sábado, 1 de julho de 2023

Censo 2022

 

Censo 2022

(“Census 2022” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O crescimento, em todos os sentidos, incorporou-se na genética humana. Especialmente os últimos séculos foram marcados pelo ânimo, senão a obsessão do crescimento: aumento de riqueza, aumento de poder, aumento de importância, tudo isso no ambiente pessoal, mas igualmente na esfera coletiva. Ser numeroso tornou-se poder político, econômico e bélico de uma sociedade, orgulho nacional. O sempre mais, os números crescentes são uma meta fixa na nossa civilização. O menos significa fracasso e perda em qualquer plano.

 

Enquanto populações crescentes, uma força de trabalho mais poderosa, mais alunos nas escolas para um futuro maior, prédios maiores em cidades maiores nós dão a sensação de sucesso, a perspectiva do menos gera desconforto, gera dúvida, gera receio de carência.

 

No entanto, estamos diante de um futuro com sinal negativo na demografia conforme revela o censo de 2022. O Brasil apresenta atualmente um crescimento populacional anual de apenas 0,52%. Mas esse aumento tem uma única causa, a constante elevação da expectativa de vida. As pessoas vivem mais e permanecem mais tempo nas estatísticas. Focando a outra ponta da população, registramos um crescimento negativo desde a virada do milênio, quando a taxa de fertilidade da mulher brasileira, em declínio desde os aos de 1960, começou a cair para abaixo de 2,1 filho, índice crítico a partir do qual não há mais reposição da população.

 

Se desde aquele momento, a taxa de fertilidade (hoje de 1,6 filho por mulher) tivesse se mantido constante em 2,1 filhos, a população atual, em vez de 203 milhões de brasileiros, seria de 236 milhões. Isso significa que já acumulamos um déficit de pessoas até 23 anos de 33 milhões de habitantes.

 

Essencialmente resultado de um fato em si positivo, a emancipação da mulher, os efeitos – irreversíveis no médio prazo – apontam em várias direções. Se por um lado existe a ameaça da perda do bônus demográfico (população produtiva maior que a improdutiva formada por menores de idade e idosos) com previsíveis problemas de custeio das estruturas assistenciais, por outro haverá uma crescente desnecessidade de investimentos em infraestrutura – menos escolas, menor custo com saúde pública, administração pública, transporte público etc., mas também menor consumo de energia, de bens – de camisetas e alimentos a automóveis e moradias (incluindo suas matérias primas) – e de serviços.

 

O Brasil não é um caso isolado, outros países, especialmente europeus e asiáticos vivem a mesma realidade. A diferença é que na maioria deles, diferentemente do Brasil, esse processo iniciou quando já se encontravam em situação econômica bastante próspera. Isso, obviamente, é uma vantagem sob o aspecto da concentração de renda através da transmissão intergerações de patrimônio (gerações menores herdam patrimônios – públicos e privados – de seus antecedentes mais numerosos).

 

Diferentemente das nações com desenvolvimento de ponta, há no caso brasileiro uma expressiva reserva de patrimônio: uma substancial parcela da população apenas parcialmente – se tanto – integrada ativamente na economia do país. A riqueza de uma sociedade é produzida por seus membros, desde que esses estejam devidamente qualificados. E aqui se encontra a resposta a eventuais pessimismos oriundos do mencionado encolhimento demográfico: a integração de um potencial humanos de cerca de um quinto da população no contingente produtivo da nação através de qualificação para o moderno mercado de trabalho. Em outras palavras: educação, mas educação de qualidade. Essa parece ser a única saída salutar para superar os efeitos preocupantes decorrentes de uma futura perda do bônus demográfica – desde que iniciada imediatamente.

 

Sem dúvida, a nova dinâmica demográfica exigirá uma revisão de prioridades, tanto na esfera pública, quanto nos diversos setores da economia, bem como nos aspectos sociais de um povo multicultural. A pergunta que se impõe: como será a vida de uma população dos anos 1990 ou 80 com a infraestrutura e tecnologia do século 21? Certamente não será um mundo de perdas ou privações.  

                

 

 

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