sábado, 31 de agosto de 2024

O Brasil sem Trilhos

 

O Brasil sem Trilhos

(“Brazil without Rails” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Não de todo, mas quase. O Brasil possui uma malha ferroviária, entretanto, bastante menos extensa comparada com outros países de território semelhante. Assim, enquanto a malha brasileira é de 30 mil quilómetros, a rede dos Estado Unidos tem 194 mil quilómetros, da Rússia, 85 mil, da Índia, 66 mil, o Canadá, 52 mil, e a Austrália, 33 mil. Dentro desse quadro, a China é um caso emblemático: o total de suas linhas ferroviárias avançou de 124 mil quilómetros em 2012 para atuais 159 mil quilómetros (dos quais cerca de 45 mil são de alta velocidade). As comparativamente pequenas Alemanha e França possuem redes de, respectivamente, 33 e 30 mil quilómetros.

 

O que, então, explica essa disparidade? Há várias razões para essa situação. Curiosamente, em fins do século XIX e princípio do século XX, várias vias férreas foram construídas no país, chegando a um total de 28 mil quilómetros em 1919. Elas serviam principalmente ao escoamento de produtos como café, cana-de-açúcar, madeira e minério. Em meados do século XX muitas dessas linhas começaram a tornar-se deficitárias devido a mudanças conjunturais ou a extinção de sua base econômica; outras passaram para as mãos do Estado. Em geral, as linhas férreas brasileiras eram de pouca extensão, e pela própria natureza desse meio de transporte, quanto mais curta a rede, menos rendosa ela é.

 

Tanto a construção quanto a manutenção de ferrovias são caras, exigindo planejamentos a longo prazo, bem como determinada intensidade de uso. Nenhuma dessas duas premissas estava garantida no Brasil, prejudicando o desenvolvimento de uma malha ferroviária mais abrangente.

 

Ao mesmo tempo, já no governe de Juscelino Kubitschek, o governo decidiu incentivar a construção de rodovias e o crescimento da indústria automobilística. Grupos econômicos ligados à indústria automobilística e ao setor de construção civil influenciaram o governo no sentido de priorizar a expansão da malha rodoviária e esse modal de transporte. Tinha chegada a era do caminhão.

 

Durante o período do regime militar as ferrovias tiveram o seu maior encolhimento com o “Plano de Erradicação de Trechos Deficitários” de 1964, a malha ferroviária caindo de 38.287 para 29.184 quilómetros.

 

Todavia, de vez em quando ressurgiram, e continuam a ressurgir, pareceres e decisões a favor de uma revitalização da infraestrutura ferroviária. Assim, em 1990 é dada a partida à era da privatização por meio do Programa Nacional de Desestatização (PND), com o objetivo de incentivar e melhorar os serviços e investimento no setor ferroviário. Como consequência, a extensão das ferrovias no país voltou aos 30 mil quilômetros. Com isso, o Brasil possui atualmente 13 malhas regionais privatizadas, operadas por concessionárias privadas ou empresas públicas de capital aberto, como, por exemplo, a VALEC - Engenharia, Construções e Ferrovias S.A., especializada na movimentação de minério de ferro.

 

Em 2019, o Governo Federal voltou a ativar o plano de privatização. Inicialmente foi a realização de leilão de concessão da ferrovia Norte-Sul, que liga o município de Estrela D'Oeste (SP) ao município de Porto Nacional (TO), passando por vários estados e totalizando uma extensão de 1.537 km, um investimento de 2,7 bilhões de Reais. Esse mesmo projeto prevê ainda uma ferrovia entre os municípios de Chapecó (SC) até Barcarena (PA), cuja concessão, todavia, ainda não foi leiloada.

 

Em resumo, a infraestrutura ferroviária ainda não é prioridade no Brasil enquanto o foco continua no desenvolvimento rodoviário. Por mais que se sabe que movimentação de 1 tonelada por 1.000 quilómetros custa em média R$ 425,00 por rodovia, e apenas R$ 168,00 por ferrovia (2021), os altos custos e a falta de continuidade nas políticas públicas constituem obstáculos sérios para a implementação mais intensiva desse modal no país.

 

Aliás, a navegação de cabotagem (transporte entre portos no mesmos país) encontra-se em situação semelhante num país com 8.500 quilómetros de costa.

 

 

 

 

 

 

  

 

 

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

A Semana de Quatro Dias (de Trabalho)

A Semana de Quatro Dias (de Trabalho)

(“The Four-(Work-)Day-Week” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

(Também acessível no blog: kl-rehfeldt.blogspot.com)

 

“Vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver?” Nem um, nem outro, mas ambos.

 

Trabalhar apenas quatro dias por semana torna os funcionários mais felizes, saudáveis e igualmente produtivos, é o que sugerem estudos e projetos-piloto. Evidentemente, há muita discussão entre defensores e opositores a essa ideia, seja a validade, o modelo, ou a extensão da medida.

 

Os resultados de um estudo da Grã-Bretanha parecem promissores: 61 empresas testaram a semana de quatro dias durante seis meses. 56 delas querem ficar com ele por enquanto. Os funcionários estão mais equilibrados, mais saudáveis e a produtividade até aumentou. Na Alemanha, depois que, entre outros, o sindicato alemão IG Metall vem pedindo uma semana de quatro dias para a indústria siderúrgica há algum tempo, está sendo lançado um projeto-piloto. A semana de quatro dias deve ser testada em mais de 50 empresas.

 

Na Bélgica, a semana de quatro dias já está consagrada em lei desde o final de 2022. Ali, os funcionários podem completar suas horas de trabalho semanais em quatro dias. Dependente do contrato de trabalho, o número de horas pode ser reduzido contra uma dedução salarial, ou não. Por outro lado, a Islândia vem realizando projetos-piloto e estudos desde 2015, nos quais as horas de trabalho foram reduzidas. Cerca de 90% da população ativa já reduziu o horário de trabalho.

 

Desde o início de 2024, 21 companhias brasileiras estão participando de um projeto piloto, que estabelece o modelo 100-80-100: os profissionais recebem 100% do salário, trabalhando 80% do tempo e mantendo 100% de produtividade.

 

Existem duas variantes básicas para a semana de quatro dias. Na primeira, o colaborador completa seu volume de trabalho, numa semana de 40 horas, em apenas quatro dias, a jornada de trabalho podendo ser estendida de oito para até dez horas. Na segunda variante, o empregado trabalha um dia a menos com a mesma duração e a sexta-feira (ou outro dia útil) é livre. Existem modelos em que o colaborador recebe o mesmo salário de antes, apesar da redução da jornada de trabalho. No entanto, há também a opção pela qual ele renuncie a parte do salário para ter um dia de folga.

 

E quais são as vantagens de uma semana de quatro dias? De acordo com os resultados de estudos e experiências, a semana de quatro dias leva a funcionários mais motivados, o modelo privilegia as empresas que o adotam para possíveis candidatos de emprego e melhora o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Os funcionários relatam uma sensível melhora de sua qualidade de vida pessoal e familiar.

 

Mas também há desvantagens. Em princípio, no modelo da semana de quatro dias com jornada de oito horas, as maiores dificuldades consistem na eficiente distribuição da disponibilidade de colaboradores numa semana útil (de vida ativa e consumo) de cinco, seis ou sete dias, p. ex. no comércio, na hotelaria ou na prestação de serviços (de vida ativa e consumo). Quando, no entanto, as 40 horas por semana são comprimidas em quatro dias (10 horas por dia), isso pode levar maior desgaste físico e mental, que podem rapidamente ter consequências para a produtividade e a saúde do colaborador.

 

Diante de tudo isso, a pergunta que se impõe é se a semana de quatro dias passará a ser o futuro padrão de trabalho. Diferentemente da Bélgica, de uma maneira geral, os países ainda estão longes de alguma forma de oficialização desse modelo de trabalho.  Por um lado, uma semana de quatro dias é mais difícil de implementar em alguns setores, como p.ex. comércio de varejo ou logística, do que em outros. Por outro, é mais fácil com trabalhos de escritório e em algumas áreas industriais. Atualmente, fica ao critério dos empregadores oferecer aos colaboradores novos modelos de tempo de trabalho, seja em termos de tempo, seja com relação ao local (home office).

 

Especialmente ramos de negócio em fase de reestruturação, p. ex. devido a mudanças de mercado, poderiam incluir com mais o modelo de quatro dias. Não raro, novas tecnologias resultam em menos mão de obra – ou em menos horas de trabalho.

 

Já houve tempos quando as jornadas de trabalho de dez, até doze horas, ou então a semana de seis dias de trabalho eram a norma. Depois da semana de cinco dias, o novo modelo de quatro dias parece apenas um passo a mais numa contínua evolução de melhorias de condições de trabalho – e de qualidade de vida.

 

Não podemos deixar de trabalhar sob risco de sérios problemas físicos e mentais, e, a partir de determinado ponto, o trabalho pode converter-se de obrigação estafante em vontade pessoal – talvez, prazer.            

 

 

 

 

 


sábado, 24 de agosto de 2024

O Poder Emergente de Cabelo Banco

 

O Poder Emergente de Cabelo Branco

(“The Emerging Power of White Hair” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

 

Cabelo branco tem poder? Nunca teve. Respeito? Também nem sempre. O cabelo branco sinalizava, isso sim, o fim da vida útil. E não era para menos quando quase todo o trabalho era braçal, era fisicamente desgastante até, finalmente, resultar improdutivo. Restava, então, aguardar o desfecho final, eventualmente auxiliando aindaos filhos em tarefas fáceis. Algo em torno dos 60 anos era o fim da linha. Quando, por exemplo, Bismark criou na Alemanha o primeiro plano governamental de aposentadoria, apenas muito poucos alcançavam o limite de idade de 70 anos para conseguir uma pensão de velhice.

 

Há um detalhe, as mulheres vivem mais que os homens, entre 4 e 6 anos, conforme diferentes sociedades com diferentes hábitos de vida. As razões são várias: o estilo de vida diferente entre os sexos, desgaste físico, mas, possivelmente, também a perda de cromossomos-Y com o avanço da idade. Devido aos primeiros dois fatores, em boa parte resultando da crescente vida urbana e do trabalho industrial, a expectativa de vida das mulheres aumentou mais rápido do que a dos homens ao longo dos últimos dois séculos. Agora, um estudo chegou à conclusão de que desde o final do século 20, esse desequilíbrio vem diminuindo novamente.

 

É sabido, que registros mais antigos de baixa expectativa de vida (em torno de 45 anos nos anos de 1950) se devem às altas taxas de mortalidade infantil, hoje muito pequenas. Mesmo assim, desde meados do século passado, percebe-se um significativo alongamento da vida. Condições de vida mais amenas, uma vida mais saudável e recurso medicinais cada vez mais eficientes contribuem fortemente para essa nova realidade. Entretanto, por mais que haja especulações de um aumento de vida muito além dos 100 anos, a curva histórica desse aumento projeta uma estabilização em torno de 95 a 105 anjos – obviamente com exceções.

 

Os fatores mais importantes, porém, desse quadro são a gradual melhora do estado físico e mental, e da disposição para viver plenamente e com autonomia do idoso atual. São hoje pessoas que em grande parte moram sozinhas, vão ao supermercado, lidam razoavelmente bem com recursos cibernéticos, muitos dirigem seus carros, outros ainda trabalham, e viajam até ao exterior (basta olhar os passageiros de cruzeiros marítimo).

 

Numericamente falando, o idoso está formando um segmento cada vez maior dentro da população. No Brasil, a população acima de 60 anos de idade deixou de ser o menor estrato populacional, hoje superando o número de pessoas na faixa de 15 a 24 anos. É preciso lembrar, que a faixa de 0 a 18 anos já foi a mais numerosa do país. A atual população de idosos (60+ anos) do Brasil são 15,1% da população total, representando 31,3 milhões de habitantes (IBGE). Ela aumentou em expressivos 16% no período de 2000 a 2023.

 

Quando falamos em 31,3 milhões de pessoas, elas não podem mais ser vistas apenas como ônus da previdência social, muito menos como moradores de ancionatos, ou similares. São 31,3 milhões de eleitos qualificados. A importância de seu voto, ou sua abstenção, ficou evidente no exemplo da Inglaterra por ocasião do plesbicito sobre o Brexit (a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia): os idosos, conservadores por natureza e que poderiam tê-lo evitado, deixaram de ir às urnas na convicção de que a ideia não prevalecesse, permitindo ao voto jovem aprova-la.  

 

Aparentemente, diferentemente do mundo econômico, o político brasileiro ainda não percebeu o poder emergente desse contingente populacional. Basta desperta-lo por uma causa, não necessariamente ideológica, e esse grupo pode tornar-se um fiel de balança. E, com a histórica negligência em relação a essa população, não faltam causas a serem defendidas. Obviamente, uma agremiação política dos idosos (p. ex., PI, Partido dos Idosos) está fora de cogitação, mas a defesa de suas causas certamente poderia servir de plataforma para muitos projetos políticos.

 

É verdade que, comparado com outros países, inclusiva a Europa, o Brasil tem uma legislação de proteção e facilitação para o idoso bastante avançada. Todavia, ainda há um campo enorme de necessidades a serem atendidas, a começar pelos valores da aposentadoria que se deterioram ano a ano. Afinal, o desvio, durante décadas, das contribuições sociais para o custeio do aparato governamental, em vez de serem capitalizadas, conforme prevê a lei, não é culpa do contribuinte, hoje idos. Mas, basta perguntar ao idoso e ele terá muitas sugestões e reivindicações concretas e justas.

 

E, com a gradual diminuição da população jovem, os idosos ocuparão uma parcela cada vez maior e relevante na sociedade.  

 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

A Era do WhatsApp

 

A Era do ‘WhatsApp’

(‘The 'WhatsApp' Era’ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Durante milhares, dezenas, centenas de milhares de anos, toda a comunicação era de boca a boca. E o que não era comunicado ou transmitido perdeu-se para sempre. A primeira grande revolução na participação do outro numa mensagem, num aviso, ou num registro passou a ser a gravada, seja cunhada em pedra ou tábuas de barro, ou realmente escrito em papiros – e, talvez, outras formas que não se preservaram. Mas, de qualquer forma, tais recursos eram do domínio de poucos e reservados a uma elite oficial e eclesiástica. Em outra alternativa, o mensageiro era o transmissor de notícias e mensagens a distância, às vezes, longa distância – e coitado dele quando a notícia era ruim. Na verdade, até hoje, mensagens altamente reservadas são transmitidas por ‘courier’.

 

Segue um longo período da escrita em papel, que ganhou expressão a partir da antiga Grécia e existe até hoje. Por fim, já na era moderna, vivemos a chegada da telefonia e a radiodifusão. A comunicação a distância por meios elétricos e eletrônicos tinha nascido. Poucas pessoas, porém, hoje de idade avançada, conheceram o telefone e o rádio em sua infância e juventude. Caíram as distâncias na comunicação e uma única voz passou a alcançar milhões de ouvintes.

 

O próximo passo, a cibernética, e, não demorou muito, surgiram as plataformas das assim chamadas redes sociais. A comunicação para massas passou à comunicação entre massas. Dezenas, centenas, milhares de pessoas conseguem agrupar-se em torno de qualquer assunto ou objetivo.     

 

Tecnicamente, as redes sociais funcionam muito bem, mas, em tudo criado pelo homem, nada é perfeito – como ele mesmo. A possibilidade de comunicação global entre oito bilhões de pessoas passou de algo visionário a até duas décadas atrás para uma realidade. O seu próximo amigo virtual pode ser seu vizinho do andar superior ou estar vivendo em Samarqanda, no Uzbequistão. E se hoje apresenta imperfeições, a inteligência artificial promete corrigi-las – quase – totalmente.

 

Politicamente, é a democracia por excelência, na suposição de que não haja intervenções, seja a que interesses sirvam, ou de que origem forem. Permite a manifestação livre de todos para todos, seja de maneira civilizada, seja de forma ofensiva, até agressiva. E fica a marca, a qualidade da manifestação identifica o autor, mas, assim é a humanidade. A palavra expressa não volta para a boca – a imagem está criada.       

 

 Se politicamente o discurso tende a depender fortemente do mérito do assunto e da orientação político-ideológica do cidadão, a modulação social da exposição acaba por revelar toda a gama de grandezas e desvirtudes do ser humano. Trata-se de uma mídia de massa, e a massa anonimiza (este verbo não consta do Aurélio), pelo menos até certo ponto, da qual o indivíduo praticamente desaparece. Essa consciência tende a derrubar barreiras morais e éticas, abrindo portas para o abuso. A princípio, as redes sociais serviam para mensagens de congratulação, amenidades e curiosidades, um caráter lúdico que em grande parte se perdeu.

 

A realidade atual é outra. “Sei lá, se é verdade, mas gostei; toca pra frente! ” No mínimo, uma leviandade, pior quando a mentira evidente ou desinformação for intencional. As redes sociais permitiram a subtração da identidade da mensagem, notícia ou informação. Talvez seja a razão porque o WhatsApp jamais teve, ou então perdeu expressividade em muitos países, com Estados Unidos e Japão, entre outros.

 

Quando temos redes sociais notoriamente impregnadas por inverdades e distorções de fatos - seja dita a verdades, nem todas; talvez nem a maioria -, obviamente as mesmas perdem um de seus aspectos mais importantes: o de um canal de comunicação confiável de amplitude em casos de emergências públicas (vide a recente enchente no Rio Grande do Sul). Atos e abusos levianos, até irresponsáveis, tornaram as redes sociais inviáveis para quaisquer fins de utilidade pública. Por falta de confiabilidade perdeu-se um valioso instrumento para tais situações.

 

Se as redes sociais trouxeram imensas facilidades de comunicação e a aproximação entre as pessoas, ao mesmo tempo produziram avalanches de informações que invadem nossas vidas sem qualquer filtro ou instrumento seletivo entre o falso e o verdadeiro, entre o bem-intencionado e a má-fé.

 

Daí a pergunta: qual será o futuro das redes sociais? Essencialmente, o futuro das redes sociais depende de sua credibilidade, ou seja, da credibilidade dos seus usuários e de das suas contribuições. Afinal, a médio e longo prazo, ninguém aceita ser ludibriado. Afinal, por mais que a ilusão agrade, no momento decisivo, o homem prefere pisar em chão real e firme.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Cadê os Velhinhos?

 

Cadê os Velhinhos?

 

 ‘Where are the Oldies?’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Vez por outra aparece na mídia social uma relação anacrônica de objetos de produtos que faziam parte da nossa vida – nossa, para os idosos –, da geração anterior às dos atuais jovens e adultos.

 

Depois de séculos de poucas mudanças dos meios e utensílios para as mais diversas finalidades para os objetos e processos do cotidiano presente, o último século foi de fato revolucionário em termos de aperfeiçoamentos, aprimoramentos e inovações nas disponibilidades de consumo. O avanço tecnológico está impondo renovações e substituições antes dos bens e serviços terem esgotado sua vida útil. Os produtos tornam-se tecnologicamente obsoletos enquanto ainda estão funcionalmente perfeitos.

 

Consequência direta são maneiras renovadas de conduzir a vida no ambiente de recursos – e condicionantes – de uma vida em permanente mutação, sem em busca de facilitar os mais diversos aspectos da vadia. Os modi vivendi mudam a cada instante, as vezes lenta, outras vezes abruptamente. E há um preceito inflexível: o mundo moderno não admite uma vida nos moldes de décadas atrás.

 

 

Num olhar para trás percebem-se distâncias enormes entre os padrões de vida de apenas um século atrás e o presente. São mudanças de qualidade e são muitas, algumas profundas, outras menos importantes, algumas sutis, outras nem tanto:

- a conversa saÍa da boca, não dos dedos;

- a palavra era levada pessoalmente à casa do destinatário, ou então por carta ou telegrama, eventualmente por telefone;

- as notícias chegavam apenas no dia seguinte (ou mais tarde ainda), o que lhes tirava parte do impacto;

- na igreja, os homens sentavam num lado da igreja e as mulheres no outro, e o padre rezava a missa de costas para os fiéis – e em latim;

- os pais eram chamados de senhor e senhora pelos filhos, aliás, os professores também;

- os alunos iam a pé, ou de ônibus, para a escola e os livros (da FTD!) passavam dos filhos mais velhos para os mais novos – como acontecia com roupas e sapatos;

- os automóveis tinham absoluta preferência;

- o único serviço público ou privado utilizado era a energia elétrica (onde havia);

- o jogo de sala era incluída no testamento;

- homem de cabelo comprido ou de calça vermelha, impensável;  

- almoçar ou jantar fora de casa significava um evento especial; ...

- ah, e ainda não existia a pílula anticoncepcional.

 

Além disso, a estrutura familiar incluía três gerações; avó, avô, ou ambos, moravam com um dos filhos até sua despedida final. Como, então, a mulher ainda não estava tão intensivamente envolvida em carreiras profissionais, ela cuidava das tarefas domésticas e os velhinhos passavam o dia sentados num sofá ou numa cadeira de balanço – sem objetivo, sem utilidade. Mas, se você hoje pergunta a quem viveu todas estas realidades o que melhorou ou piorou desde então, uma resposta é quase unânime: o mundo era mais legível, mais compreensível.

 

Já, há algum tempo, o idoso tenta, e com bastante empenho e sucesso, livrar-se desse estereótipo. Não sem a ajuda de recursos da vida moderna, ele busca cada vez mais viver sua autonomia. Ele, ou ela, mora sozinho, tem seu computador, seu telefone celular que, obviamente, não domina em toda extensão de suas capacidades, porque não, seu carro na garagem – e um ticket de cruzeiro marítimo no bolso. E lá adiante, as opções de uma florescente indústria de casas de acolhimento de idoso está esperando de braços abertos. A própria indústria de construção civil, hoje está focada em moradias para a família nuclear – casa e, no máximo, dois filhos.

 

Foram, ou ainda são mudanças de livre escolha? Não, não foram. Elas foram claramente impostas pelos avanços técnicos que, ao longo do último século, invadiram consequentemente todas as facetas de nossas vidas, do utensílio doméstico, passando pela comunicação, à medicina, recursos sem os quais a autonomia adquirida seria impensável. E o idoso soube se beneficiar e adaptar às novas realidades – certamente nem sempre sem reservas e restrições. Afinal, ele deu origem a uma nova categoria na sociedade, que nem nome ainda tem.

 

O idoso, ou a idosa, deixou de aguardar sua morte para prolongar sua vida.   

 

 

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Qual É Nosso Sonho?

 

Qual É Nosso Sonho?

 

(“What is our dream?”) – This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Você gostaria que algo aconteça. Você torce. Que tal, um fim de semana com sol na praia? Que tal um ganho na mega sena? Que tal, um vereador, deputado, senador, ou presidente que vença as eleições para os próximos quatro anos? Você gostaria que sua filha namorasse com um moço que combine com o perfil que você idealizou? Você gostaria que o câmbio do dólar abaixasse? Você gostaria de trocar seu caro daqui a dois anos? Você gostaria...? Você gostaria...?

 

É claro. Todo dia gostaríamos que algo acontecesse. Algo para hoje, para amanhã, ou depois de amanhã. Nosso cotidiano está pleno de desejos. Desejos? Desejos são vontades e projeções desejosas de continuidade enriquecida de conteúdos da nossa realidade. Uma vida melhor, claro.

 

I have a dream” (Tenho um sonho.) Martin Luther King, o discurso, realizado no dia 28 de agosto de 1963, nada tem a ver com “eu gostaria”, ou com um simples desejo. Foi um discurso emblemático em defesa da igualdade racial nos Estados Unidos, e esse sonho custou-lhe a vida. E foi o sonho de toda uma população discriminada.

 

Sempre houve, e continua havendo muitos sonhos neste mundo – desde à libertação de povos escravizados na antiguidade, às vezes durante gerações, a realização de uma visão científica num quase sinistro laboratório. Verdadeiros sonhos costumam emergir de passados de necessidades, de sofrimento, de visões de uma vida melhor;

 

Povos migram desde centenas de milhares de anos em busca de uma vida melhor, em busca da realização de seus sonhos. Não são desejos, não são “gostaria de ... “, são sonhos cultivados por gerações.

 

Sonhos emergem de necessidades, de privações. Um relativo bem-estar não gera sonhos, apenas alimenta desejos de curto prazo, eventualmente logo substituídos por outros. Nossos supostos sonhos do momento nada movem.

 

Sonhos nascem, crescem e se realizam – ou não. Sonhos brotam de dentro de uma pessoa ou de uma sociedade, eles podem ser liderados, ... mas não construídos, sejam quais forem os interesses ou as ideologias. E não faltam exemplos de sonhos criados, ilusórios, desastrosos e autodestrutivos (p.ex., o Terceiro Reich e a União Soviética).

 

O sonho é o patrimônio de uma sociedade, sem o qual ela simplesmente vegeta, simplesmente acompanha o mundo. Qual é o nosso sonho, o sonho de nossa sociedade, de nosso país? O sonho de um país que nunca sofreu ameaças à sua integridade, que nunca sofreu privações sérias, que simplesmente vive o cotidiano? Ao mesmo tempo, um país acotovelado pelos sonhos alheios?


Qual é o nosso sonho, o sonho de uma nação constituída de imigrantes em busca da realização de seus sonhos e hoje habitada por seus descendentes, herdeiros desse espírito?

 

Qual é nosso sonho? Ou somos felizes e não sabemos?

 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Da Autonomia à Dependência

 

Da Autonomia à Dependência

(“From Autonomy to Dependence” – This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Já fomos autônomos – ‘fomos’ refere-se a nossos antepassados. Durante centenas de milhares de anos, o homem vivia exclusivamente dos de recursos naturais disponíveis e da sua capacidade de torna-los aproveitáveis. Podemos ter uma ideia dessa autonomia, observando a vida das poucas populações indígenas ainda não aculturadas. Como o homem é um ser social e sempre vivia em sociedades, havia, naturalmente, esforços conjugados e trocas intra-tribais (tudo é de todos) dentro de um padrão de vida restrito à subsistência e eventuais manifestações de caráter cultual. O ser humano solitário sempre foi, e ainda é hoje, uma anomalia

 

Com a progressiva fixação na terra surgem também as primeiras aglomerações com caráter urbano. Isso exigia um mínimo de organização e estruturação de tais sociedades. É natural que daí emergiam novas necessidades, típicas para assentamentos perenes com novos padrões de habitação durável. E novas demandas dão origem a novas respostas, entre compulsórias (p.ex. acesso a água, proteção e administrativa – mais tarde, o burgomestre) e espontâneas. Essas últimas resultavam das diferentes experiências, habilidades e capacidades dos membros dessas sociedades primitivas.

 

O próprio aprimoramento do cultivo da terra por meio de técnicas agrícolas p.ex., cumulando na rotatividade de três campos), equipamentos e ferramentas melhorados estimulou o desenvolvimento de artifícios paralelos como a moagem de grãos, a produção de ferramentas de metais, utensílios de argila e construções madeira e barro, entre outros, dando origem a atividades complementares à lavoura – dando origem a interdependências entre ocupações – e desenvolvendo habilidades e técnicas cada vez mais sofisticadas. A simbiose entre cidade e campo daí emergida é conhecida.

 

Em tempos mais recentes isso levou a especializações cada vez mais elaboradas dentro de uma vida profissional. Consolidou-se assim uma dependência e complementação mútuas entre aqueles que produziam alimentos e os igualmente importantes e indispensáveis que laboravam na produção de bens e serviços que tornassem a vida – também no campo – mais confortável; uma coexistência cada vez mais sólida e com ganhos – e perdas – em todos os setores.

 

Mas a interdependência entre os homens não parou ali. Por um lado, de conhecimentos rudimentares, em parte muito antigos, emergiu gradativamente o avanço para a medicina moderna. É preciso observar que até meados do século XX a expectativa de vida não mudou significativamente, mantendo-se em torno de 45 anos. Entretanto, nos últimos duzentos anos, a medicina fez grandes progressos: no século XVIII a expansão da vacinação, em 1922, a primeira pessoa recebe tratamento para diabetes tipo 1 com insulina, a penicilina e descoberta em 1928 e os antibióticos são usados a partir de 1940. Em 1949, a quimioterapia contra o câncer é aprovada. E esse foi apenas o começo, que resultou em atuais procedimentos médicos e recursos fármaco-terapêuticos high-tec. Hoje, transplantes de órgãos e cirurgias robóticas são parte do cotidiano. A dependência do homem da medicina tornou-se irreversível.

 

Por outro lado, depois dos importantes progressos técnicos decorrentes das revoluções energética e industrial, em menos de cem anos construímos um mundo cibernético – da secretária eletrônica à operação financeira via telefone celular – que invadiu todas as condições e potenciais da vida humana, num clique resolvendo complexidades que anteriormente exigiam extenuantes esforços físicos e mentais. E está aí a inteligência artificial, cuja extensão de capacidades, efeitos e resultados ninguém se arrisca a prever.

 

As próprias políticas econômicas e sociais oferecem hoje seguranças existenciais inimagináveis a algumas gerações atrás.  

 

Os frutos são inegáveis. Conquistamos uma expectativa de vida média mundial de 73,33 anos (2024), com picos de 87 anos em alguns países asiáticos e europeus. Eis o resultado da conjugação das conquistas civilizatórias em todos os aspectos da vida humana.        

 

Enfim, o homem atual não tem mínimas chance de sobreviver, mesmo em curto prazo, fora das intrincadas e sofisticadas estruturas que construiu para garantir o que chama de qualidade de vida. Isso não somente devidos aos modernos recursos medicinais, mas também às condições de trabelho, comunicações – físicas e virtuais –, à disponibilidade de alimentação saudável, entre outros.

 

Mas cabe uma ressalva: apenas cerca de metade da população desfruta desse padrão de Vida.

 

Por outro lado, exatamente essa metade de habitantes do nosso planeta está sujeita a uma imposição da própria tecnologia, seja qual for seu campo: não existe tecnologia perfeita, seja por suas próprias caraterísticas e particularidades, seja por efeitos externos. As consequências podem estar limitadas a um produto doméstico, mas também a todo um sistema complexo, como no caso de um colapso cibernético, ou ainda uma interferência cósmica (p.ex., uma erupção solar com sua protuberância exatamente direcionada à Terra – pouco provável, mas não impossível), afetando os milhares de satélites, cuja inoperância repentina significaria uma catástrofe para toda a humanidade com efeitos praticamente imediatos.

 

E não existe pano B que evite uma eventual calamidade. Precisamente a metade da humanidade hoje beneficiada pelo nosso status tecnológico será aquela com menos chances - ou mesmo com incapacidade - de readequação a padrões de vida mais rudimentares, ou até de sobreviver.

 

Ao longo dos últimos séculos, a humanidade construiu um complexo mundo de tecnologias interativas e interdependentes com o único objetivo de melhorar seu bem-estar e suas condições de vida, para hoje viver na total dependência do perfeito funcionamento dessa natureza paralela.