O ‘Social’ Indispensável
(“The Indispensable ‘Social’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic
translations)
Klaus H. G. Rehfeldt
Consta no nosso passado um período
de cerca de dez mil anos de economia quase exclusivamente agrícola. A vida
nesses ambientes era simples e muito homogênea: os mesmos conhecimentos, as
mesmas práticas agrícolas, as mesmas ferramentas. Eventuais diferenças
econômicas ou sociais eram de caráter individual e decorriam de aspectos
concentrados em habilidades ou esforços pessoais, (ressalvadas situações de
infortúnio como doenças, incêndios ou catástrofes naturais) e dessa realidade
resultaram diferentes graus de ‘prosperidade’ nessas sociedades. Havia,
naturalmente, diferenças no padrão de vida entre patrão e trabalhador.
Os
objetivos de vida naqueles tempos consistiam em garantir a subsistência,
segurança existencial e manutenção do status quo. Termos como progresso ou
desenvolvimento não faziam parte do vocabulário. Mesmo trabalhadores rurais sem
propriedade usufruíam de relativa estabilidade em seu ambiente de labuta. Nos
ofícios, a situação era semelhante. Excluímos aqui as sociedades escravocratas
onde o homem era mero ferramental humana que bastava ser mantido vivo. A
sociedade em foco desconhecia ideologias e mobilidade social. Por isso é
importante que ela seja vista dentro do seu contexto histórico – não cabe
qualquer comparação descontextualizada com tempos posteriores. Eventuais e
isoladas atitudes ou atividades ‘sociais’ da época limitavam-se à igreja ou
partiam do feudo em casos de calamidade geral.
Para o bem
ou para om mal, tudo isso começou a mudar com a mudança econômica de agrícola
para empresarial/industrial. A simples relação patrão – peão, quando ambos se
situaram em níveis muito próximos no manuseio do campo, evoluiu rapidamente
para uma hierarquização ampla e complexa, seja ela vertical, seja por aspectos
de poder financeiro e econômico, ou por necessidade de qualificação
profissional. Resultou daí rápida e inexoravelmente uma nova divisão da
sociedade em classes das mais diversas conotações.
Contingentes
crescentes da população trocaram a vida de ampla de autossuficiência no campo
por outra, fortemente dependente de estruturas urbanas e mecanismos financeiros.
Esse novo modus vivendi impôs inusitadas normas de comportamento econômico e
social ao trabalhador. A mudança da relação direta trabalho – produto,
interpessoal e bastante flexível, para a rígida dependência da posse de meios
pecuniários para a obtenção do essencial para a vida resultou numa sensível
fragilização existencial. Uma quebra na safra não comprometia necessariamente o
sustento do trabalhador rural; uma retração conjuntural, entretanto, podia
facilmente significar, por exemplo, risco de fome para o operário em estruturas
empresariais.
Somam-se a essa
nova realidade os frequentes excessos de um brutal e selvagem capitalismo,
desenfreado e descomedido, de uma insipiente sociedade industrial. De uma
maneira geral, as condições de trabalho eram péssimas, quando não miseráveis. E
isso, num ambiente de pensamento humanista em expansão, levantou vozes
denunciando tais abusos e sugerindo medidas para sua remediação – de meras
atitudes assistenciais a propostas comunistas e de violência contra o sistema, e
que são, incluindo suas consequências, amplamente conhecidas. Num – então –
mundo de acentuado desrespeito da dignidade humana eram respostas
compreensíveis e eventualmente cabíveis. Entram em cena conceitos como
socialismo, seguro social, assistência social, reforma social, contribuição
social e outros mais. No entanto, não podem ser extrapoladas de seu contexto
temporal e perpetuadas na história.
Ao longo de
dois séculos o assunto ganhou ratio político e registraram-se as
contra-respostas na forma de legislações e regulamentações buscando corrigir
excessos e abusos e uma maior harmonização entre o capital e o trabalho, cada
vez mais dentro de um processo de adequação a conveniências mútuas. Os
resultados, embora lentos, também são conhecidos e dispensam comentários. Por
outro lado, tentativas de socialização extrema ou comunização de sociedades
inteiras revelaram-se inexequíveis e fracassaram diante da extemporização de
conceitos e princípios. A evolução de regimes autocráticos socialistas e
comunistas – mas também capitalistas – em socialdemocracias é notória.
Num
processo evolutivo estabeleceu-se um padrão de coexistência negociável na
dependência de parâmetros econômicos, tecnológicos e políticos em constante transformação.
Inalterável, entretanto, é uma realidade central da humanidade: somos 7,5
bilhões de pessoas física e mentalmente diferentes, com habilidades,
capacidades, aspirações, convicções, sortes ou infortúnios e históricos de vida
diferentes (para apenas citar algumas diferenças), redundando, obviamente, em
dezenas, centenas de bilhões de decisões diferentes com dezenas, centenas de
bilhões de resultados imateriais e materiais diferentes, podendo gerar fortunas
e misérias em quaisquer dimensões. Numa outra perspectiva, sociedades complexas
significam mais oportunidades, mas também mais riscos, incertezas e desajustes.
Adeus à utopia do fim das desigualdades. Benvindo o ‘social’ para amparar aqueles que ficaram para trás numa sociedade em permanente mudança e avanço. Benvindas também as iniciativas em busca da eliminação da desigualdade evitável e corrigível de chances e de preparo para a vida, que é de responsabilidade da sociedade e da qual a própria sociedade se beneficiaria, Como não existe a coletividade perfeita, o 'social' continuará a ter lugar na sociedade com presença diretamente proporcional à dimensão da população não integrada - seja qual for o motivo - no sistema socioeconômico vigente.
 parte o
primitivismo que iguala todo ‘social’ com socialismo ou comunismo, o ‘social’ é,
e continuará, indispensável no nosso modelo de vida.
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