nióbio e similares é hoje fabricante número um de baterias automotivas, a Coreia do Sul tornou-se fornecedor principal fornecedor mundial de eletrônica automotiva e de outras áreas. Nós temos depósitos de tório em todos os estados da Região Sul, Minas Gerais, e quase todos os estados do Nordeste – mas dormimos em berço esplêndido. Vamos acordar! Temos uma enorme chance de ganhar um mercado altamente promissor para o futuro – com o produto acabado, entende-se. Será que não temos as cabeças?

 

Um comentário:

  1. Excelente texto, atualissimo, em assunto de interesse global. E acrescente-se, extremamente didático.

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