sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Guerras sem Vencedores - Apenas Perdedores

 

Guerras sem Vencedores – Apenas Perdedores

Wars without Winners – Only Losers - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Conflitos armados e guerras são parte inerente da história da humanidade. Por absurdo que possa parecer, as guerras constituem elemento da nossa cultura. Militares são parte indispensável da sociedade. Guerras constituíram nações e destruíram nações. Evoluíram as armas da beduína à arma nuclear, e evoluíram as estratégias do combate corpo a corpo ao digital, mas a essência permanece na destruição do opositor ou inimigo.

 

As causas e origens das guerras são as meais diversas, indo de questões culturais e religiosas, aspectos econômicos e políticos a meramente ideológicos ou militares. Muitas vezes há a conjunção de várias causas. Em determinados momentos, simples questões sucessórias em regimes imperiais resultaram em longos e sangrentos conflitos bélicos. E relações políticas e econômicas mal resolvidas em âmbito internacional conseguiam levar a situações esdrúxulas em que três primos, o kaiser alemão, o tzar russo e o rei da Inglaterra se confrontaram numa das mais sangrentas guerras na história da humanidade – a Primeira Guerra Mundial.

 

Essa, e a Segunda Guerra Mundial foram provavelmente as guerras mais devastadoras do passado. Mas guerras como a Guerra do Vietnã, as Guerras Napoleônicas (século XIX) ou a Guerra dos Trinta Anos (século XVII) também deixaram milhões de mortes. Para termos uma ideia das perdas humanas causadas por guerras basta somar as estimativas – melhores e piores – somente das 10 maiores guerras, entre a expansão mongol no século XIII e a Segunda Guerra Mundial, resultando num balanço entre 230 e 560 milhões de mortos.

 

O que, todavia, surpreende é o fato de que o imenso Império Romano acabou encolhendo para os territórios italianos de onde se originou, expansões mongóis se esfacelaram em numerosas etnias e nações, o império napoleônico retornou às dimensões da atual França, o território alemão até encolheu em relação ao que era antes da Segunda Guerra Mundial. Na mesma linha, impérios coloniais portugueses, espanhóis, britânicos, franceses, alemães e belgas, entre outros, decorrentes de ocupações bélicas nas Américas, na África e Ásia não se sustentaram ao longo dos séculos deram origem a novas nações ou à reconstituição ou a reagrupamentos de sociedades de longos enraizamentos étnicos e culturais e de antigas identidades.

 

Houve nas últimas décadas conflitos de menores proporções e visibilidade no panorama mundial, da Coreia e do Vietnam à Tchetchênia e o Sudão, algumas de cunho ideológico, outras ‘terceirizadas’ no interesse e num jogo de forças das principais potências econômicas – e militares. Foram conflitos sem efeitos políticos econômicos significativos em dimensões globais. Ao mesmo tempo, uma Europa de três gerações sem guerras foi um absoluto novum – e razão suficiente para esperanças de uma sólida e permanente paz no continente mais conflituoso da história humana, esperanças de “guerras nunca mais”.

 

Por outro lado e de uma maneira geral, os conflitos armados e as guerras mais recentes não resultaram em ganhos territoriais ou a conquista permanente de recursos. Ultimamente, a vitória de uma guerra consiste num acordo vantajoso – e a derrota, no contrário. A tradicional figura de um tratado de paz, com condições definitivas de coexistência pacífica, praticamente deixou de existir – até hoje não existe um tratado dessa natureza em relação à Segunda Guerra Mundial. 

 

São acordos de cessação de atividades bélicas, negociados em base de interesses e vantagens primordialmente – se não exclusivamente – econômicas. Eventuais aspectos culturais, religiosos étnicos, como na Irlanda do Norte ou no Mundo Árabe são de segunda ordem. Desde já, a evolução das guerras em curso a Ucrânia e entre Palestina e Israel parecem não resultar em significativas mudanças territoriais, mas em possivelmente demorados acordos.        

 

De fato, vários estudos revelam que o mundo nunca foi tão pacífico como hoje. Em comparação com as experiências de violência de TODAS as gerações anteriores a nós, a violência está clara e constantemente diminuindo. Não só a violência organizada da guerra, mas também a violência cotidiana entre as pessoas. Todas as maneiras pelas quais as pessoas prejudicam ou matam outras pessoas encontram-se em declínio na grande maioria de todos os países e regiões.

 

Será que, enfim, tornamo-nos mais civilizados ao buscar soluções pacíficas e consensos de interesses de maior duração? Embora milhares de pessoas precisem morrer antes de acordos serem atingidos! Na verdade, nada nos garante que jamais haverá paz completa e eterna. Porém, parece que a paz pode torna-se um jogo de preferência onde a guerra passa a ter cartas piores (as guerras nunca foram tão caras, e as armas nucleares acabam por transformar a guerra em aniquilação total, sem qualquer aspecto de triunfo). Talvez, de forma paradoxal, os atuais surtos de violência possam estabilizar a paz que parece estar evoluindo lentamente, com eventuais terríveis retrocessos, mas inexoravelmente fora da coalescência do mundo.

 

Guerras, conflitos e violências nascem nas cabeças de pessoas, por isso, é ali que a paz deve ser semeada.

 

 

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