sábado, 25 de março de 2023

A Lucidez Compromete - Ignorar ou Discernir

 

A Lucidez Compromete - Ignorar ou Discernir?

(“Lucidity Obliges - Ignoring or Discerning?” -- This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

‘Vivemos na era da informação, desde a informação corriqueira à mais complexa, da mais clara à mais obtusa, da mais inocente à mais interesseira, da mais consistente à mais enganosa, da mais verdadeira à mais mentirosa. Antes restritas a publicações, mídia escrita, falada ou televisiva, a informação pode hoje transitar através das mídias sociais de cidadão a cidadão, não importa onde se encontra em nosso planeta. Enquanto as bibliotecas se esvaziam, as fontes digitais de informações se multiplicam, e os meios de comunicação interpessoal são inesgotáveis. Qualquer um, pessoa física ou entidade, dispõe de maneiras digitais para propagar quaisquer notícias ou informações em qualquer direção, para qualquer destinatário, seja qual for a qualidade ou o caráter do material informativo –do luxo ao lixo.

 .               

Na outra ponta, o ‘informado’, bem ou mal informado, aquele que se torna consumidor de informação, eventualmente sendo consumidor e difusor ao mesmo tempo. Nesse universo, a grande maioria de informações é, de fato invasiva. São informações que, sem intenção de busca, aparecem e adentram seu mundo – e provocam sua reação.

 

A informação nos cerca hoje em dimensões qualitativas e quantitativas jamais imaginadas, e há consumidor para todas elas. Interessantes, importantes, consistentes e convincentes para uns, inócuas, insignificantes, triviais ou fúteis para outros. Notícias e informações, verdadeiras ou não, agradando a uns, e desagradando a outros, sempre encontram alguém que vê suas ideias ou convicções confirmadas. Até informações técnicas e científicas podem ser contrárias, conflitantes ou discutíveis, mormente quando se situam nas áreas sociais, políticas, ideológicas ou religiosas. E não podemos negar nas mídias sociais o caráter altamente invasivo do nosso espaço privativo.

   

Fazemos automaticamente uma pré-seleção conforme o título da informação, a fonte e o canal, canaliza a informação que agrada, que está em linha com conveniências e convicções, credos e crendices para o imediatamente aceito, ou, caso contrário, para a recusa.

 

 

É notório que nem todo e qualquer informação merece confiança ou é insuspeita, mas, muitas vezes, objetiva defender interesses de toda ordem, quando não procura desinformar ou conspirar. Daí, é preciso saber discernir entre o que merece crédito e o que deve ser visto com cautela. Isso não significa que o que parece suspeito deve imediatamente descartado. É preciso lembrar que o verdadeiro juízo só é possível ser feito conhecendo ambos os lados. O socialismo, por exemplo, não se explica sem o conhecimento do capitalismo.

 

Dessa maneira, fechar-se ao conhecimento do oposto, mesmo não sendo agrado, leva a um unilateralismo que seguramente não conduz a uma avaliação justa e satisfatória na busca da realidade e de uma resposta imparcial. Há quem, pelas mais diversas razões, do simples descrédito na própria capacidade de discernimento ao medo do enfrentamento de uma realidade detestada, simplesmente se exime, se subtrai da confrontação com o adverso, com a informação não desejada, não alinhada com certezas, e antagônica às convicções. É o encarceramento para a unilateralidade, a intolerância e o encolhimento de horizontes, em cela com janela gradeada.

 

Obviamente não é o caso de informações clara e comprovadamente falsas, enganosas ou mentirosas, mas, caso contrário talvez seja preciso uma certa dose de coragem civil e de disposição de mudar ou reformular pensamentos, alas um processo que, consciente ou inconscientemente acompanha toda nossa vida – é o “eu achava que...”. Não existe erro, salvo aquele no qual insistimos – até ter ânimo ou arrojo para corrigi-lo.

 

A conclusão, portanto, cristaliza a constante e indispensável necessidade de uma busca de informações pluralizadas em termos de linhas de pensamento ideológico, religioso etc., enfim, de visões de mundo. A cômoda fixação no habitual, eventualmente no convencional, cada vez mais entra em conflito com o dinamismo do mundo moderno, seja nos aspectos técnicos, seja nos sociais ou políticos, mas principalmente naqueles do conhecimento. Muda o mundo? É bom ficar de olho – talvez seja preciso reformular conceitos.   

 

Mas, afinal, quem diz que estou certo hoje, ou estarei amanhã?

 

 

 

 

 

quinta-feira, 9 de março de 2023

Energia

 

Energia

(“Energy” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

 

A força física do homem, como em todo mundo animal, é diretamente correspondente àquela necessária para garantir a obtenção de seu sustento e eventualmente de sua prole. Esta é uma lei da natureza desde os primórdios do homem. A força física era vital e qualquer deficiência que limitasse essa capacidade do indivíduo comprometia a sobrevivência do portador. E ela regia a vida humana durante centenas de milhares de anos, mais precisamente até o fim do homem coletor, caçador e pescador e do nomadismo.  

 

A fixação na terra e o agrupamento social abriu espaço para novas direções na criatividade, resultando no uso da força animal e na criação de ferramentas como, por exemplo, o arado, seja de madeira, seja de omoplata animal. No decorrer dos últimos poucos milênios, o homem aprendeu a aproveitar a força do vento e da água, mas também aquela do escravo, até desenvolver caga vez mais sofisticados sistemas de geração de energia como a nuclear e o aproveitamento da energia solar.

 

Hoje, geramos energia artificial empregada no forno elétrico na produção de aço e na escova de dentes elétrica, passando por veículos de toda sorte, de utensílios domésticos a telefones celulares, de iluminação e aquecimento a satélites e espaçonaves.

 

Mas o corpo humano moderno continua a gerar a mesma energia média de cerca de 230 Wh (0,23 kWh) do seu antepassado de milhares de anos atrás. O que mudou positiva e progressivamente ao longo de sua história foi sua inteligência. A busca por recursos energéticos acompanhou o conhecimento que levou à invenção de ferramentas, armas, instrumentos e máquinas que proporcionaram maior segurança alimentar, física e social, e, posteriormente, mais conforto, sofisticação e futilidade – com todos os aspectos negativos inerentes como o atual consumo desenfreado e desperdícios injustificáveis.

 

Hoje gastamos recursos naturais na geração de energia que movimenta máquinas agrícolas que produzem alimentos dos quais quarenta por cento não chega ao consumidor e acaba em latas de lixo, ou, especificamente no Brasil, em instalações de criação de gado e produção de carne cujo desperdício ao final equivale a 825 mil bois por ano. E se a produção de energia fosse mais fácil, compraríamos ainda mais camisas ou sapatos que ficam nos guarda-roupa sem jamais ser usadas.

 

Quando antes mencionamos o escravo como fonte energética, hoje nossos escravos e servos têm formato tecnológico. A explicação é simples: na somatória da energia elétrica e fóssil gerada e consumida em nosso país chegamos a cerca de 330 GW (Gigawatts) que divididos pela população de 208 milhões de pessoas resultam numa disponibilidade energética per capita de 1,64 kW/habitante. Isso corresponde à geração energética natural média de quase 7 pessoas o que significa que cada brasileiro tem, além de si mesmo, cerca de 7 escravos energéticos ‘caminhando’ num calcadouro (antigo tambor giratório acionado por pessoas andando em seu interior). Ou seja, 208 milhões de calcadouros com quase 1,7 bilhão de ‘operadores’ seriam necessários para acionar desde fornos siderúrgicos a escovas de dente elétricas, desde navios transatlânticos a geladeiras do mundo moderno. Na dimensão mundial, os atuais recursos energéticos equivalem a algo entre 60 e 70 bilhões de forças humana, de trabalho humano, na forma de água, raios solares, vento, ou matérias fósseis saindo de dentro da terra.

 

O que deve chamar nossa atenção é que apenas 43 % da matriz energética total (elétrica e fóssil) provém de fontes renováveis (hidráulicas, eólicas, solares, geotérmicas etc.); o resto são recursos energéticos de queima única de recursos naturais. Além de serem fontes energéticas poluentes em variados graus de severidade, trata-se de recursos limitados às reservas existentes em nosso planeta, portanto, esgotáveis.

 

Neste contexto, pouco ou nade se fala sobre a energia do solo na forma de nutrientes orgânicos renováveis, e anorgânicos não renováveis.  Em estado natural há uma constante renovação da flora garantida pelo ciclo de vida das plantas e o retorno de sua matéria para a terra. Quando, no entanto, houver um processo vegetativo acelerado ou intensivado como o encontramos na produção intensiva de produtos agrícolas (alimentares e energéticos), a fertilização e correção do solo torna-se indispensável. Especialmente no caso do Brasil com suas volumosas exportações de produtos agrícolas é preciso alertar que junto com os produtos exporta-se a fertilidade do nosso solo, mesmo levando em consideração que o país disponha de reservas de recursos naturais para fertilizantes químicos para os próximos cem anos.

 

O progresso da humanidade está diretamente ligado e dependente da disponibilidade energética. Que as futuras necessidades sejam cobertas por energias renováveis e limpas e os desperdícios disciplinados. Não há vida sem energia, e a médio e longo prazo nem com energia suja.     

 

       

 

 

 

 

 

domingo, 5 de março de 2023

A Caminho da Democracia Direta.

 

A Caminho da Democracia Direta.

(“On the Way to Direct Democracy.” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Eleições de chefe de estado em 2052. Não estarei mais aqui, mas posso imaginar que o voto sairá diretamente do celular, ou outro dispositivo digital de uma tecnologia hoje nem sonhada. Afinal, a evolução da TI das últimas décadas, e de IA recente não somente permitem, mas praticamente asseguram uma projeção dessa ordem. Mas isso serias apenas um aspecto da realidade política daquele momento futuro.

 

Muito, muito diferente das épocas iniciais da democracia da Grécia antiga na sua forma de democracia de assembleia. Ali, e então, a democracia ática é um precursor embrionário de uma ordem política baseada no princípio da soberania popular. Naquela ocasião desenvolveu-se um tipo constitucional que pode se tomar de modelo e experiência histórica nos esforços mais recentes em busca de regimes de política representativa, ou seja, de trespostas democráticas. A semente grega germinou durante um período relativamente curto para depois entrar em longa hibernação durante mais de dois milênios, para então desabrochar e produzir frutos de múltiplas colorações: da democracia autocrática (um contrassenso) e fictícia encontrada em alguns regimes autoritários, como na República Popular da China, à democracia direta encontrada na Suíça, talvez sendo a forma mais próxima de uma democracia ideal.

 

No formato suíço, ao contrário de uma democracia representativa, na qual os cidadãos elegem seus representantes que tomam decisões políticas em seu nome, na democracia direta (ou plebiscitária), as decisões políticas são tomadas diretamente pelo povo via plebiscito. O objetivo da democracia direta é traduzir a vontade do povo em decisões políticas de maneira tão autêntica quanto possível. Obviamente, condições específicas do país, como longa tradição democrática, padrões socioeconômico0s e culturais bem estabelecidos, estabilidade política, entre outros, garantem o sucesso desse sistema.

 

Entretanto, uma democracia direta absoluta é praticamente impossível diante da complexidade e a dinâmica evolutiva de amplo espectro das sociedades modernas. O que, por exemplo, se mostra viável numa pequena nação como a Suíça pode ser quase impraticável em outra com uma população de centenas de milhões de habitantes, emergente e em desenvolvimento econômico e social e permanentes ajustes político-administrativos. O que, porém, se mostra factível seria alguma forma híbrida entre democracia representativa e direta. Questões que afetam direitos e obrigações fundamentais do cidadão poderiam ser decididos por plebiscito, ou seja, por manifestação direta da vontade desse cidadão, como também casos de grande relevância – por exemplo, a mudança de regime presidencialista para o semi-presidencialismo, ou parlamentarismo. Essa prática ganharia especial legitimidade em nações com voto obrigatório. Se essa nova realidade aumentaria, por um lado, a identificação do indivíduo com a coisa política, por outra, reduziria a proeminência da figura do representante político.

 

O que não podemos ignorar é uma manifestação de democracia direta surgindo nos últimos anos nas ruas ao redor do mundo na forma de demonstrações espontâneas, embora nem sempre pacíficas. Se não constituem mecanismos der efeito legal, têm mostrado um poder de pressão cívica bastante grande e em alguns lugares conseguido atitudes ou mudanças fora ou contra as vontades do governo.    

 

Naturalmente haverá obstáculos importantes numa eventual transição de um regime de democracia representativa para a direta, mesmo no formato híbrido da semidireta, nem tanto na operacionalidade de um sistema plebiscitário, mas na própria vontade política. Uma barreira indubitável consistira nos cortes, nas amputações auto-impostas em suas atribuições por parte do congresso (melhor, dos congressistas), que teria de aprovar a transição. Todavia, uma transferência de parte do poder do congresso ao próprio cidadão seria extremamente salutar.

 

O mundo atual já dispõe de tecnologia e recursos de comunicação de extrema eficácia no que se refere a operacionalidade de plebiscitos, e o futuro promete enormes aprimoramentos possíveis primeiras práticas de democracia direta no futuro. Vivemos hoje – e muito mais no futuro – num mundo online e sem a presença física nos eventos dos quais participamos, proporcionando-nos uma liberdade espacial quase ilimitada. Nada mais obvio, portanto, que processos cívicos, como eleições e plebiscitos, deixarão de exigir a presença do cidadão na urna.

    

O que, evidentemente, falta erradicar neste momento é a eventual vulnerabilidade dos sistemas digitais a invasões e violações criminosas e, consequentemente, o fortalecimento da credibilidade nas tecnologias e suas capacidades. Creio que o avanço no campo da Inteligência Artificial ofereça soluções também para isso.

 

Mesmo com momentos difíceis, a democracia tem se fortalecida nas últimas décadas, como tem fortalecido o respeito pelo cidadão, mesmo que esse nem sempre tenha revelado maturidade cívica suficiente para respeitá-la.