sexta-feira, 29 de abril de 2022

O 'Social' Indispensável

O ‘Social’ Indispensável

 

(“The Indispensable ‘Social’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Consta no nosso passado um período de cerca de dez mil anos de economia quase exclusivamente agrícola. A vida nesses ambientes era simples e muito homogênea: os mesmos conhecimentos, as mesmas práticas agrícolas, as mesmas ferramentas. Eventuais diferenças econômicas ou sociais eram de caráter individual e decorriam de aspectos concentrados em habilidades ou esforços pessoais, (ressalvadas situações de infortúnio como doenças, incêndios ou catástrofes naturais) e dessa realidade resultaram diferentes graus de ‘prosperidade’ nessas sociedades. Havia, naturalmente, diferenças no padrão de vida entre patrão e trabalhador.

Os objetivos de vida naqueles tempos consistiam em garantir a subsistência, segurança existencial e manutenção do status quo. Termos como progresso ou desenvolvimento não faziam parte do vocabulário. Mesmo trabalhadores rurais sem propriedade usufruíam de relativa estabilidade em seu ambiente de labuta. Nos ofícios, a situação era semelhante. Excluímos aqui as sociedades escravocratas onde o homem era mero ferramental humana que bastava ser mantido vivo. A sociedade em foco desconhecia ideologias e mobilidade social. Por isso é importante que ela seja vista dentro do seu contexto histórico – não cabe qualquer comparação descontextualizada com tempos posteriores. Eventuais e isoladas atitudes ou atividades ‘sociais’ da época limitavam-se à igreja ou partiam do feudo em casos de calamidade geral.

Para o bem ou para om mal, tudo isso começou a mudar com a mudança econômica de agrícola para empresarial/industrial. A simples relação patrão – peão, quando ambos se situaram em níveis muito próximos no manuseio do campo, evoluiu rapidamente para uma hierarquização ampla e complexa, seja ela vertical, seja por aspectos de poder financeiro e econômico, ou por necessidade de qualificação profissional. Resultou daí rápida e inexoravelmente uma nova divisão da sociedade em classes das mais diversas conotações.

Contingentes crescentes da população trocaram a vida de ampla de autossuficiência no campo por outra, fortemente dependente de estruturas urbanas e mecanismos financeiros. Esse novo modus vivendi impôs inusitadas normas de comportamento econômico e social ao trabalhador. A mudança da relação direta trabalho – produto, interpessoal e bastante flexível, para a rígida dependência da posse de meios pecuniários para a obtenção do essencial para a vida resultou numa sensível fragilização existencial. Uma quebra na safra não comprometia necessariamente o sustento do trabalhador rural; uma retração conjuntural, entretanto, podia facilmente significar, por exemplo, risco de fome para o operário em estruturas empresariais.

Somam-se a essa nova realidade os frequentes excessos de um brutal e selvagem capitalismo, desenfreado e descomedido, de uma insipiente sociedade industrial. De uma maneira geral, as condições de trabalho eram péssimas, quando não miseráveis. E isso, num ambiente de pensamento humanista em expansão, levantou vozes denunciando tais abusos e sugerindo medidas para sua remediação – de meras atitudes assistenciais a propostas comunistas e de violência contra o sistema, e que são, incluindo suas consequências, amplamente conhecidas. Num – então – mundo de acentuado desrespeito da dignidade humana eram respostas compreensíveis e eventualmente cabíveis. Entram em cena conceitos como socialismo, seguro social, assistência social, reforma social, contribuição social e outros mais. No entanto, não podem ser extrapoladas de seu contexto temporal e perpetuadas na história.           

Ao longo de dois séculos o assunto ganhou ratio político e registraram-se as contra-respostas na forma de legislações e regulamentações buscando corrigir excessos e abusos e uma maior harmonização entre o capital e o trabalho, cada vez mais dentro de um processo de adequação a conveniências mútuas. Os resultados, embora lentos, também são conhecidos e dispensam comentários. Por outro lado, tentativas de socialização extrema ou comunização de sociedades inteiras revelaram-se inexequíveis e fracassaram diante da extemporização de conceitos e princípios. A evolução de regimes autocráticos socialistas e comunistas – mas também capitalistas – em socialdemocracias é notória.

Num processo evolutivo estabeleceu-se um padrão de coexistência negociável na dependência de parâmetros econômicos, tecnológicos e políticos em constante transformação. Inalterável, entretanto, é uma realidade central da humanidade: somos 7,5 bilhões de pessoas física e mentalmente diferentes, com habilidades, capacidades, aspirações, convicções, sortes ou infortúnios e históricos de vida diferentes (para apenas citar algumas diferenças), redundando, obviamente, em dezenas, centenas de bilhões de decisões diferentes com dezenas, centenas de bilhões de resultados imateriais e materiais diferentes, podendo gerar fortunas e misérias em quaisquer dimensões. Numa outra perspectiva, sociedades complexas significam mais oportunidades, mas também mais riscos, incertezas e desajustes.

Adeus à utopia do fim das desigualdades. Benvindo o ‘social’ para amparar aqueles que ficaram para trás numa sociedade em permanente mudança e avanço. Benvindas também as iniciativas em busca da eliminação da desigualdade evitável e corrigível de chances e de preparo para a vida, que é de responsabilidade da sociedade e da qual a própria sociedade se beneficiaria, Como não existe a coletividade perfeita, o 'social' continuará a ter lugar na sociedade com presença diretamente proporcional à dimensão da população não integrada - seja qual for o motivo - no sistema socioeconômico vigente.

 parte o primitivismo que iguala todo ‘social’ com socialismo ou comunismo, o ‘social’ é, e continuará, indispensável no nosso modelo de vida.

  

  

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