terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Oito Milhões a Menos

 

Oito Milhões a Menos.

 

(“Eight Million Less” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O Brasil viveu na maior parte da última década uma ilusão demográfica, conforme revela o resultado prévio do censo de 2022 realizado pelo IBGE. Realizam-se censos a cada 10 anos (o último, por questão de disponibilidade de verba, foi adiado em dois anos). De acordo com esses censos, a população brasileira era respectivamente de 169,6 milhões de habitantes em 2000, de 195,7 milhões em 2010, com aumento de 26,1 milhões de habitante, ou seja, de 15,4% (média de 1,5%/ano), e de 207,8 milhões em 2022, com aumento de 12,1 milhões, isso é, 6,2% (média de 0,5%/ano). Assim, depois de uma longa história de taxas expressivas de crescimento, a realidade demográfica brasileira mostra quedas nas mesmas, com reduções significativas – 15,4% entre 2000 e 2010, e 6,2% ente 2010 e 2022. E essa tendência deverá continuar. (Aliás, um fenômeno já a mais tempo observado em vários países ao redor do mundo.)

 

Obviamente, há situações regionais ou locais que apontam na direção oposta. Santa Catarina, por exemplo, registrou aumentos respectivos de 16,6 % para o período de 2000 a 2010, e de 24,2% para o de 2010 a 2022. Já o município de Luiz Eduardo Guimarães, Oeste da Bahia, conta com um aumento populacional de 108,3 mil habitantes em 2022 contra 18,3 no ano 2000, uma aumento de 591,8% (média de 26,0%/ano).  Mas isso significa, que outras regiões ou municípios podem situar-se bem abaixo das médias nacionais citadas.

 

É importante observar que nos anos entre dois censos, o IBGE realiza estimativas locais, cuja somatória resulta num cômputo nacional. Segundo tais estimativas, a população do Brasil seria de 216 milhões de pessoas em 2022. Com os dados preliminares do censo atual publicados, no entanto, o Brasil foi surpreendido com uma diferenças de cerca de oito milhões de habitantes a menos, o que, entre outras coisas, significa a antecipação do momento de estagnação populacional, originalmente prevista para meados da década de 2040, para o início de década de 2030.                  

 

Todos os planejamentos e projeções públicos são baseadas nos dados fornecidos pelo IBGE, seja de censos, seja de estimativas. No caso de uma diferença de oito milhões de habitantes, não importa a causa de tal discrepância, governo e entidades públicas precisam urgentemente revisar e reajustar seus programas, diferentemente da iniciativa privada, que reage rapidamente às mudanças dos mercados e redefine as necessárias estratégias. Uma população 4% menor do que oficialmente tomada como base exige o estabelecimento de novos parâmetros, especialmente no que se refere a investimentos futuros nas mais diversas áreas. De uma maneira geral, os ‘mais’, e ‘maiores’ poderão ser substituídos por ‘melhores’ – por exemplo, em vez da desnecessidade de mais espaço físico escolar, cabe um melhor ensino. A mudança da sociedades das quantidades para outra das qualidades.

 

Há efeitos estatísticos imediatos, como um aumento do PIB per capita e a consequente percepção de um agravamento da desigualdade econômica e social. Por outro lado, essa aceleração em direção à estagnação e ao posterior crescimento negativo não há de ser um fato negativo. Obviamente, os mercados de suprimento e de consumo, de trabalho e outros já vivem a realidade demográfica verificada pelo IBGE. Sendo mercados de produtos de movimentação relativamente rápida dispõem de agilidade para reajustes rápidos. Já o mercado imobiliário, com produtos de longa durabilidade precisa ficar atento para a evolução da demanda de seus produtos ao lado do efeito eventualmente compensatório proporcionado pelo gradual ingresso da população de menores recursos nesse mercado.

 

Em princípio, uma população em crescimento mais lento não deverá constituir problema para o mercado de trabalho, pois na outra ponta, o número de consumidores também crescerá mais lentamente. A lei da oferta e procura continuará regendo os mercados livres.

 

Como, no entanto, o prazo para a inversão da dinâmica demográfica ficou sensivelmente mais curto, esse momento deverá começar a ser levado em conta nos projetos de longo prazo. Consequência direta, entretanto, da desaceleração de crescimento, desembocando em posterior contração populacional, é uma concentração de renda a partir de riquezas já existentes distribuídas entre cada vez menos herdeiros. Por outro lado, uma taxa decrescente da fertilidade das mulheres da população mais pobre é um fator facilitador de uma gradual saída da pobreza – um alerta para um governo que pretenda subsidiar a população infantil da população mais pobre.  

 

A perspectiva de longo prazo deverá ser algo como um país com a população em 2100 igual à de 2000, mas com patrimônio público e social atual, mais os aprimoramentos técnicos e operacionais futuros. Uma bela perspectiva em todos os sentidos.

 

 

 

 

 

 

 

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