sábado, 9 de dezembro de 2023

Demografia e Globalização (1)

 

Demografia e Globalização (1)

 

(“Demography and Globalization [1]” This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Desde a virada do milênio, quando a taxa de fertilidade da mulher brasileira caiu para menos de dois filhos, o Brasil sofre um déficit crescente na reposição de sua população. Outros 10% de países do mundo já se encontram na mesma situação, e outros tantos estão se aproximando do mesmo panorama. Ao mesmo tempo, observam-se crescimentos populacionais unicamente decorrentes de um aumento geral da expectativa de vida. É um fenômeno em constante progressão, tanto temporal, quanto territorial, devendo alcançar dimensão global no início da segunda metade do século. 

 

            No caso específico brasileiro, hoje, a população abaixo de 24 anos já está desproporcionalmente representada no total da população, com agravamento na medida em que observamos faixas etárias mais jovens. Mas há países onde o déficit de reposição populacional já está muito mais avançado, Canadá e Japão, por exemplo, há mais de 50 anos.

 

Os reflexos econômicos desse quadro já começam a manifestar-se no mercado de fraldas e chupetas, mais tarde no número de frequentadores de creches e escolas, e chegará o momento em que toda a conjuntura de consumo passa a ser afetada, de alimentos a imóveis.

 

As consequências dessa inversão na dinâmica demográfica são impossíveis de serem previstas em toda sua extensão. Mas, os efeitos da lei de oferta e procura são inflexíveis sob qualquer dinâmica demográfica. E o futuro nos impõe a necessidade de saber lidar com tais consequências, cada sociedade de acordo com suas particularidades socioeconômicas. Estímulos governamentais para famílias mais numerosas, onde tentados, não têm produzido as reações esperadas.

 

Num primeiro momento, os reflexos dessa retração populacional têm dimensões microeconômicas. Por um lado, produtos especificamente destinados a consumidores nascidos desde o início dessa retração tem sua demanda reduzida, como artigos para bebês, depois para crianças, então adolescentes, e finalmente chegando aos mercados do cidadão adulto, na gama total de bens e serviços.

 

Se, por outro lado, o mercado de trabalho será afetado na mesma proporção dependerá do avanço tecnológico como, por exemplo, a inteligência artificial, e seu potencial de liberação de mão de obra na produção de bens e serviços.

 

Mais cedo ou mais tarde, com a população diminuindo e como respostas com caráter de proteção da economia nacional, serão estabelecidas medidas restritivas às importações. No foco entrarão inicialmente bens de consumo final em segmentos como, por exemplo, têxteis, utensílios domésticos, brinquedos, cosméticos etc. na busca de preservar as produções domésticas. Obviamente, comprometendo a contrapartida de exportação em acordos bi, ou multilaterais – com previsíveis efeitos desastroso para países como China, Correa do Sul, Bangladesh, entre outros. O objetivo será um máximo possível de produção interna e autonomia nacional com um mínimo de dependência de produtos de consumo do exterior. Um duro golpe no ideário da globalização.

 

Esse tipo de política de nacionalização, no entanto, terá suas consequências: além do desestímulo causado pela ausência de concorrência estrangeira em aprimorar qualidade e nível de tecnologia, haverá o risco de preços destemidos na falta de competidores externos.

 

Nesse conjunto de estratégias macroeconômicas, o Brasil encontra-se numa posição privilegiada. Como exportador de produtos agropecuários, especialmente em natura, e outras commodities, o país se tornará indispensável para outros países carentes desses bens – passará a ser detentor de ‘moeda forte’ num mercado cada vez mais dete5rminado por necessidades.  Produtos primários que historicamente foram considerados um atraso econômico passarão a ser um aspecto vantajoso.

 

Num momento posterior nas mesmas circunstâncias demográficas, seguindo estratégias mais amplas de proteção da economia doméstica, os países que abrigam produtores de marcas mundiais, por exemplo a indústria automotiva, procurarão a extinção de estabelecimentos no exterior, uma vez para fortalecer a produção interna, por outra, para fortalecer suas exportações e ganhar capacidade de importar commodities sem ´prejuízo no balanço de comércio exterior. Assim, com a repatriação de unidades empresariais se resolveriam questões domésticas, tanto de desemprego, como a necessidade de geração de divisas.

 

Muitos países, que praticamente não possuem marcas nacionais de produtos duráveis, de automóveis a furadeiras, de geladeiras a bens de produção correrão o risco de cubanização.

 

Restará de toda a globalização pretendida somente a do conhecimento que, com os meios de comunicação de hoje, não respeita fronteiras.

 

Todavia, evidências e surpresas andam de mãos dadas.

 

(Segue a parte 2)      

                   

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