sábado, 9 de março de 2024

O Que Sobraria?

 

O Que Sobraria?

(“What Would Be Left? ¨– This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt    

 

Nenhum hóspede deste planeta tem a permanência eterna garantida. Nem o homem com toda sua tecnologia. Inúmeras espécies da fauna e da flora já encerraram sua presença na Terra, seja por desastres geológicos, por mudanças climáticas, sabidamente cíclicas e de diferentes intensidades, ou seja pela ação do homem. Mais recentemente na história do nosso planeta nós, humanidade, temos atuado significativamente de forma negativa sobre a flora, mas especialmente sobre a fauna global. Há poucos milhares de anos, essa fauna era composta por 99% de animais silvestres e 1% de humanos; hoje são 67% de animais domésticos, 32% de humanos e 1% de animais silvestres. À parte, segundo estudos do DNA humano, há muitas centenas de milhares de anos, nossa espécie também já foi reduzida possivelmente a alguns poucos milhares de pessoas, sem que se conheça os motivos.

 

Diante disso, nunca poderemos descartar a possibilidade de que, por algum evento ou circunstância, encerre-se a presença do homem sobre a Terra, seja em decorrência de alguma fragilidade adquirida, de um cataclismo global, ou por simples auto-extinção. Porque não em consequência da própria inteligência humana, mal-usada (por exemplo, por armas nucleares), da violência sobre a natureza (desmatamentos, agrotóxicos, esgotamento de recursos naturais), ou descontrolada (quem sabe da inteligência artificial)?

 

A força da natureza resulta da coexistência, não do domínio.

 

Surge, então, a hipótese – nem tão hipotética – de uma nova fase pós-antropoceno do nosso planeta. Fica então a pergunta: o que restaria 50, 100 ou 200 mil anos – talvez nem tanto, ou muito menos – após esse desaparecimento? E tal espaço de tempo represente apenas cerca de 0,001% da presença de vida na Terra.

 

Já depois de poucos séculos, certamente não haveria mais vestígios de praticamente todo material artificial usado na nossa civilização. Resíduos de plástico, estariam decompostos para suas substâncias de origem e absorvidos pelo ambiente. Quaisquer outros materiais orgânicos, de madeira a asfalto, já teriam seguido o mesmo caminho. Mesmo matérias primas beneficiadas como ferro, cobre e outros metais teriam passadas, ou ainda estariam passando por processos de corrosão ou oxidação dependendo do ambiente em que se encontrariam. Muito antes do prazo acima, pontes, trilhos de estrada de ferro, as mais diversas estruturas de aço devem desaparecer pelas mesmas causas. Os mesmos destinos teriam todos os produtos da indústria de transformação. Estruturas aparentemente duráveis, como edifícios, pontes, barragens de represas, pistas de aeroportos, tudo que tiver sido construído de concreto armado estaria reduzido a areia e óxido de ferro.

 

Desde a Mesopotâmia ou o antigo Egito, a presença de rios é essencial para a fixação do homem e a constituição de suas sociedades. Por outro lado, todos os cursos de água contribuem para um nivelamento da superfície terrestre, transportando material sólido de regiões mais elevadas em direção aos mares – ou, em momentos de enchente o depositam em suas margens. Assim, ao longo de milênios, eventuais vestígios civilizatórios, senão deteriorados, deverão ser soterrados. E quando não serão rios a encobrir indícios ou traços da presença humana, a própria vegetação reconquistará seus espaços perdidos.

 

E o orgulho dessa humanidade, seu software, como a medicina, a engenharia, a religião, a informática, a inteligência artificial? Os últimos sinais sumirão com a morte do último cérebro humano.

 

O que então restaria da presença do homem sobre a Terra? Sobrariam certamente, mas provavelmente soterrados ou submersos, amontoados de pedras naturais curiosamente em formas geométricas exatas e dimensões iguais. Sobrariam também conjuntos de estranhas ferramentas de ouro e prata, e pedaços de lâminas transparentes. E poderiam ser encontrados remanescentes de grandes pirâmides e de um longo monte de pedras trabalhadas. Mas também existirá um bizarro círculo de grandes pedras em pé, algumas cobertas por outras deitadas, e bem longe dali numa ilha esquisitas figuras, algumas parcialmente enterradas, outras deitadas. Mas, o achado mais insólito poderão ser ferramentas e armas de sílex lascado.

 

A humanidade deixará marcas de seus primórdios, dificilmente de sua existência sofisticada.   

 

 

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