quarta-feira, 18 de outubro de 2023

De Repente...

 

De Repente...

(“Suddenly...” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Bem, talvez nem tão de repente. Decisões em regimes autocráticos costumam ter concretizações bastante rígidas. Não existe muito espaço para discussões e as medidas e resultados são bastante imediatas. Isso não precisa significar que as resoluções e determinações continuem corretas e acertadas no médio e longo prazo.

 

Realidades distintas, disposições diferentes. Enquanto uma Alemanha nacional-socialista clamava por espaço territorial, dando origem à uma guerra histórica, poucas décadas depois uma China socialista, vendo-se afogada numa população sem espaço arável, proclama a política do filho único. São soluções que regimes totalitários não apenas enxergam como realistas, mas também conseguem levar para o mundo dos fatos sem dificuldade.

 

E os resultados? A guerra da Alemanha foi perdida e o país sofreu uma perda territorial. Já na China... Depois do período do Grande Salto para a Frente, com taxas de crescimento populacional de até 2,7% ao ano, se viu a solução na imposição da política do filho único, sem dúvida, uma medida radical num Estado disposto a não facilitar flexibilizações. Esse passou a ser o padrão familiar durante décadas, não sem aberrações da eliminação de milhões de vidas femininas e um atual desequilíbrio de gêneros. Estima-se que no período de vigor da política do filho único cerca de 400 milhões de filhos foram 'evitados'. Projeções demográficas mais recentes, na presença de uma situação econômica favorável, levaram a revisões da polícia original, permitindo a partir de 2016 dois filhos por casal, e três filhos desde 2021.

 

Então, de repente e muito antes das projeções oficiais, enquanto a população crescia ainda 0,22% em 2020, encolheu em 2022 pela primeira vez em seis décadas. No final do ano, o país mais populoso do mundo tinha 1,411 bilhão de habitantes, cerca de 850 mil a menos do que um ano antes (dados do Escritório de Estatística de Pequim; projeções inoficiais são ainda mais negativas). Em outras palavras, no ano passado, pela primeira vez na história da República Popular, o número de nascimentos ficou abaixo de 10 milhões. Apenas 9,56 milhões de bebês nasceram, enquanto 10,41 milhões de pessoas morreram. Resulta daí um crescimento populacional de menos 0,06%.

 

Diante disso, especialistas falam em um "ponto de inflexão" na história da China e alertam para as consequências devastadoras de uma crise populacional "inimaginável". As consequências dessa inversão são claras. Diversas análises recentes do perfil etário (pirâmide etária) concluem que as perspectivas demográficas, econômicas e sociais da China parecem bastante sombrias. Tudo indica uma contração com a necessidade de mudanças importantes para as políticas sociais e conjunturais.

 

Igual a outros países de desenvolvimento econômico mais recente, incluindo o Brasil, a China não conseguiu tirar vantagem de um “bônus demográfico”, ou seja, um período mais longo de população ativa maior que a inativa (jovens e idoso), e no qual as riquezas e os patrimônios dos países economicamente fortes foram construídos. Isso significa um futuro preocupante diante do crescimento da população idosa sem, na outra ponta, haver uma reposição populacional (pelo menos) na mesma proporção. E, no caso da China e de outros países, uma diminuição da força de trabalho já está começando a se fazer presente.

 

Com exceção do continente africano, observa-se uma tendência global em direção ao crescimento populacional zero ou negativo. As razões são conhecidas: emancipação da mulher, anticonceptivos eficazes, além de uma sociedade cujos filhos implicam em disponibilidade de recursos cada vez maiores. E na China, todo o estilo de vida da nação ajustou-se a essa realidade demográfica. Apenas um exemplo: décadas de mini-famílias geraram um padrão de moradia que simplesmente não consegue acomodar famílias com mais filhos.

 

A diminuição de filhos é um processo espontâneo e mais ou menos lento nos mais diversos países e, respeitando as respectivas particularidades socioeconômicas, não há respostas prontas para adequar-se a ele. Na China, no entanto, existe ainda o agravamento de sua já longa política populacional limitadora. Ter apenas um filho é hoje a norma social, uma tradição, nesse país. Duas gerações nunca experimentaram outra realidade familiar, hoje profundamente enraizada na sociedade.        

 

De repente... percebe-se claramente que a China, e por tabela o mundo todo, tem um problema muito sério a enfrentar, um problema que não tem receita pronta. Mas, certamente, o governo chinês está atento para a situação. E já há outra surpresa demográfica apontando no horizonte, hoje com o maior aumento do PIB no mundo, com 6,6% - a Índia.        

 

 

 

 

 

 

 

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