Demografia e Globalização
(2)
(“Demography and Globalization [2]” – This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
A virada demográfica é um fato real e inquestionável, causada
pelo próprio ser humano a parir das condições civilizatórias e existenciais que
ele mesmo criou. Isso, naturalmente, com efeitos sobre as estruturas sociais e
econômicas – principalmente – que o homem desenvolveu ao longo de sua história.
E o planeta torce para que continue assim.
Com a globalização – mais vantajosa para uns do
que para outros – seriamente comprometida, as economias dos diversos países
tenderão a ganhar cada vez mais caráter e identidade nacional. A globalização
nos mercados de consumo, salvo produtos de primeira necessidade indisponíveis
no mercado interno, estará definitivamente destinada à sua extinção. Diferente
é a situação de commodities, em geral desigualmente disponíveis ao redor do
mundo. Surgem daí naturalmente dependências internacionais, às vezes mútuas.
Esse mercado, portanto, continuará forte e firme. Para outros mercados, com o
estabelecimento e fortalecimento dessas novas realidades econômicas, com o
passar do tempo poderão começar a surgir novos acordos bi e multinacionais,
obviamente com novos interesses, parâmetros e configurações.
De uma maneira geral, os mercados serão
mercados extremamente estáticos. Já o transporte internacional, por exemplo, sofrerá
importantes perdas no volume de bens de consumo final.
Na medida em que a população diminui, as
estruturas políticas, econômicas e sociais tenderão a se ajustar e acomodar
dentro de novos parâmetros condicionantes. Uma vez que se trata de mudanças
lentas e graduais, as essências de vida deverão continuar largamente imutáveis,
da mesma maneira como os valores culturais deverão ser pouco influenciados por
meras mudanças numéricas de seus detentores. Em termos práticos, eis um
exemplo: automóveis de tecnologia atual, ou futura, em estradas atuais, ou
futuras, com densidade de tráfego dos anos de 1980. Caraterísticas fundamentais
de cada sociedade – por exemplo, a mentalidade de um povo – poderão determinar
diferentes maneiras de lidar com as mudanças, obviamente com resultados
diferentes. Sociedades ricas possivelmente reagirão diferentemente das menos
prósperas.
Tudo isso, no entanto, não mudará o curso
demográfico acompanhado de adaptações e ajustes sociais, econômicos e
culturais, mas também familiares. A tendência demográfica será o registro de
taxas de fertilidade cada vez menores, ou seja, cada vez mais abaixo daquela de
reposição populacional (2 filhos por mulher) e em cada vez mais países. Em
outras palavras, teremos um contínuo e progressivo encolhimento de boa parte
das populações nacionais, e o ingresso de sempre mais países nesse grupo.
Na permanência das atuais condições estruturais
da família, tanto sociais quanto econômicas, não há mínimas chances de uma
mudança geral na atual dinâmica demográfica. É importante notar que nesse
cenário trata-se de um fenômeno que contraria as leis da natureza no que se
refere à procriação natural e irrestrita. É um quadro que decorre de uma
complexidade existencial cada vez maior e da busca de uma vida mais
‘confortável’, não sem uma boa dose de egoísmo. Portanto, não estamos lidando
com um capricho da natureza, mas com comportamento humano, passado e atual.
De absolutamente positivo resulta daí um
vagaroso, mas progressivo aumento de espaço vital individual e público com
todos os seus desdobramentos. Naturalmente com significativas consequências em
todas as facetas econômicas, dos mercados de produção, distribuição e consumo
de bens e serviços, de trabalho, de commodities e financeiros às próprias
concepções micro e macroeconômicas. Tudo isso na concomitância de um contínuo
avanço nos mais diversos campos tecnológicos, de recursos energéticas à
computação quântica e inteligência artificial.
No entanto, é improvável que estejamos num
caminho sem retorno, numa rota irreversível em direção à extinção da espécie
humana. A pergunta é: quando e como teremos uma nova inversão demográfica com
crescimento positivo? Em decorrência das mudanças mencionadas e seus prováveis
efeitos, haverá lentas, inexoráveis e sensíveis mudanças no estilo de vida das
pessoas e das coletividades. E possivelmente será esse novo estilo de vida e a
experiência de superpopulação vivida por gerações no passado o berço de uma
volta a estabilidade demográfica, ou um sadio crescimento populacional.
Se o mundo econômico voltará a buscar uma
globalização nos moldes conhecidos ou em forma parecida está escrito nas
estrelas, mas certamente aprendeu que alguma concepção dessa ordem requer um
mundo em paz.
Conclusão: Este texto contém
apenas projeções a partir de um processo demográfico já em curso. Haverá surpresas?
Certamente que sim. O que, todavia, é importante que, especialmente nas
sociedades já envolvidas nessa mudança demográfica, os poderes públicos, em
todos os níveis, se inteirem desde já dessas realidades, seus efeitos e suas
projeções, e as considerem em seus planos – negá-las seria desastroso. Ignorar
as dinâmicas demográficas em curso, e por vir, poderá gerar problemas enormes e
custos elevados irresponsáveis e perfeitamente evitáveis.
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