Carro Popular – Uma Solução na Contramão?
(“Popular
Car – A Solution in the Opposite Direction?” - This text is written in a way to ease
comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
O automóvel, a benção
de um século, uma maldição para o futuro? Tudo indica que sim, pelo menos na
sua forma atual. O que começou como eficiência e conforto na locomoção
transformou-se em pesadelo de centros urbanos e autoestradas. Não apenas pelo
efeito nocivo ao meio ambiente pela queima de combustivos fósseis, mas também
pela quantidade de veículos em circulação.
O
primeiro aspecto existe plena consciência, e hoje existem iniciativas mundo
afora no sentido de abandonar a tração por combustão interna, diga combustíveis
fósseis, em prol do emprego de energias renováveis, pro enquanto concentradas
na elétrica. Em alguns países, como o Brasil, em fase de projeto, mas em
outros, especialmente a China, já em plena operação industrial. Todavia, é um
processo lento em função de fatores: primeiro em função das baterias no que se
refere a seu custo e capacidade de carga. Depois, mesmo com uma mudança das
linhas de produção de combustão interna para energia elétrica ao longo da
próxima década, a substituição da frota, segundo uma pesquisa de 2021, ocorre
na média com cerca de 10 anos de uso dos automóveis, podendo, no entanto, levar
por volta de 25 anos nos casos extremos (embora as duas coisas possam ocorrer,
em parte, simultaneamente).
Com
respeito ao tamanho da frota de automóveis (fora outros veículos motores), os
valores são expressivos, tanto os absolutos, quanto aos relativos. Em 2022, com
uma população de 207,5 milhões de habitantes, circularam no Brasil 60,5 milhões
de automóveis (115,1 milhões, somando todos os tipos de veículos). Isso
representa um carro por pouco mais que três habitantes (incluindo o bebê de uma
semana e a vovó de 90 anos). Na média, praticamente um carro para cada família num
país com cerca de 30% da população com renda abaixo de R$ 500 mensais, o que
corresponde à linha der pobreza. O que, entretanto, assusta é a rapidez dessa
evolução numa comparação com aqueles do ano 2000, quais sejam, 20,0 milhões de
automóveis para uma população de 175,0 milhões de habitantes. Isso significa
que em 22 anos a frota de automóveis em nossas ruas e estradas cresceu em 303%,
enquanto a população aumentou em somente 119%. Certamente é sinal de um aumento
de padrão econômico, no entanto, assusta pelas dimensões e dinâmicas –
mormente, as dinâmicas. – E há um fator pouco conhecido, mas de importância
nesse cenário: vários estudos detectaram que automóveis privados, em média,
estão parados em 95% do tempo.
Na
presença desses dois quadros, o governo federal está implantando medidas para
baratear automóveis da faixa de preços mais baixos, considerados populares – com
recursos dos cofres públicos. Obviamente, agradando a população sem quatro
rodas, mas também a indústria automobilística. Da mesma maneira, obviamente um gerador
de impostos diversos, mesmo amputados pelos descontos concedidos – mas também
obviamente em total desacordo com os governos municipais, crescentemente empenhados
em encontrar soluções para desafogar suas áreas urbanas do mar de veículos que
cada vez mais inviabiliza uma mobilidade minimamente satisfatória.
Há
décadas, cidades como Copenhague e Amsterdam, mas também Curitiba, tentam, com
sucesso, esvaziar os centros urbanos de todos os veículos, devolvendo-os ao
pedestre – e ciclista. Em contrapartida, temos centros de cidade absolutamente
inabitáveis, consequentemente inabitados, como São Paulo ou Porto Alegre entre
muitos outros.
Complementando
medidas restritivas dessa natureza, há tempo existem esforços públicos –
novamente Curitiba – no sentido de substituir o transporte individual, ocupando
um espaço médio de aproximadamente 7 m2 para transportar, na maioria
das vezes, uma só pessoa, pelo coletivo, reduzindo esse espaço por pessoa para
cerca de 2 m2, além de reduzir a queima de combustíveis, a
consequente poluição ambiental, o nível de ruído, perdas in[uteis de tempo em
trânsitos conjestionados e a incidência de acidentes.
Da mesma
forma, observa-se uma concentração de empenho no desenvolvimento de ciclovias,
no caso brasileiro uma opção beneficiada com a ausência de invernos mais
severos que dificultam essa opção de locomoção.
São todas
ações que exigem implantação ou adaptação e infraestruturas, em geral de
competência municipal, por conseguinte numa esfera de recursos escassos – ou
inexistentes. A conclusão, portanto, é evidente e indiscutível. Colocar mais
automóveis nas ruas contraria frontalmente todos os esforços e afinco em busca
de devolver a cidade ao cidadão, de tornar mais humano no cotidiano das
pessoas. Então, o dinheiro gasto em descontos para a aquisição de automóveis
não estaria melhor empregado no ganho de maior qualidade de vida?
Populismos
de momento em vez de urbanismo de futuro?
Não sou contra as ações do governo para facilitar o acesso dos menos favorecidos ao transporte privado e individual.
ResponderExcluirMas se facilidades são implementadas na aquisição de veículos obviamente que a estrutura urbana tem que ser compatível com tal processo.
A título de comparação é como morador de Curitiba posso afirmar que por aqui a malha urbana de transporte muito pouco ou quase nada mudou nos últimos 30 anos. Paralelamente, o caso de Santiago, no Chile, é exatamente o oposto. Viadutos, túneis, trincheiras e elevados facilitam enormemente o tráfego na cidade, onde pouquíssimos pontos de lentidão são observados. A diferença? Investimentos públicos na área de transportes. Lembrando que o país vizinho não é um grande exemplo de desenvolvimento econômico, ambiental e social.