O Que Sobraria?
(“What Would Be Left? ¨– This text has been written in such a way as to facilitate translations
by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
Nenhum hóspede deste
planeta tem a permanência eterna garantida. Nem o homem com toda sua
tecnologia. Inúmeras espécies da fauna e da flora já encerraram sua presença na
Terra, seja por desastres geológicos, por mudanças climáticas, sabidamente
cíclicas e de diferentes intensidades, ou seja pela ação do homem. Mais
recentemente na história do nosso planeta nós, humanidade, temos atuado
significativamente de forma negativa sobre a flora, mas especialmente sobre a
fauna global. Há poucos milhares de anos, essa fauna era composta por 99% de
animais silvestres e 1% de humanos; hoje são 67% de animais domésticos, 32% de
humanos e 1% de animais silvestres. À parte, segundo estudos do DNA humano, há
muitas centenas de milhares de anos, nossa espécie também já foi reduzida possivelmente
a alguns poucos milhares de pessoas, sem que se conheça os motivos.
Diante
disso, nunca poderemos descartar a possibilidade de que, por algum evento ou
circunstância, encerre-se a presença do homem sobre a Terra, seja em
decorrência de alguma fragilidade adquirida, de um cataclismo global, ou por
simples auto-extinção. Porque não em consequência da própria inteligência
humana, mal-usada (por exemplo, por armas nucleares), da violência sobre a
natureza (desmatamentos, agrotóxicos, esgotamento de recursos naturais), ou
descontrolada (quem sabe da inteligência artificial)?
A força
da natureza resulta da coexistência, não do domínio.
Surge,
então, a hipótese – nem tão hipotética – de uma nova fase pós-antropoceno do
nosso planeta. Fica então a pergunta: o que restaria 50, 100 ou 200 mil anos –
talvez nem tanto, ou muito menos – após esse desaparecimento? E tal espaço de
tempo represente apenas cerca de 0,001% da presença de vida na Terra.
Já depois
de poucos séculos, certamente não haveria mais vestígios de praticamente todo
material artificial usado na nossa civilização. Resíduos de plástico, estariam
decompostos para suas substâncias de origem e absorvidos pelo ambiente.
Quaisquer outros materiais orgânicos, de madeira a asfalto, já teriam seguido o
mesmo caminho. Mesmo matérias primas beneficiadas como ferro, cobre e outros
metais teriam passadas, ou ainda estariam passando por processos de corrosão ou
oxidação dependendo do ambiente em que se encontrariam. Muito antes do prazo
acima, pontes, trilhos de estrada de ferro, as mais diversas estruturas de aço
devem desaparecer pelas mesmas causas. Os mesmos destinos teriam todos os
produtos da indústria de transformação. Estruturas aparentemente duráveis, como
edifícios, pontes, barragens de represas, pistas de aeroportos, tudo que tiver
sido construído de concreto armado estaria reduzido a areia e óxido de ferro.
Desde a Mesopotâmia
ou o antigo Egito, a presença de rios é essencial para a fixação do homem e a
constituição de suas sociedades. Por outro lado, todos os cursos de água
contribuem para um nivelamento da superfície terrestre, transportando material
sólido de regiões mais elevadas em direção aos mares – ou, em momentos de
enchente o depositam em suas margens. Assim, ao longo de milênios, eventuais
vestígios civilizatórios, senão deteriorados, deverão ser soterrados. E quando
não serão rios a encobrir indícios ou traços da presença humana, a própria
vegetação reconquistará seus espaços perdidos.
E o
orgulho dessa humanidade, seu software, como a medicina, a engenharia, a
religião, a informática, a inteligência artificial? Os últimos sinais sumirão
com a morte do último cérebro humano.
O que
então restaria da presença do homem sobre a Terra? Sobrariam certamente, mas
provavelmente soterrados ou submersos, amontoados de pedras naturais
curiosamente em formas geométricas exatas e dimensões iguais. Sobrariam também
conjuntos de estranhas ferramentas de ouro e prata, e pedaços de lâminas
transparentes. E poderiam ser encontrados remanescentes de grandes pirâmides e
de um longo monte de pedras trabalhadas. Mas também existirá um bizarro círculo
de grandes pedras em pé, algumas cobertas por outras deitadas, e bem longe dali
numa ilha esquisitas figuras, algumas parcialmente enterradas, outras deitadas.
Mas, o achado mais insólito poderão ser ferramentas e armas de sílex lascado.
A
humanidade deixará marcas de seus primórdios, dificilmente de sua existência
sofisticada.
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