Demografia e Globalização (1)
(“Demography and Globalization [1]” – This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Desde a virada do milênio, quando a taxa de fertilidade da mulher
brasileira caiu para menos de dois filhos, o Brasil sofre um déficit crescente na
reposição de sua população. Outros 10% de países do mundo já se encontram na
mesma situação, e outros tantos estão se aproximando do mesmo panorama. Ao mesmo
tempo, observam-se crescimentos populacionais unicamente decorrentes de um
aumento geral da expectativa de vida. É um fenômeno em constante progressão,
tanto temporal, quanto territorial, devendo alcançar dimensão global no início
da segunda metade do século.
No caso
específico brasileiro, hoje, a população abaixo de 24 anos já está
desproporcionalmente representada no total da população, com agravamento na
medida em que observamos faixas etárias mais jovens. Mas há países onde o
déficit de reposição populacional já está muito mais avançado, Canadá e Japão,
por exemplo, há mais de 50 anos.
Os reflexos econômicos desse quadro já começam
a manifestar-se no mercado de fraldas e chupetas, mais tarde no número de
frequentadores de creches e escolas, e chegará o momento em que toda a
conjuntura de consumo passa a ser afetada, de alimentos a imóveis.
As consequências dessa inversão na dinâmica
demográfica são impossíveis de serem previstas em toda sua extensão. Mas, os
efeitos da lei de oferta e procura são inflexíveis sob qualquer dinâmica
demográfica. E o futuro nos impõe a necessidade de saber lidar com tais
consequências, cada sociedade de acordo com suas particularidades
socioeconômicas. Estímulos governamentais para famílias mais numerosas, onde
tentados, não têm produzido as reações esperadas.
Num primeiro momento, os reflexos dessa
retração populacional têm dimensões microeconômicas. Por um lado, produtos
especificamente destinados a consumidores nascidos desde o início dessa
retração tem sua demanda reduzida, como artigos para bebês, depois para
crianças, então adolescentes, e finalmente chegando aos mercados do cidadão
adulto, na gama total de bens e serviços.
Se, por outro lado, o mercado de trabalho será
afetado na mesma proporção dependerá do avanço tecnológico como, por exemplo, a
inteligência artificial, e seu potencial de liberação de mão de obra na produção
de bens e serviços.
Mais cedo ou mais tarde, com a população diminuindo
e como respostas com caráter de proteção da economia nacional, serão estabelecidas
medidas restritivas às importações. No foco entrarão inicialmente bens de
consumo final em segmentos como, por exemplo, têxteis, utensílios domésticos,
brinquedos, cosméticos etc. na busca de preservar as produções domésticas. Obviamente,
comprometendo a contrapartida de exportação em acordos bi, ou multilaterais – com
previsíveis efeitos desastroso para países como China, Correa do Sul,
Bangladesh, entre outros. O objetivo será um máximo possível de produção
interna e autonomia nacional com um mínimo de dependência de produtos de
consumo do exterior. Um duro golpe no ideário da globalização.
Esse tipo de política de nacionalização, no
entanto, terá suas consequências: além do desestímulo causado pela ausência de
concorrência estrangeira em aprimorar qualidade e nível de tecnologia, haverá o
risco de preços destemidos na falta de competidores externos.
Nesse conjunto de estratégias
macroeconômicas, o Brasil encontra-se numa posição privilegiada. Como
exportador de produtos agropecuários, especialmente em natura, e outras
commodities, o país se tornará indispensável para outros países carentes desses
bens – passará a ser detentor de ‘moeda forte’ num mercado cada vez mais dete5rminado
por necessidades. Produtos primários que
historicamente foram considerados um atraso econômico passarão a ser um aspecto
vantajoso.
Num momento posterior nas mesmas circunstâncias
demográficas, seguindo estratégias mais amplas de proteção da economia
doméstica, os países que abrigam produtores de marcas mundiais, por exemplo a
indústria automotiva, procurarão a extinção de estabelecimentos no exterior,
uma vez para fortalecer a produção interna, por outra, para fortalecer suas
exportações e ganhar capacidade de importar commodities sem ´prejuízo no
balanço de comércio exterior. Assim, com a repatriação de unidades empresariais
se resolveriam questões domésticas, tanto de desemprego, como a necessidade de
geração de divisas.
Muitos países, que praticamente não possuem
marcas nacionais de produtos duráveis, de automóveis a furadeiras, de
geladeiras a bens de produção correrão o risco de cubanização.
Restará de toda a globalização pretendida
somente a do conhecimento que, com os meios de comunicação de hoje, não respeita
fronteiras.
Todavia, evidências e surpresas andam de mãos
dadas.
(Segue a parte 2)
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