Oito Milhões a Menos.
(“Eight Million Less”
- This text is written in a way
to ease comprehensive electronic translations.)
Klaus H. G.
Rehfeldt
O Brasil viveu na
maior parte da última década uma ilusão demográfica, conforme revela o
resultado prévio do censo de 2022 realizado pelo IBGE. Realizam-se censos a
cada 10 anos (o último, por questão de disponibilidade de verba, foi adiado em
dois anos). De acordo com esses censos, a população brasileira era
respectivamente de 169,6 milhões de habitantes em 2000, de 195,7 milhões em
2010, com aumento de 26,1 milhões de habitante, ou seja, de 15,4% (média de
1,5%/ano), e de 207,8 milhões em 2022, com aumento de 12,1 milhões, isso é,
6,2% (média de 0,5%/ano). Assim, depois de uma longa história de taxas expressivas
de crescimento, a realidade demográfica brasileira mostra quedas nas mesmas, com
reduções significativas – 15,4% entre 2000 e 2010, e 6,2% ente 2010 e 2022. E essa
tendência deverá continuar. (Aliás, um fenômeno já a mais tempo observado em
vários países ao redor do mundo.)
Obviamente,
há situações regionais ou locais que apontam na direção oposta. Santa Catarina,
por exemplo, registrou aumentos respectivos de 16,6 % para o período de 2000 a
2010, e de 24,2% para o de 2010 a 2022. Já o município de Luiz Eduardo
Guimarães, Oeste da Bahia, conta com um aumento populacional de 108,3 mil habitantes
em 2022 contra 18,3 no ano 2000, uma aumento de 591,8% (média de 26,0%/ano). Mas isso significa, que outras regiões ou municípios
podem situar-se bem abaixo das médias nacionais citadas.
É
importante observar que nos anos entre dois censos, o IBGE realiza estimativas
locais, cuja somatória resulta num cômputo nacional. Segundo tais estimativas,
a população do Brasil seria de 216 milhões de pessoas em 2022. Com os dados
preliminares do censo atual publicados, no entanto, o Brasil foi surpreendido
com uma diferenças de cerca de oito milhões de habitantes a menos, o que, entre
outras coisas, significa a antecipação do momento de estagnação populacional,
originalmente prevista para meados da década de 2040, para o início de década
de 2030.
Todos
os planejamentos e projeções públicos são baseadas nos dados fornecidos pelo
IBGE, seja de censos, seja de estimativas. No caso de uma diferença de oito
milhões de habitantes, não importa a causa de tal discrepância, governo e
entidades públicas precisam urgentemente revisar e reajustar seus programas,
diferentemente da iniciativa privada, que reage rapidamente às mudanças dos
mercados e redefine as necessárias estratégias. Uma população 4% menor do que
oficialmente tomada como base exige o estabelecimento de novos parâmetros,
especialmente no que se refere a investimentos futuros nas mais diversas áreas.
De uma maneira geral, os ‘mais’, e ‘maiores’ poderão ser substituídos por
‘melhores’ – por exemplo, em vez da desnecessidade de mais espaço físico
escolar, cabe um melhor ensino. A mudança da sociedades das quantidades para
outra das qualidades.
Há efeitos
estatísticos imediatos, como um aumento do PIB per capita e a consequente percepção
de um agravamento da desigualdade econômica e social. Por outro lado, essa
aceleração em direção à estagnação e ao posterior crescimento negativo não há
de ser um fato negativo. Obviamente, os mercados de suprimento e de consumo, de
trabalho e outros já vivem a realidade demográfica verificada pelo IBGE. Sendo
mercados de produtos de movimentação relativamente rápida dispõem de agilidade
para reajustes rápidos. Já o mercado imobiliário, com produtos de longa
durabilidade precisa ficar atento para a evolução da demanda de seus produtos
ao lado do efeito eventualmente compensatório proporcionado pelo gradual
ingresso da população de menores recursos nesse mercado.
Em
princípio, uma população em crescimento mais lento não deverá constituir
problema para o mercado de trabalho, pois na outra ponta, o número de
consumidores também crescerá mais lentamente. A lei da oferta e procura
continuará regendo os mercados livres.
Como,
no entanto, o prazo para a inversão da dinâmica demográfica ficou sensivelmente
mais curto, esse momento deverá começar a ser levado em conta nos projetos de
longo prazo. Consequência direta, entretanto, da desaceleração de crescimento,
desembocando em posterior contração populacional, é uma concentração de renda a
partir de riquezas já existentes distribuídas entre cada vez menos herdeiros.
Por outro lado, uma taxa decrescente da fertilidade das mulheres da população
mais pobre é um fator facilitador de uma gradual saída da pobreza – um alerta
para um governo que pretenda subsidiar a população infantil da população mais
pobre.
A
perspectiva de longo prazo deverá ser algo como um país com a população em 2100
igual à de 2000, mas com patrimônio público e social atual, mais os aprimoramentos
técnicos e operacionais futuros. Uma bela perspectiva em todos os sentidos.
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