segunda-feira, 11 de março de 2024

Como è a Vida sob o Comunismo?

 

Como É a Vida sob o Comunismo?

(“What Is Life Like Under Communism?¨– This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Um dia desses, na minha casa, um amigo bastante familiarizado com minha biografia, me fez essa pergunta: “Como é a vida sob o comunismo?” Tentei explicar através de três episódios que presenciei na qualidade de refugiado de guerra, vivendo, ainda muito jovem, na Alemanha Oriental, comunista. Meu pai, médico militar, tinha falecido num campo de prisioneiros de guerra na Rússia (soubermos disso apenas anos mais tarde).

 

Episódio 1. Em determinado momento encontramos acolhimento numa família na Turíngia por intermédio de Anita, 15 anos, filha de amigos de minha mãe. Um pequeno detalhe: Anita, cujos pais morreram num bombardeio na cidade de Breslau tornou-se responsável pelos seus dois irmãos menores e tinha encontrado abrigo na casa desses amigos de seus pais. A casa bastante grande dessa família M., na verdade um casal cujos dois filhos morreram na guerra, ficava numa pequena elevação com vista para uma próxima indústria de papel – que tinha sido deles, mas foi desapropriada e seu maquinário encontrava-se na plataforma da estação próxima da estrada de ferro, à espera de ser deportado para a Rússia.

 

Certo dia, a caminho da escola com neve até os joelhos, os dois irmãos de Anita (não lembro seus nomes) e eu encontramos uma lebre morta numa laçada. Ao perceber o preparo da lebre por minha mãe e Anita na cozinha única da casa, o senhor M. foi categórico, metade da lebre era sua porque provinha de sua floresta – um pormenor: essa floresta não era mais sua, foi desapropriada juntamente com a fábrica.

 

Episódio 2. O dinheiro levado na fuga estava acabando e minha mãe, com formação em enfermagem, procurou e acabou encontrando emprego como enfermeira comunitária com atuação, via bicicleta, em cinco pequenos vilarejos. Nessa condição, a prefeitura da maior delas abrigou-nos na casa de uma família que teve de ceder duas peças para nós, além do uso de áreas comuns, como cozinha, banheiro, lavação e pátio interno. O dono da casa era torneiro numa indústria estatizada de artefatos de madeira (tenho até hoje uma caixinha torneada por ele). Naturalmente foi uma convivência não sem atritos, mas tínhamos moradia e renda.

 

Entre a pessoas das quais minha mãe cuidada estava a mãe do prefeito do lugarejo, obviamente comunista. Em determinado momento, esse cidadão revelou para minha mãe que estava a par da nossa anterior situação social (o sistema já funcionava) e que, como ‘filhos de acadêmico’ não teríamos a menor chance de um estado além do básico numa nova sociedade de lavradores e operários.

 

Ao mesmo tempo, suponho que em reconhecimento da dedicação dispensada à sua mãe, esse prefeito ofereceu-nos passes para poder livremente deixar a Alemanha Oriental. Minha mãe aceitou a oferta. Pouco tempo depois, no posto de fronteira com a Alemanha Ocidental, apresentando nossos passes, os mesmos ganharam uma carimbada devastadora: “Ao tentar sair da DDR (Alemanha Oriental) deverá ser preso.” Fugimos na mesma noite a pé por entre florestas, vales e montanhas, dentro de túneis ferroviários abandonados e outros obstáculos. Na manhã seguinte estrávamos na outra Alemanha.

 

Episódio 3. O muro de Berlin e a fronteira rigorosamente vigiada entre as duas Alemanhas tinham caído a pouco tempo. Na minha primeira viagem à Alemanha depois da vinda para o Brasil, a certa altura na região ao norte de Berlin (e na ex-Alemanha Oriental) estávamos, eu e minha mulher, à procura de uma pousada. Era fim de semana e época de férias na Alemanha. Acabamos por encontrar uma com quarto disponível numa região rural. Na realidade era a sede de uma antiga propriedade rural, bastante grande como soube depois, consistindo de uma casa de moradia, então transformada em pousada, e extensas edificações abandonadas, que, em outra época, tinham sido estábulos e celeiros. Conversei longamente com a proprietária do conjunto, cuja vida transcorreu quase totalmente sob o regime comunista, e que me contou que todas as terras tinham sido desapropriadas dentro da reforma agrária havida sob o novo regime – e que não haveria mínimas chances, nem vontade de recuperá-las.

 

Na manhã seguinte, durante a despedida a dona da pousada olhou para mim com uma frase surpreendente: “O muro devia ter sido três metros mais alto!”.

 

Foram três situações vividas do cotidianos e quatro personagens entre milhões: o homem vendo todo dia pela janela da sua casa a espoliação daquilo e que ele, seus pais e seus avôs haviam construído, simplesmente pela imposição de um sistema, de uma ideologia; o comunista convicto, em cargo público, mas com sentimento humano, contraposto ao funcionário que simplesmente mandava prender a quem procurasse a liberdade de decidir sobre sua vida; e a cidadã, que via seus objetivos de vida alcançados pela garantia de pleno emprego e segurança previdenciária, mesmo às custas de supressão da livre escolha e a liberdade, sem tunelamento estatal, de ser, de crescer, de acertar e de errar – da garantia de liberdade e dignidade do homem, de todos os homens. - Aliás, para o torneiro de madeira praticamente nada mudou.

 

Essas foram algumas das minhas experiências. Há milhões de outras vivências pessoais.

 

   

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