Como É a Vida sob o Comunismo?
(“What Is Life Like Under Communism?¨– This text has been written in such a way as to
facilitate translations by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
Um dia desses, na minha casa, um amigo
bastante familiarizado com minha biografia, me fez essa pergunta: “Como é a vida sob
o comunismo?” Tentei explicar através de três episódios que presenciei na
qualidade de refugiado de guerra, vivendo, ainda muito jovem, na Alemanha
Oriental, comunista. Meu pai, médico militar, tinha falecido num campo de prisioneiros de guerra na Rússia (soubermos disso apenas anos mais tarde).
Episódio
1. Em determinado momento encontramos acolhimento numa família na Turíngia por intermédio
de Anita, 15 anos, filha de amigos de minha mãe. Um pequeno detalhe: Anita,
cujos pais morreram num bombardeio na cidade de Breslau tornou-se responsável
pelos seus dois irmãos menores e tinha encontrado abrigo na casa desses amigos
de seus pais. A casa bastante grande dessa família M., na verdade um casal
cujos dois filhos morreram na guerra, ficava numa pequena elevação com vista
para uma próxima indústria de papel – que tinha sido deles, mas foi
desapropriada e seu maquinário encontrava-se na plataforma da estação
próxima da estrada de ferro, à espera de ser deportado para a Rússia.
Certo
dia, a caminho da escola com neve até os joelhos, os dois irmãos de Anita (não
lembro seus nomes) e eu encontramos uma lebre morta numa laçada. Ao perceber o
preparo da lebre por minha mãe e Anita na cozinha única da casa, o senhor M.
foi categórico, metade da lebre era sua porque provinha de sua floresta – um
pormenor: essa floresta não era mais sua, foi desapropriada juntamente com a
fábrica.
Episódio
2. O dinheiro levado na fuga estava acabando e minha mãe, com formação em
enfermagem, procurou e acabou encontrando emprego como enfermeira comunitária
com atuação, via bicicleta, em cinco pequenos vilarejos. Nessa condição, a
prefeitura da maior delas abrigou-nos na casa de uma família que teve de ceder
duas peças para nós, além do uso de áreas comuns, como cozinha, banheiro,
lavação e pátio interno. O dono da casa era torneiro numa indústria estatizada de
artefatos de madeira (tenho até hoje uma caixinha torneada por ele).
Naturalmente foi uma convivência não sem atritos, mas tínhamos moradia e renda.
Entre a
pessoas das quais minha mãe cuidada estava a mãe do prefeito do lugarejo,
obviamente comunista. Em determinado momento, esse cidadão revelou para minha
mãe que estava a par da nossa anterior situação social (o sistema já
funcionava) e que, como ‘filhos de acadêmico’ não teríamos a menor chance de um
estado além do básico numa nova sociedade de lavradores e operários.
Ao mesmo
tempo, suponho que em reconhecimento da dedicação dispensada à sua mãe, esse
prefeito ofereceu-nos passes para poder livremente deixar a Alemanha Oriental.
Minha mãe aceitou a oferta. Pouco tempo depois, no posto de fronteira com a
Alemanha Ocidental, apresentando nossos passes, os mesmos ganharam uma
carimbada devastadora: “Ao tentar sair da DDR (Alemanha Oriental) deverá ser preso.”
Fugimos na mesma noite a pé por entre florestas, vales e montanhas, dentro de
túneis ferroviários abandonados e outros obstáculos. Na manhã seguinte
estrávamos na outra Alemanha.
Episódio
3. O muro de Berlin e a fronteira rigorosamente vigiada entre as duas Alemanhas
tinham caído a pouco tempo. Na minha primeira viagem à Alemanha depois da vinda
para o Brasil, a certa altura na região ao norte de Berlin (e na ex-Alemanha
Oriental) estávamos, eu e minha mulher, à procura de uma pousada. Era fim de semana
e época de férias na Alemanha. Acabamos por encontrar uma com quarto disponível
numa região rural. Na realidade era a sede de uma antiga propriedade rural,
bastante grande como soube depois, consistindo de uma casa de moradia, então
transformada em pousada, e extensas edificações abandonadas, que, em outra
época, tinham sido estábulos e celeiros. Conversei longamente com a
proprietária do conjunto, cuja vida transcorreu quase totalmente sob o regime
comunista, e que me contou que todas as terras tinham sido desapropriadas
dentro da reforma agrária havida sob o novo regime – e que não haveria mínimas
chances, nem vontade de recuperá-las.
Na manhã
seguinte, durante a despedida a dona da pousada olhou para mim com uma frase
surpreendente: “O muro devia ter sido três metros mais alto!”.
Foram três situações vividas
do cotidianos e quatro personagens entre milhões: o homem vendo todo dia pela
janela da sua casa a espoliação daquilo e que ele, seus pais e seus avôs haviam
construído, simplesmente pela imposição de um sistema, de uma ideologia; o
comunista convicto, em cargo público, mas com sentimento humano, contraposto ao
funcionário que simplesmente mandava prender a quem procurasse a liberdade de
decidir sobre sua vida; e a cidadã, que via seus objetivos de vida alcançados
pela garantia de pleno emprego e segurança previdenciária, mesmo às custas de supressão
da livre escolha e a liberdade, sem tunelamento estatal, de ser, de crescer, de
acertar e de errar – da garantia de liberdade e dignidade do homem, de todos os
homens. - Aliás, para o torneiro de madeira praticamente nada mudou.
Essas foram algumas das minhas experiências. Há milhões de outras vivências pessoais.
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