segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Trabalho - Menos Horas, Mais Anos.

Trabalho – Menos Horas, Mais Anos

(“Labor – Less Hours, More Years” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Nas projeções estruturais econômicas e sociais para o futuro há consenso e uma preocupação geral: a falta de trabalho e com isso, a garantia de sustentação, mas também de prosperidade de boa parte da população. Mesmo reduções sensíveis no crescimento populacional das últimas décadas não deverão assegurar uma solução consistente para o problema. Simplesmente não há, nem haverá trabalho para   a população em idade produtiva (cerca de 60% da população total) durante 8 horas por dia e 220 dias por ano (considerando dias úteis menos férias). Trata-se de uma perspectiva global.

Em tempos de célere industrialização e crescente explosão demográfica na segunda metade do século XIX, cargas horárias semanais de trabalho de 60 a 65 horas eram comuns. Ao longo do tempo, várias forças políticas e da sociedade civil obtiveram gradativas conquistas na redução desses montantes. Tais medidas, no entanto, buscavam sanar desajustes sociais do trabalhador e não foram consequência da diminuição de disponibilidades de trabalho.

Na evolução da dinâmica de desenvolvimento, fatores como crescimento demográfico acelerado e avanço tecnológico, entre outros, acabaram levando a um desequilíbrio entre oferta e demanda de trabalho. O daí resultante desemprego costuma ser causa principal para todo um conjunto de problemas sociais que obstaculizam uma integração económica e social de boa parcela da população, no caso brasileiro cerca de 10% da força de trabalho disponível, mas improdutiva, sem considerar o trabalho informal. E os crescentes e progressivos processos de automação, robotização e inteligência artificial acarretam uma liberação cada vez maior de mão de obra em praticamente todos os setores.

Por outro lado, o constante aumento da expectativa de vida tende a agravar essa situação. Diante disso, cada vez mais países procuram ajustar as idades de aposentadoria a essa nova realidade. Ao mesmo tempo, especialmente entre o crescente número de autônomos, há pessoas dispostas a trabalhar apesar da idade avançada, continuando voluntariamente em atividade. Por outro lado, o crescimento populacional mais lento nas últimas décadas não chega a cobrir a observada falta de postos de trabalho.

A solução lógica no sentido de criar um maior número de acessos ao trabalho, portanto, reside na reestruturação das condições de trabalho através da modulação dos tempos de trabalho. Modelos para isso já estão sendo postos em prática em alguns países, em resumo consistindo em reduzir a carga de trabalho individual para dividir o trabalho disponível entre mais pessoas pela simples redução da jornada de trabalho, p.ex. de 8 para 6 horas, ou da diminuição da semana de 5 para 4 dias de trabalho.

Contrário ao que seria óbvio pensar, mudanças nesse sentido não resultam necessariamente na conclusão “menos horas de trabalho, menos produção”, com consequente corte na remuneração. Vários estudos revelam que cargas horárias semanais menores revertem para maiores produtividades. Segundo o ‘Instituto de Estatística Eurostat’, países com uma média de 35 horas de trabalho semanais atingem uma produtividade/hora em média de 15% (máximo 26,8% na Bélgica) acima da produtividade/hora média europeia. Um efeito secundário, mas não desprezível, desse esquema é que ele oferece maiores possibilidade de flexibilização na execução da carga horária, o que garante, p. ex. na área de prestação de serviços, o atendimento do cliente de 40 horas semanais, ou mais. Além disso, em alguns países europeus existe com sucesso o trabalho de meio período, com boa aceitação especialmente entre as mulheres.

Em todo esse contexto é preciso observar que com a diminuição do trabalho humano nas atividades industriais, a parcela do custo da mão de obra decaiu gradativamente no custo total do produto final nesse setor, com simultâneo deslocamento do trabalho para a prestação de serviços onde a remuneração tende a ser mais vinculada à produtividade.

Como inicialmente já mencionado, outro aspecto das mudanças no mundo do trabalho é a gradativa elevação da idade mínima de aposentadoria como consequência da elevação da expectativa de vida. Esse fenômeno, prolongando a vida produtiva do trabalhador, anula, em parte, os ganhos obtidos com a redução da jornada, ou dos dias semanais de trabalho. Como, no entanto, a elevação da expectativa de vida tem limite, com o tempo seus efeitos tendem a diminuir.

Resumindo, o problema da falta de trabalho existe e está identificado quanto à sua origem e seus efeitos. Sendo uma questão global, também existem soluções já testadas e implantadas com resultados positivos. Falta uma resposta nacional e para ela percepção, consciência e vontade política, independente da linha ideológica do governo. A única resposta no combate à pobreza, à falta de integração e redução da desigualdade econômica e social consiste na garantia de trabalho para todos, e quanto menor a pobreza, maior a prosperidade, não somente da população emergente, mas de todos. Afinal, o pobre é um ônus para o rico.

 

 

  

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