Limitarianismo
(“Limitarianism” - - This text is written in a
way to ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
O termo é amplamente
desconhecido, mas, em princípio, o limitarianismo questiona como o
estabelecimento de certos limites para os seres humanos pode levar a resultados
positivos e o conceito costuma ser usado em determinadas abordagens
filosóficas. Recentemente, porém, ganhou destaque no contexto socioeconômico.
Nessa esfera, a essência da questão é que bilionários ao redor do mundo estão
chegando à nada prosaica conclusão de que não deveriam existir bilionários. Mas
é bom lembrar que, embora sendo um argumento central do socialismo e que vem de
longa data, esse questionamento não parte de alguma esquerda política, mas de dentro
do cerne do capitalismo.
Os
últimos dois séculos trouxeram um fenômeno novo para nossa civilização: a
crescente concentração de riquezas em mãos de cidadãos comuns, fora da esfera aristocrática.
Ao lado das centenárias riquezas dinásticas começaram a surgir aquelas oriundas
de empreendedorismo, capacidade intelectual ou espírito inovador e desbravador.
O resultado foi a constituição, concentração e reprodução de capitais necessários
para fomentar o desenvolvimento de economias em rápido crescimento. Como atrás dessas
iniciativas havia pessoas, essas obviamente foram remuneradas com lucros correspondentes.
Na verdade, no sistema capitalista, a partir de um determinado nível de
riqueza, sua acumulação não é mais resultado de empenho do detentor, mas
simples efeito de reprodução do capital.
Por um
lado, justificando-se pelo próprio sistema capitalista, ressuscitaram por outro
os antigos questionamentos de cunho religioso da legitimidade e licitude social
e moral da riqueza de uns na presença de pobreza de outros, mas agora de ordem
política. E eles se tornam mais intensos e relevantes na medida em que a
desigualdade econômica e social está aumentando, embora não necessariamente por
um crescente empobrecimento na base da pirâmide de renda, mais sim, do
expressivo enriquecimento na sua ponta.
Como
atitude voluntária e meritória, a filantropia faz parte da nossa história. Por
exemplo, em 1521, Jakob Fugger inaugurou na cidade de Augsburg, Alemanha, uma
vila para abrigar famílias em situação econômica difícil. (Até hoje existem 150
moradias em três ruas de sobrados, servindo ao mesmo fim – com aluguel de 0,88 €
por ano.) É um caso notório, até pela duração
de sua existência, mas ele não é único. Sem entrar no mérito da razão, existem numerosos
exemplos da prática de filantropia, seja ela eventual, seja rotineira, e em
determinados casos, os montantes são expressivos. Porém, os resultados também,
quando confrontamos o que significa o desembolso de 100 mil para um bilionário,
e o que representa um ganho no mesmo valor para uma costureira ou um motoboy?
Numa
postura mais radical, por ocasião do Fórum Econômico de Davos 2023, um grupo de
mais de 200 super-ricos de vários países (nenhum brasileiro) está propondo outra
solução. Partindo da realidade de que riqueza adicional a partir de certo ponto
nada acrescenta porque ninguém, por exemplo, consegue viver em três iates ao
mesmo tempo, o grupo propõe um imposto de alguma maneira correspondente à parte
da riqueza impossível de ser usufruída, nem pelas próximas gerações, Diz parte
da proposta textualmente: “Bilionários e milionários viram
sua riqueza crescer em trilhões de dólares, enquanto o custo de uma vida
simples agora está paralisando famílias comuns em todo o mundo A solução é simples para todos verem. Vocês,
nossos representantes globais, devem tributar a nós, os ultra-ricos, e devem
começar agora. - É um investimento no nosso bem
comum e num futuro melhor que todos merecemos e, como milionários, queremos
fazer esse investimento.”
A fundamentação do grupo é simples: Desde 2020, a riqueza combinada dos bilionários aumentou
US$ 2,7 bilhões por dia (dados da Oxfam), e que o 1% mais rico da população mundial acumulou quase
dois terços de toda a riqueza mundial – seis vezes mais do que os 7,2 bilhões
de pessoas que compõem os 90% da restante população.
Tributação significa a disponibilização de recursos para redistribuição
de renda através de programas governamentais. Nesse sentido, a proposta, além
de surpreendente e louvável, não apenas terá efeitos sociais e econômicos mediante
da inclusão de segmentos populacionais na sociedade economicamente ativa, mas,
ao mesmo tempo, serve para aplainar arestas político-ideológicas.
Entre altos e baixos, a humanidade amadurece ao longo de sua
evolução, lenta, mas constantemente, e parece delinear-se mais um passo nessa
direção, lento, mas promissor.
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