sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O Futuro num Beco sem Saída?

 

O Futuro Num Beco Sem Saída?

 

(“The Future at a Dead End?¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Futuro e esperança são inseparáveis, e esperança por coisas melhores, ás vezes temperadas com temores. Incerteza e medo também andam de mãos dadas. Nem sempre, porém, o futuro da humanidade mostrou grande dinamismo. O futuro era uma simples repetição de ciclos de vida, essencialmente o amanhã igual ao ontem e ao hoje, apenas com novos atores no prazo mais longo. Durante centenas de milhares de anos o passado, o presente e o futuro se limitava a procurar e consumir alimento e dormir. Então, a fixação na terra inseriu novos aspectos no futuro das pessoas, como a observação das estações do ano, ou o preparo de ferramentais para cultivar o solo. Finalmente, a revolução energética de industrial também resultou numa revolução de futuros.   

 

Inovações e descobertas impulsionaram novas dimensões e perspectivas de futuro em espaços de tempo cada vez menores, e de intensidade crescente. O futuro de ontem, não é mais o futuro de hoje. Já com a revolução digital, o futuro passou da perspectiva para a surpresa, para o inimaginável. E a inteligência artificial? Ainda haverá espaço para pensar ou delinear um futuro?

 

Contar com o futuro? O que era quase certo para um futuro de ontem, passou a ser apenas provável, e hoje cada vez mais remotamente possível. O futuro ponderável e razoavelmente certo tem prazos cada vez mais curtos, as projeções com certo grau de garantia exigem revisões mais frequentes e os riscos de disposições erradas aumentam perigosamente. 

 

O futuro sempre foi, e continua sendo, um enigma, menos para videntes e oráculos. Algo, porém, mudou. Todo futuro tem um presente, e teve um passado. E sabidamente vivemos presentes cada vez mais dinâmicos, mais agitados. Novas informações, nem sempre resultando em sabedoria, novos ingredientes e condicionantes do cotidiano influem em nossas perspectivas e projeções, em nossas apostas no futuro.

 

A dinâmica dos avanços tecnológicos aumenta, sem dúvida, nossas imaginações e nossos sonhos, por outro lado, estreita a janela das probabilidades de um futuro certo. E a tendência é que probabilidades razoáveis cada vez mais se reduzam a possibilidades duvidosas. A previsibilidade torna-se gradualmente mais limitada no tempo. Resultaram daí diversos casos notórios, em que até grandes empresas perderam somas imensas em decorrência de avaliações errôneas relativas a estratégias futuras.

 

Nosso amanhã dependerá cada vez mais do nosso futuro tecnológico. A humanidade não mais consegue sobreviver diretamente dos recursos que nosso plante nos oferece. Sem energia extra-humana e infindáveis processos de extração, produção, transformação e logística, envolvendo algum grau de tecnologia, a vida humana é hoje inimaginável – salvo para alguns povos indígenas.                                

 

O avanço tecnológico é um processo auto-impulsivo, aparentemente inexorável. Cada conhecimento adquirido e transformado em tecnologia gera novos conhecimentos. Até quando? Ainda não conseguimos imaginar a extensão dos efeitos, produtos e resultados a inteligência artificial, ainda em trabalho de parto. Mas temos certeza que haverá um algo depois. Amanhã? Ano que vem? A grande questão é: a expansão do conhecimento nunca nos abandonou, mas, ela é ilimitada? Ela acabará no domínio da gravidade, nas leis do cosmo? Quando a armadura de tecnologias sobre corpo humano cada vez mais vulnerável se tornará insuportável ou insustentável?

 

Até aqui, nosso passado tem nos assegurado uma visão e uma postura de absoluto otimismo no amanhã, no entanto, o futuro tem suas próprias leis. Por enquanto, na Terra, quem sabe, no futuro além desses limites. Um novo futuro, talvez diferente em si, nas estrelas? Antes, porém, o homem terá de resolver seus problemas terrestres.

 

Por fim, o futuro demográfico. E este prevê que até a metade do século, cerca de um terço de todos países apresentará uma redução populacional de, pelo menos, 1%. É um futuro inédito na história da humanidade com consequências altamente imprevisíveis, um futuro absolutamente incerto em muitos aspectos. Tudo indica que diante dessa nova conjuntura demográfica, o mundo não escapará da obrigação de redefinir suas condições de vida neste nosso planeta, bem como suas visões para um novo futuro. Talvez será uma marcha a ré para sair de um beco sem saída e encontrar um novo rumo para o amanhã, talvez será um lance de sorte.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 23 de dezembro de 2023

Natal, 1944

 

Natal, 1944

(“Christmas, 1944” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

Extraído das minhas memórias ‘Simplesmente Eu’.

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Parta fins de contextualização, encontramo-nos em dezembro de 1944, na cidade de Breslau, hoje Wroclaw, Polônia, uma cidade ainda relativamente intacta, mesmo a cerca de dois meses antes de ser cercada pelo Exército Vermelho. Na época, eu tinha nove anos e minha irmã, onze, e, já como ginasiana, tinha sido evacuada para uma localidade no interior da Silésia numa operação de proteção contra bombardeios, e chegou poucos dias antes do Natal. Moravam conosco também minha avó e minha tia, que tinham perdido sua moradia num bombardeio.

 

“Minhas lembranças a esse ambiente são especialmente nítidas com relação ao tempo de Natal. Pouco depois da visita do Nicolau no dia 6 de dezembro, que regularmente ameaçava de colocar-me dentro do grande saco que carregava nas costas – eu, certamente, não era nenhum anjo, mas mesmo assim, ele acabava por deixar guloseimas –, as portas do hall de entrada e da sala de jantar, ambas de vidro fosco, que levavam para a sala de estar e a biblioteca de Vati (meu pai), eram fechadas e para nós crianças só restava adivinhar e imaginar o que estava acontecendo lá dentro. Os preparativos do ambiente natalino eram feitos prazerosamente por Mutti (minha mãe) sem a participação de nós crianças, suponho, em horas noturnas quando já estávamos dormindo. Nem víamos o pinheirinho chegar. Apenas achávamos poder enxergar alguma coisa através do vidro fosco das portas. Os sonhos viajavam longe e as expectativas eram imensas. Um ou dois dias antes do Natal, Vati chegava do front na França então para curtas férias anuais em casa e que provavelmente coincidiam com essa data em função da sua alta patente militar. Na noite de Natal, depois de abertas as portas para a sala de estar, um pinheiro que quase tocava o teto, cheio de vela acesas, ‘lametta’ (longas e finas tiras prateadas), bolas de vidro coloridas, doces e outros enfeites, encantou o ambiente. Iniciava-se então o ritual com declamações de versos natalinos por nós crianças, duas ou três canções de Natal eram cantadas por todos, acompanhadas com nossas flautas doces e, finalmente, a entrega dos presentes. Felicidade pura!

 

Para mim, esses presentes consistiam essencialmente de muitos soldadinhos e equipamentos militares em miniatura como tanques, caminhões, veículos leves, canhões, cozinha de campanha e outros mais, complementando todo o arsenal que eu já póssuia. No decorrer dos anos formou-se uma bela coleção de combatentes e materiais bélicos, da qual inclusive fazia parte uma limusine preta, aberta, na qual, em pé, Hitler cumprimentava suas tropas. Nesse último Natal da guerra somou-se a essa coleção uma lindíssima réplica em miniatura do avião Stuka, o bombardeiro de mergulho Ju 87, cujas peças essenciais eram desmontáveis. Terminada a distribuição dos presentes, pai e filho, nessa única ocasião de convivência anual, estavam deitados durante horas sobre o tapete da sala em frente à árvore de natal, montando cenários e formações bélicas. Naquele tempo, com certeza não era a única casa a produzir uma cena natalina tão controversa, mas era uma realidade da época.

Minha irmã teve atendida seu pedido de Natal com o exclamo “Oma, um violoncelo!” Esse violoncelo acompanhou-a de volta ao retiro escolar em Oels, de onde ela o trouxe de volta num trem de fugitivos do leste da Silésia, para depois abandoná-lo definitivamente no dia seguinte, quando deixamos o nosso apartamento – para nunca mais voltar. – Consegui levar o Stuka, que foi enterrado na neve pouco antes do exército russo nos alcançar.”

 

Por mais que minha mãe tentasse manter clima natalino nos anos seguintes, meus Natais de criança despreocupada e alheio aos problemas existenciais tinham acabado.

 

domingo, 10 de dezembro de 2023

Demografia e Globalização (2)

 

Demografia e Globalização (2)

 

(“Demography and Globalization [2]” This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A virada demográfica é um fato real e inquestionável, causada pelo próprio ser humano a parir das condições civilizatórias e existenciais que ele mesmo criou. Isso, naturalmente, com efeitos sobre as estruturas sociais e econômicas – principalmente – que o homem desenvolveu ao longo de sua história. E o planeta torce para que continue assim.   

 

Com a globalização – mais vantajosa para uns do que para outros – seriamente comprometida, as economias dos diversos países tenderão a ganhar cada vez mais caráter e identidade nacional. A globalização nos mercados de consumo, salvo produtos de primeira necessidade indisponíveis no mercado interno, estará definitivamente destinada à sua extinção. Diferente é a situação de commodities, em geral desigualmente disponíveis ao redor do mundo. Surgem daí naturalmente dependências internacionais, às vezes mútuas. Esse mercado, portanto, continuará forte e firme. Para outros mercados, com o estabelecimento e fortalecimento dessas novas realidades econômicas, com o passar do tempo poderão começar a surgir novos acordos bi e multinacionais, obviamente com novos interesses, parâmetros e configurações.

 

De uma maneira geral, os mercados serão mercados extremamente estáticos. Já o transporte internacional, por exemplo, sofrerá importantes perdas no volume de bens de consumo final.

 

Na medida em que a população diminui, as estruturas políticas, econômicas e sociais tenderão a se ajustar e acomodar dentro de novos parâmetros condicionantes. Uma vez que se trata de mudanças lentas e graduais, as essências de vida deverão continuar largamente imutáveis, da mesma maneira como os valores culturais deverão ser pouco influenciados por meras mudanças numéricas de seus detentores. Em termos práticos, eis um exemplo: automóveis de tecnologia atual, ou futura, em estradas atuais, ou futuras, com densidade de tráfego dos anos de 1980. Caraterísticas fundamentais de cada sociedade – por exemplo, a mentalidade de um povo – poderão determinar diferentes maneiras de lidar com as mudanças, obviamente com resultados diferentes. Sociedades ricas possivelmente reagirão diferentemente das menos prósperas.                           

 

Tudo isso, no entanto, não mudará o curso demográfico acompanhado de adaptações e ajustes sociais, econômicos e culturais, mas também familiares. A tendência demográfica será o registro de taxas de fertilidade cada vez menores, ou seja, cada vez mais abaixo daquela de reposição populacional (2 filhos por mulher) e em cada vez mais países. Em outras palavras, teremos um contínuo e progressivo encolhimento de boa parte das populações nacionais, e o ingresso de sempre mais países nesse grupo.

 

Na permanência das atuais condições estruturais da família, tanto sociais quanto econômicas, não há mínimas chances de uma mudança geral na atual dinâmica demográfica. É importante notar que nesse cenário trata-se de um fenômeno que contraria as leis da natureza no que se refere à procriação natural e irrestrita. É um quadro que decorre de uma complexidade existencial cada vez maior e da busca de uma vida mais ‘confortável’, não sem uma boa dose de egoísmo. Portanto, não estamos lidando com um capricho da natureza, mas com comportamento humano, passado e atual.   

 

De absolutamente positivo resulta daí um vagaroso, mas progressivo aumento de espaço vital individual e público com todos os seus desdobramentos. Naturalmente com significativas consequências em todas as facetas econômicas, dos mercados de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, de trabalho, de commodities e financeiros às próprias concepções micro e macroeconômicas. Tudo isso na concomitância de um contínuo avanço nos mais diversos campos tecnológicos, de recursos energéticas à computação quântica e inteligência artificial.

 

No entanto, é improvável que estejamos num caminho sem retorno, numa rota irreversível em direção à extinção da espécie humana. A pergunta é: quando e como teremos uma nova inversão demográfica com crescimento positivo? Em decorrência das mudanças mencionadas e seus prováveis efeitos, haverá lentas, inexoráveis e sensíveis mudanças no estilo de vida das pessoas e das coletividades. E possivelmente será esse novo estilo de vida e a experiência de superpopulação vivida por gerações no passado o berço de uma volta a estabilidade demográfica, ou um sadio crescimento populacional.

 

Se o mundo econômico voltará a buscar uma globalização nos moldes conhecidos ou em forma parecida está escrito nas estrelas, mas certamente aprendeu que alguma concepção dessa ordem requer um mundo em paz.

 

Conclusão: Este texto contém apenas projeções a partir de um processo demográfico já em curso. Haverá surpresas? Certamente que sim. O que, todavia, é importante que, especialmente nas sociedades já envolvidas nessa mudança demográfica, os poderes públicos, em todos os níveis, se inteirem desde já dessas realidades, seus efeitos e suas projeções, e as considerem em seus planos – negá-las seria desastroso. Ignorar as dinâmicas demográficas em curso, e por vir, poderá gerar problemas enormes e custos elevados irresponsáveis e perfeitamente evitáveis.

 

 

sábado, 9 de dezembro de 2023

Demografia e Globalização (1)

 

Demografia e Globalização (1)

 

(“Demography and Globalization [1]” This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Desde a virada do milênio, quando a taxa de fertilidade da mulher brasileira caiu para menos de dois filhos, o Brasil sofre um déficit crescente na reposição de sua população. Outros 10% de países do mundo já se encontram na mesma situação, e outros tantos estão se aproximando do mesmo panorama. Ao mesmo tempo, observam-se crescimentos populacionais unicamente decorrentes de um aumento geral da expectativa de vida. É um fenômeno em constante progressão, tanto temporal, quanto territorial, devendo alcançar dimensão global no início da segunda metade do século. 

 

            No caso específico brasileiro, hoje, a população abaixo de 24 anos já está desproporcionalmente representada no total da população, com agravamento na medida em que observamos faixas etárias mais jovens. Mas há países onde o déficit de reposição populacional já está muito mais avançado, Canadá e Japão, por exemplo, há mais de 50 anos.

 

Os reflexos econômicos desse quadro já começam a manifestar-se no mercado de fraldas e chupetas, mais tarde no número de frequentadores de creches e escolas, e chegará o momento em que toda a conjuntura de consumo passa a ser afetada, de alimentos a imóveis.

 

As consequências dessa inversão na dinâmica demográfica são impossíveis de serem previstas em toda sua extensão. Mas, os efeitos da lei de oferta e procura são inflexíveis sob qualquer dinâmica demográfica. E o futuro nos impõe a necessidade de saber lidar com tais consequências, cada sociedade de acordo com suas particularidades socioeconômicas. Estímulos governamentais para famílias mais numerosas, onde tentados, não têm produzido as reações esperadas.

 

Num primeiro momento, os reflexos dessa retração populacional têm dimensões microeconômicas. Por um lado, produtos especificamente destinados a consumidores nascidos desde o início dessa retração tem sua demanda reduzida, como artigos para bebês, depois para crianças, então adolescentes, e finalmente chegando aos mercados do cidadão adulto, na gama total de bens e serviços.

 

Se, por outro lado, o mercado de trabalho será afetado na mesma proporção dependerá do avanço tecnológico como, por exemplo, a inteligência artificial, e seu potencial de liberação de mão de obra na produção de bens e serviços.

 

Mais cedo ou mais tarde, com a população diminuindo e como respostas com caráter de proteção da economia nacional, serão estabelecidas medidas restritivas às importações. No foco entrarão inicialmente bens de consumo final em segmentos como, por exemplo, têxteis, utensílios domésticos, brinquedos, cosméticos etc. na busca de preservar as produções domésticas. Obviamente, comprometendo a contrapartida de exportação em acordos bi, ou multilaterais – com previsíveis efeitos desastroso para países como China, Correa do Sul, Bangladesh, entre outros. O objetivo será um máximo possível de produção interna e autonomia nacional com um mínimo de dependência de produtos de consumo do exterior. Um duro golpe no ideário da globalização.

 

Esse tipo de política de nacionalização, no entanto, terá suas consequências: além do desestímulo causado pela ausência de concorrência estrangeira em aprimorar qualidade e nível de tecnologia, haverá o risco de preços destemidos na falta de competidores externos.

 

Nesse conjunto de estratégias macroeconômicas, o Brasil encontra-se numa posição privilegiada. Como exportador de produtos agropecuários, especialmente em natura, e outras commodities, o país se tornará indispensável para outros países carentes desses bens – passará a ser detentor de ‘moeda forte’ num mercado cada vez mais dete5rminado por necessidades.  Produtos primários que historicamente foram considerados um atraso econômico passarão a ser um aspecto vantajoso.

 

Num momento posterior nas mesmas circunstâncias demográficas, seguindo estratégias mais amplas de proteção da economia doméstica, os países que abrigam produtores de marcas mundiais, por exemplo a indústria automotiva, procurarão a extinção de estabelecimentos no exterior, uma vez para fortalecer a produção interna, por outra, para fortalecer suas exportações e ganhar capacidade de importar commodities sem ´prejuízo no balanço de comércio exterior. Assim, com a repatriação de unidades empresariais se resolveriam questões domésticas, tanto de desemprego, como a necessidade de geração de divisas.

 

Muitos países, que praticamente não possuem marcas nacionais de produtos duráveis, de automóveis a furadeiras, de geladeiras a bens de produção correrão o risco de cubanização.

 

Restará de toda a globalização pretendida somente a do conhecimento que, com os meios de comunicação de hoje, não respeita fronteiras.

 

Todavia, evidências e surpresas andam de mãos dadas.

 

(Segue a parte 2)