sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Câmbio e Paridade de Poder de Compra

 

Câmbio e Paridade de Poder de Compra

(“Exchange and Purchasing Power Parity” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial 2023, em Davos, a Ministra do Meio Ambientes, Marina Silva, afirmou que no Brasil “120 milhões estão passando fome”. Isso seria quase 60 por cento da população do país, obviamente uma asserção altamente leviana e questionável. Duas hipóteses oferecem-se na tentativa de explicar uma manifestação claramente ficcional diante de uma plateia tão importante: a dramatização forçada de uma situação apenas parcialmente verdadeira, ou a utilização (voluntária ou não) de parâmetros impróprios e inadequados. O primeiro pressuposto encontra sua resposta nas artimanhas da política, já o segundo merece uma reflexão mais aprofundada.

 

É comum que dados econômicos e sociais no plano internacional e de comparações mundiais utilizam o US-dólar como referência para fins de confrontação. Ocorre que o câmbio bancário ou comercial utilizado para tais comparações e compensações é um instrumento de mercado de procura e oferta, mas não reflete de uma maneira clara realidades conjunturais e socioeconômicas de uma nação. Um exemplo simples, utilizando o câmbio entre Euro e Real: o aluguel de uma moradia de dois quartos numa cidade média europeia gira em torno de 1.000 €, o que corresponde a cerca R$ 6.000 ao câmbio atual.  Entretanto, um imóvel em condições semelhantes deve oscilar no Brasil em média entre R$ 1.500 e 1.800. Ou então, se uma refeição em restaurante de categoria média custa em torno de R$ 50,00, ela deveria custar nos Estados Unidos, ao câmbio atual, cerca de US 10,00, quando, na realidade esse preço encontra-se ao redor de US$ 40,00.

 

 Outro exemplo: Um padeiro nos EUA tem uma verba de US$ 600,00 para comprar açúcar, cujo preço é de US$ 1,00 por kg, e ele compra 600 kg do produto. Seu colega no Brasil, para comprar 600 kg de açúcar ao preço de R$ 4,00 por kg necessitará uma verba de R$ 2.400, o que, ao câmbio de R$ 5,00/US$ representa US$ 480,00. E o colega alemão, com 540€ (= US$ 600), compra somente 270 kg de açúcar ao preço local de 2,00€ o kg. Nenhuma taxa de câmbio explica.    

 

O câmbio tem seu papel indispensável no mercado de divisas, onde compara e estabelece o valor das moedas (sob influência de instabilidades geopolíticas, mudanças conjunturais ou até anomalias climáticas), mas não espelha a diferença no poder de compra dessas moedas nos respectivos países. Estabeleceu-se antão a assim chamada Paridade do Poder de Compra (PPC) como uma métrica usada na macroeconomia e que relaciona as moedas de diferentes países ao respectivo poder de compra a uma "cesta padrão de bens e serviços" (alimentos, habitação, transporte, impostos, etc.). Com isso, essa paridade permite que os economistas comparem a produtividade econômica e os padrões de vida entre os países.

 

A fórmula para obter esse índice é simples: P (paridade) = custo da cesta de bens e serviços na moeda 1 ÷ custo da cesta de bens e serviços na moeda 2. Com o UD-dólar como referência e um poder de compra com valor 1, resulta da aplicação dessa fórmula no caso do Real que enquanto, com o câmbio em torno de R$ 5,00/US$ o d´lar se mostra cerca de cinco vezes mais forte que o Real, o poder de compra do dólar é atualmente apenas 2,5 vezes maior que o poder de compra do Real. (A título de curiosidade, enquanto USD$ 1,00 vale atualmente 380,00 $ argentinos, o poder de compra do dólar é apenas cerca de 50 vezes maior.)               

 

Neste ponto evidenciam-se as diferenças nas situações do turista e do residente num país estrangeiro. O turista compra sua moeda estrangeira pela taxa de câmbio comercial (p.ex., R$ 5,00/US$), paga US$ 40,00 por um almoço, isso é, o equivalente a R$ 200,00. Já o residente num país estrangeiro vive seu poder de compra com relação à sua renda na moeda local. Aqui é importante frisar que a PPC é uma média dos produtos e serviços da cesta e é maior ou menor para cada produto ou serviço individualizado, no caso das refeições, ela é de apenas 1,25.

 

Uma particularidade curiosa encontramos na zona do Euro onde, apesar da moeda comum, diferentes países apresentam paridades de poder de compra diferentes em relação ao US$, como, p.ex., Alemanha com PPS 0,736, Grécia com 0,546, e Portugal com 0,627, refletindo as diferenças de estruturas e resultados econômicos entre eles.

 

De uma maneira geral, a Paridade de Poder de Compra permite comparações socioeconômicas mais reais entre as nações, mesmo com a ressalva do valor de referência 1 não ser um parâmetro absoluto, mas estar vinculado a um país, no caso os EUA, cuja economia possui suas dinâmicas próprias. Mesmo assim, na determinação dos valores do seu Produto Interno Bruto (PIB), alguns países já levam a Paridade de Poder de Compra em consideração.  


Voltando ao discurso de Marina Silva, conclui-se que ela tomou como base a linha de pobreza de US$ 10.000 anuais, usada em países desenvolvidos. Isso são ao câmbio atual R$ 52.000 no Brasil – um erro absurdo e inadmissível. 

 

    

 

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